domingo, 30 de dezembro de 2018

Observação Poética

E como observo, assim são os escritores, 
caçadores e desocupados.
Observam sem a pressa dos comuns 
ou com a fidalguia dos lordes. 
Apenas observam e percorrem cada marca do corpo,
sinal, cicatriz, entrada, monte e curva, 
assim como fazem os incautos nas aulas de geografia. 
Seja mapa, 2d, 3d ou braile, mas permita ser descoberta!

Poesia II

Essa capetinha já tem o seu lugar,
Diz que lhe encanto,
Mas desconhece,
Que já sou prisioneiro
Seja da sua presença
Ou da beleza tímida
Que esconde pelos cantos,
Mal sabe que do poder
Que emana de uma calça preta
E de uma blusa branca,
Que diria do que conquistaria,
Se tudo usasse ou dispensasse tudo,
Teria enfim um escravo sem fim!

Menina-cereja

Menina-cereja, cheirosa que só,
Confessa baixinho,
Responde rápido com esmero,
Que boca é essa que tens?
Bocas assim iguais a tua,
Foram desenhadas com esmero pela mão da natureza,
Obra de arte viva e pulsante,
Feitas para se observar,
Criadas para receber veneração,
Quando pintadas de vermelho, lilás, rosa ou nuas,
Autorizam que lábios mortais,
Singelos como pólen Encostem nos seus,
Para impor no fim,
Um desejo desenfreado,
Descobrir se o beijo dela,
Também possui o gosto doce,
Próprio da cerejeira que exala,
Quando desejo estar perto assim.

Esmero

Bocas assim, desenhadas com esmero 
pela mão da natureza, não são feitas para observar. 
Elas estão ali para receber veneração, 
para autorizar que outros lábios encostem nos seus 
e principalmente para que nós desejemos experimenta-las..

Colo

Preciso de colo, assim ela disse em uma noite de primavera. Fechei os olhos e a vi aninhada, com os braços em volta de meu pescoço. Meus lábios encostaram em sua testa, enquanto escutava sua respiração e sentia seu queixo procurar espaço em meu peito.

Minha mão esquerda encontrou a nuca e depois os cabelos macios, que foram acariciados por cinco dedos. A mão direita, atrevida e safada, repousou em sua coxa, a puxou para cima e a deitou melhor. Queria ficar assim, resistente ao tempo e as dores físicas e mentais. 

Aninhados, abraçados, entrelaçados, em estado puro de imaginação, que conforta, ameniza, envolve e liberta, mesmo quando tudo não passa de um sonho que se tem acordado.

Chuvas de Março

Chove muito! Vejo pela janela a névoa densa que se forma com a água que insistentemente se joga sobre os prédios, ruas e praças.


Penso, e assim o faço com a liberdade que ninguém me concedeu, que sair a rua agora é o que melhor poderia acontecer.

Misturar a chuva com lágrimas, molhar o sorriso, enquanto se gira igual pião nesse tabuleiro de vidas tristes e secas.

Guardaria emoções e pensamentos de tal forma que você não encontraria, por mais que desejasse. Não por despreparo.

Pode ser que seja egoísmo meu, e o é. Agir assim faz com que esses pensamentos e sentimentos sejam únicos e exclusivos.

Dizem muito e ouvem pouco. Calam e gritam, fazem birra e se amotinam. Guerra e paz, desejos e tormentos.

Enquanto a noite se alonga e a chuva continua a bater na janela, penso por onde estará.

E assim, guardo para mim, as sensações e pensamentos que nascem quando imagino tua presença.  por assim dizer

Altas Horas

Olhei no relógio, era duas da manhã. Todos dormiam e a cidade em suas sombras descansava. Recuperava sua sanidade em meio as luzes altas dos prédios e os primeiros acordes canoros. Por vez escutava ao longe algum carro mais barulhento ou moto chamativa, a rasgar o silêncio da madrugada, sem pedir autorização alguma.

Pensei exatamente, naquele momento em escrever algo inteligente, que fosse capaz de te chamar a atenção para estes meandros do mundo, na igualdade tão desigual que fermenta no peito e cria uma indignação intangível. Pensei, busquei o PC, abri o e-mail, rabisquei meia dúzia de linhas e desisti. 

Desisti, não por um motivo especial ou algo do gênero, apenas desisti ao tomar ciência de algo inapelável. Você estaria dormindo.

E de que forma, me diga, eu poderia perturbar a santidade de teu sono? Por onde estaria tua alma liberta? Acaso em algum templo ou floresta? Estaria apenas descansando sem nenhuma viagem espiritual? Não quis mandar. Desisti. Me revi nesse movimento e aí percebi.

