Façamos um exercício de
imaginação, não é difícil, basta fechar os olhos, permitir que a alma fique
leve e viaje no tempo, especificamente para a região nordeste da atual Itália,
durante o final do século XIX. Encontraremos uma sociedade sob forte crise
econômica, com pouco emprego e muita fome, onde reinava a desesperança e
incerteza.
Um cidadão italiano qualquer, ao
ser questionado pelo Ministro de Estado de seus pais sobre as razões que
ditavam a emigração em massa respondeu conscientemente – “Que coisa entendeis
por uma nação Senhor Ministro? É a massa dos infelizes? Plantamos e ceifamos o
trigo, mas nunca provamos pão branco. Cultivamos a videira, mas não bebemos o
vinho. Criamos animais, mas não comemos a carne. Apesar disso, vós nos
aconselhais a não abandonarmos a nossa pátria? Mas é uma pátria a terra em que
não se consegue viver do próprio trabalho"?
Esse quadro social foi o
responsável por toda uma onda migratória da Europa para a América do Sul,
especialmente ao Brasil, o eldorado, onde havia terra e oportunidade a quem
desejasse trabalhar. Provavelmente esse foi o motivo principal para que um
casal de italianinhos do Vêneto, ele de Vicenza, ela de Sarcedo, optassem por
atravessar o Atlântico com o filho primogênito e começar uma vida nova em
terras tropicais.
Toda saga, obrigatoriamente
entrelaça histórias carregadas de drama, de superação, heroísmo, vitórias e
derrotas, de chegadas e partidas. Não seria diferente com a que eles estavam
escrevendo no livro de sua história. Imagine perder, em alto mar a vida do primeiro
dos doze tesouros que eles teriam em vida, separarem-se dele no Oceano,
presenciar inertes o último suspiro, a partida lenta na imensidão das águas.
Teriam tomado a decisão correta? Quais os questionamentos que nasciam e
retumbavam em seus seres?
Longos dias possuem cem anos, já
dizia meu avô e os dias atuais são tão diferentes daqueles do século XIX, novas
tecnologias em todas as áreas de atuação humana, situações que seriam
inverossímeis, hoje são corriqueiras que tornarem-se imperceptíveis, se antes
tudo engatinhava, agora possuem brevê.
Daquele primeiro casal, o marco
zero de um trabalhador manual e de uma dona de casa, nasceram artesãos na
primeira geração, construindo sim um novo Brasil. Os filhos nascidos em solo
brasileiro, em sua maioria seguiram os passos do pai. E se estes, não
transmitiram para seus filhos os ensinamentos profissionais, perpetuaram os
valores morais que impulsionam ainda hoje o sentimento de orgulho que a força
de um sobrenome carrega. Quando olhamos as fotos da primeira geração, temos
uma convicção, não há necessidade de nenhum teste de familiaridade, todos os
filhos possuem o mesmo olhar marcante, mesmo formato de rosto, testa, nariz
adunco, grandes orelhas, mascas d’água, assinaturas genéticas incontestáveis.
A semente de desbravar novas
terras também foi transmitida, afinal, não é por acaso que encontramos nosso
DNA nos Estados Unidos, tios e primos se estabeleceram nas terras do Tio Sam
para mostrar o que os Cervas possuem de melhor. Creiam, não é somente a
capacidade de se indignar, de ser estourado, de possuir uma personalidade forte
que quando se manifesta pode ser classificada como “ataque de cervite” como
define uma prima. Somos muito mais do que descendentes de um casal italiano,
que formam um grupo ao mesmo tempo hetero e homogêneo, situação que só
comprovamos ao tirar os óculos da imprudência e observarmos as pessoas e suas
histórias com o apurado sentido de historiadores.
Contrariando o senso comum,
aquilo que fomos levados a crer, somos muitos! Somos capítulos de uma história
que está em permanente desenvolvimento, páginas raras da História, estudantes,
trabalhadores, donas de casa, aposentados, professores, artistas, contadores,
advogados, administradores, mestres e doutores, enfim, contar e precisar o
número de pessoas que nasceram a partir daquele casal leva tempo, já passamos
pela segunda, terceira, quarta, quinta e talvez estejamos próximos da sexta
geração que se aproxima em alta velocidade.
Buscamos
com interesse e afinco nossa origem, compreender de onde surgiu a coragem que
levou um jovem casal, a atravessar o Oceano em busca de novas oportunidades em um
mundo totalmente inóspito, em que o conhecimento não era encontrado em toda a
esquina. Buscamos sim, recompor, unir os laços, reforçar os nós ainda existentes,
reunir aqueles que se distanciaram, reescrever a história que ficou esquecida
no fundo das gavetas do tempo. Claro, ser Cerva é repetir que o sobrenome é
escrito com “c”, escutar a piada se é cerva de cerveja, mas sobretudo é ter
orgulho por não possuir um sobrenome comum, é ter consciência que não faltou
coragem aos desbravadores que aqui chegaram ao apagar das luzes do século XIX.
Independente
da crença que norteia nossas vidas, se acreditamos ou não em determinados
preceitos espirituais ou espiritualistas, faço um esforço literário e vejo na
frente da casa de madeira, com as ripas colocadas verticalmente, indicando que
lá vive um casal italiano, o nonno e a nonna conversando. Ele com um copo de pinga
na mão direita, se embalando na cadeira de balanço de rangido característico,
olhar ao longe como quem admira uma tela e ela absorta no tricô, produzindo
mais um casaquinho para um bambino que está prestes a chegar. O nonno com
aquele sotaque do norte italiano, pigarreia e diz realizado:
“Mia
vecchia, lo sai che siamo contenti perchè abbiamo una grande famiglia com le
persone giuste, che sanno essere vero che abbiamo fato tutto per loro di vivere
bene”. *
* “Minha
velha, você sabe que somos felizes, porque temos uma grande família, com
pessoas justas, que sabem ser verdade que fizemos tudo para que eles vivessem
bem”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário