Fiel aos rituais do amanhecer
abriu lentamente os olhos e percebeu as nuances de sombras do quarto,enquanto acostumava os nervos óticos a escassez de luz
antes de sair da cama. Aproveitava aqueles momentos para mentalmente revisar
todos os compromissos do dia, arquivar em seu HD cerebral as anotações dos
sonhos que recordava e principalmente, agradecer por seu organismo estar vivo,
pelos batimentos cardíacos e os movimentos dos pulmões a inspirar e expirar
continuamente o ar purificante.
Prestava atenção aos sons que
lhe recepcionavam. O sabiá gorjeava ao longe a melodia de todo dia enquanto o
vento escrevia uma canção por entre as folhas das árvores que protegiam sua
janela. Era a senha, chegara o momento de levantar. Jogou as cobertas para o
lado, se ergueu e esticou os braços como se desejasse alcançar alguma estrela
escondida no teto do quarto azul. Movimento seguinte lançou os braços em
direção oposta, tocando na ponta dos pés. Foi em direção ao armário e escolheu
a roupa que vestiria em minutos, tudo sóbrio, instigante e simples. Uma combinação
perfeita.
Seguiu até a cozinha, pegou a
chaleira esmaltada que herdara de sua avó e abasteceu de água até a metade da
capacidade. Não dispensava uma bebida quente antes de sair de casa. Enquanto não fervia o líquido, os pés descalços
conduziam seu corpo de um lado para o outro, a alma sempre leve e o espírito
indomável permitiam que os pensamentos voassem léguas de distância. Por um
átimo se permitiu indagar e cantarolou baixinho – como vai você, eu preciso
saber de sua vida... Passou. Foco. Olha para o relógio. São seis horas da
primeira metade do dia. Desligou o fogão, era o momento de visitar o chuveiro.
A mão direita abre o registro.
Experimenta a temperatura da água com a ponta do pé. Está perfeita. Entra no Box
e permite que ela percorra o corpo em mais um dos rituais matinais. Uma purificação
em que limpa a pele morta, lavando os cabelos revoltos. Permite que o líquido beije seus ombros,
percorra as costas, nádegas, coxas, panturrilhas e pés. Sempre atenta aos detalhes
que a pele percebe, nada diferente para uma perfeccionista nata.
Busca a toalha vinho e com ela
seca lentamente seu corpo. A peça ainda serve como saída de banho e proteção
até o quarto, onde cremes, maquiagem e batom lhe esperam. O trajeto é
rapidamente percorrido, o fez seguida por uma nuvem de vapor, testemunha discreta
de sua intimidade. Parada em frente ao espelho, deixa que a toalha beije o
chão. Começa a se encarar, maneia o rosto de um lado para o outro. Comprime os
seios com as mãos e constata que continuam belos como se tivesse vinte e poucos
anos. Fiscaliza as celulites e estrias que lhe concedem a imperfeição perfeita.
Lembram que é uma mulher de verdade.
Subitamente tem vontade de
dançar, sem importar-se com a hora e os compromissos que se avizinham. Decide conceder
essa satisfação para si e busca o controle para acionar o som e escuta –
falando sério, entre nós dois tinha que haver mais sentimento. Não é o que
desejava escutar, almeja algo mais agitado e continua a sua busca para
encontrar a trilha que embalará seu dia. Encontra um rock nacional. Vamos em
frente, sempre em frente. Não há tempo a perder!
Nua, em frente ao espelho,
volta a se observar. Cerra os olhos e cita em voz alta, Nudez de Carlos
Drummond. Percebe a verdade incontestável, escancarada de forma transparente –
em sua vida tudo era poesia, que permeia seus pensamentos, sempre a seu lado,
ensinando que enfeitar a vida só depende do esforço de cada um. Pegou o batom
vermelho e repousou nos lábios – pensou em terceira pessoa – Ela está pintando
o beijo! Eis minha poesia, passagem para tempos sem fim, que me permite ser
imortal igual ao amor que é chama acesa e não se extingue jamais.
Estou pintando meu beijo, e
assim, com essa idéia viva, olhou para as lingeries brancas repousadas na cama
e decidiu que lá ficariam. Sairia livre, leve e solta, assim como devem ser as
mulheres, paixões e amores.
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