Aquela verdade inapelável, escancarada a minha frente. Você estaria dormindo, talvez de pijama, talvez não. Usando apenas uma gota de perfume, talvez mais! Estaria entre essa atmosfera do sonho e da realidade, exposta, tal a mais bela estátua majestosa, mármore em forma de carne. Perfeita em sua imperfeição e mesmo assim, desisti de escrever.

Desejaria que fosse o primeiro e-mail a ser lido, aquele que deseja bom dia ou que perturba logo cedo, marcante, surpreendente e apenas e tão apenas para me fazer presente. Porém, como me repeti, eu desisti.

E ao fazê-lo, continuei pensando de uma forma única em ti. Destas formas que não se deve destacar e tão pouco confessar, que levam a interpretações e caminhos infinitos igual a paixão dos poetas e dos amantes. Este caminho tortuoso e cheio de paradouros, de estações de embarque e desembarque. Pensei sim, confesso. Imaginei, pensei, sonhei, fantasiei e materializei. Assim, dessa exata maneira e ao perceber que as palavras seriam inúteis, desisti de escrever.






Levei meu corpo e alma para o quarto, se estavas dormindo e visitando o mundo de Morfeu, que outro lugar desejaria estar se não lá, para encontrar com aquela que, assim despretensiosamente, fez moradia na imaginação tardia de um velho escrevinhador?

Poesia I

Viajei por uma estrada
Assim de forma despretensiosa
Numa tentativa de esquecer
Enquanto caiam lágrimas,
Salgadas e frias,
Surgidas da alma
Algumas tristezas guardadas

Poesia

Menina, garota, Mulher
Assim dessa forma,
Misturada e separada,
Deixa solto no ar,
Para quem desejar,
A certeza que vale bem lhe querer



Breve devaneio

Acordou decidida, não passaria daquela manhã. Ainda deitada, vestindo o mínimo possível, sentia o toque do lençol em todo o corpo, os radares ligados, percepções a mil.

Olhou para o lado, duas garrafas de cerveja no criado mudo, que por sorte na falava nada do que escutava naquela casa. Havia mais uma garrafa jogada no chão, próxima do sutiã e da blusa. 

Ergueu de leve, a cabeça doída, o show tinha sido espetacular, gostou das músicas, dos acordes e da companhia.

Dizia que ele a fazia bem. Talvez o fizesse mesmo. Ela contava e ele acreditava, queria escrever canções, poemas e preencher outdoors. Existia algo diferente, se completavam desinteressadamente. Incrível, diferente, raro.

Levantou finalmente, os cheiros se confundiram no ar. A cerveja choca, o suor nos cabelos e o azedo no pescoço. Decidiu, ia estrear o presente que ganhara.

Buscou na gaveta o sabonete novo e cheiroso. Cereja. Odor suave, leve e ao mesmo tempo marcante. Se perfumaria de fruta, ficaria mais doce, provocaria as imaginações férteis.

Entrou no box, tirou a última peça do corpo, branca, tamanho apropriado para seu corpo, ficará livre, bela, natural.

Abriu o registro, a água quente começou a jorrar e a experimentou com a ponta do pé. Perfeita! A temperatura e ela. Entrou sem medo e deixou que a água escorresse por todo o corpo.

Suspirou, a cerejeira se mudou para o quarto de banho. Começou a fazer raiz nela, enquanto do outro lado da cidade o despertador acordava os incautos...



Nossa Morte

Quando morremos, não partimos de súbito,
ao contrário do que se pode pensar.
Não somos aqueles balões impulsionados ao céu
que deixam o ar que lhes preenche escapar.

Partimos demoradamente, com intensidade variada
e vamos sumindo dessa existência,
de forma irreversível quando aqueles
que nos conheceram nos acompanham
nessa viagem ao desconhecido.

E assim, quando a última vez nosso nome,
feito mantra evocado nos agradecimentos
e orações for citado por estes lábios conhecidos,
finalmente encontraremos o descanso eterno.

Teimosia

Eu tinha algumas coisas para falar no início dessa tarde,
mas simplesmente, palavras se tornam desnecessárias,
praticamente dispensáveis quando se tenta
explicar uma sensação ou sentimento
que teima em guardar moradia onde não se deve demorar...

Que lugar é este?

Existe um lugar, daqueles que você só enxerga em sonhos em que se poderia escrever as mais belas páginas, sejam com estórias fantásticas ou somente com pensamentos esparsos, soltos como brisa no campo.

