Existe um fenômeno que acomete
uma parcela da população influenciadora das redes sociais. Não basta apenas
divulgar seus pensamentos, há necessidade de surpreender, chocar, instigar a
imaginação, manter viva sua figura e até mesmo chamar para a reflexão fora do
senso comum.
Presenciei tal fenômeno enquanto
percorria as chamadas em um importante site jornalístico. Entre um clique e
outro, me deparei com a notícia de uma atriz global que postara em rede social,
uma foto em que aparecia seminua. Deitada de costas para a lente da fotógrafa
repousava o corpo, com os pés direcionados para a cabeceira da cama. O registro
realizado em preto e branco mostrava os cabelos negros repousados de forma a
deixar exposto e desprotegido o pescoço e introduzia as costas sem imperfeições
aparentes. Direcionando o olhar para baixo da cintura, era apresentada a marca
do fio dental que evidenciava uma tatuagem estrategicamente escondida de
olhares comuns, as pernas bem desenhadas e o derrière digno de admiração e
veneração respeitosa, emoldurados por uma meia arrastão preta. Plasticamente um
dos mais belos registros que observei nos últimos meses. Um primor de arte,
digno de pôster fixado em uma parede gelo.
Não fosse essa descrição
suficiente para chamar a atenção do mais singelo espectador, a legenda
utilizada pela atriz apimentou ainda mais a publicação – “foto linda da
tathiana_novaes e sua daydreamfotografia que conseguiu que eu botasse a raba
para jogo”. A matéria ainda salientava que a postagem original ficou publicada
por pouco tempo e logo foi excluída pela dona do perfil, porém como na rede
mundial de computadores não há freio para a divulgação de imagens, textos e
afins, este registro se multiplicou.
O que realmente me chamou para
reflexão não foi a imagem de uma bela mulher despida e jogada na cama, mas o
seu comentário – “conseguiu que eu botasse a raba para jogo”. Nestes tempos de
tribunal da internet, em que cada usuário é um juiz juramentado, repleto de
pessoas impolutas e livres de máculas, defensoras da família, dos bons costumes
e do agronegócio, ter a coragem de chocar com palavras é um tremendo ato de
rebeldia.
“Botar a raba para jogo”, de
onde venho tem uma forte conotação sexual, é uma declaração de quebra de tabu,
a permissão de mergulhar profundamente nos limites da luxúria e do prazer, é
rasgar a etiqueta das convenções sociais, é ser a dona de suas vontades e
desejos, é obrigar o Compadre Washington a declarar com sua voz característica
um “sabe de nada inocente”. Assim pensaria um desavisado.
Porém a mensagem foi mais
intensa e carregada de uma verdade perturbadora. Aquela fotografia é uma série
de significados, arte, poesia bruta, resistência, rebeldia e reflexão. Convoca as
mulheres a se permitirem viver a mesma experiência, se perceberem plenas e
fortes, donas “da porra toda”, de seu nariz e corpo, reafirmar que distribuem
as cartas de seu destino, a não se curvarem aos desmandos de uma sociedade
opressora e machista, lutar por seus direitos de forma clara e objetiva e
principalmente a deixar a inveja para o milésimo plano. Mulheres uni-vos!
Lógico que também existe uma
mensagem para nós homens de bem e de mal, esquecidos neste mundo globalizado e largados
a própria sorte, é a senha para o surgimento de uma nova ordem mundial em que
os tempos são outros, de admiração e valorização das mulheres que “botam a raba
para jogo”, pois a elas, finalmente serão concedidas as chaves do Paraíso!
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| Imagem Publicação / Instagram / Site Marie Claire |

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