Gostaria de encontrar tal destino, poder trilhar um caminho belo e se não o fosse, que ao menos se tornasse suave, para lá escrever dos amores que não tive, das bocas que desejei e não beijei e das paixões platônicas que morreram em segredo. 

Lugares assim foram feitos para que se de vazão a imaginação, sem preocupações extras, em que se pode ser tudo ao mesmo tempo. Deus e demônio, corajoso e covarde, criador e criatura, mocinho e bandido. Tudo isso sem haver pressa de acabar e se ainda, não bastasse, apenas me contentaria em morrer no quarto...

O Sofá da Sala

"Estavam os dois, sentados no sofá vermelho, trazido da década de 70 para cá. Um vermelho vivo, gritante, como deve ser todo a testemunha que se preza. Uma crescente tensão tomava conta do ambiente, se encaravam como duas bestas feras prontas para o combate de suas vidas. Ele passou a mão por trás do pescoço dela e a trouxe para perto, bocas próximas, troca de olhares. Olho no olho, boca na boca, suspiros e desejos. As línguas se entrelaçam e saem a rodopiar no salão de suas bocas. Ela desliza no sofá e a mão repousa em suas pernas. Mão atrevida de homem acostumado a desbravar caminhos pelo fato, sobe em direção a sua cintura, passa pelo joelho, coxa e sobe... É chegado o momento! Toca o despertador, é hora de levantar".

Scotland

Ela escrevia há tempo para ele, em uma época em que as comunicações eram mais delicadas e difíceis do que estas trocas instantâneas de mensagem. Tinham o que poderia classificar de um canal aberto, em que se expressavam do jeito que bem entendessem. Falavam do tempo, da variação cambial, troca de estações, atraso do ônibus, fantasias, música, filosofia, literatura e cinema.

Naquela noite mais do que nunca ela estava com a mente afiada. Assistira durante a tarde a película em que Mel Gibson, no auge de sua fama, estreava a estória do escocês libertador e ali estava um combustível interessante. Provocou-o. Disse que lhe vira vestido daquele jeito, com kilt, tocando a gaita de fole sobre uma montanha enquanto o vento balançava seus pêlos ruivos.

Ele gostou. Mesmo que rapidamente, por uma questão de segundos, ele se sentiu parte dela, estava em seu pensamento de forma alegórica, mas estava. Desejou que realmente ela lhe visse assim, em comunhão com as forças da natureza, enquanto os pensamentos voavam rapidamente daquela cabecinha castanha.

Se despediram, ela disse que ia ao banho e ele ficou olhando para a tela fria e sem vida, pensando. Não nela, tirando peça por peça de roupa, até se mostrar natural e abrindo o registro do chuveiro, mas se conseguiria tirar alguma melodia do Queen em uma gaita de fole.

A Passarela de Alice


Ela percorria as ruas do centro, sempre com a maestria das grandes modelos. Desenvolta, não caminhava e sim flutuava sobre as calçadas mal conservadas. O caminho era sempre o mesmo, saia de seu prédio, dobrava para direita e ia em direção a praça.

A superava em poucos passos e logo passava na frente da livraria de Tomaz. Ele já sabia o horário de seu desfile e quando se aproximavam os ponteiros do relógio, lá ele ia para frente do estabelecimento.

Naquele dia não foi diferente. Ela passou, não lhe olhou. Não proferiu um bom dia. Ele não se sentiu derrotado, superou as lentes dos óculos dela e mirou seus olhos. Os cabelos revoltos e bem cuidados lhe faziam imaginar o cheiro do shampoo. Como ela lavaria as medeixas. Apertaria os fios ou apenas os alisaria?

Olhou o todo. A blusa decotada lhe deixou ver partes lascivas do corpo. Uma tatuagem aparecia. Teria mais? Onde? Quais seriam os desenhos eternizados na pele alva?

O olhar continuou quedado sobre ela na medida que se distanciava. A saia preta e curta sambava a medida que os quadris se mexiam. Teve vontade de correr atrás da moça.

Porém seria chamado de louco, insano, doido de amarrar em poste. Ela poderia se assustar e nunca mais passar por ali. Perderia seu objeto de veneração.

Enquanto isso ela percorria seu caminho, pensava apenas em voltar e finalmente se declarar para o rapazinho bonitinho, porém tinha medo. E se ele, ali todo dia fosse apenas uma dessas coincidências?

E assim a imaginação do ser e do não ser, das impossibilidades lhes torturavam e roubavam a chance de um café no fim da tarde.

Nudez - Carlos Drummond

"Não cantarei amores que não tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.

Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.

Nem era dor aquilo que doía;
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)
Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para se sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.

Amador de serpentes, minha vida
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.

Ó descobrimento retardado
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos; a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.”