sábado, 22 de setembro de 2018

Botar a raba para jogo


Existe um fenômeno que acomete uma parcela da população influenciadora das redes sociais. Não basta apenas divulgar seus pensamentos, há necessidade de surpreender, chocar, instigar a imaginação, manter viva sua figura e até mesmo chamar para a reflexão fora do senso comum.

Presenciei tal fenômeno enquanto percorria as chamadas em um importante site jornalístico. Entre um clique e outro, me deparei com a notícia de uma atriz global que postara em rede social, uma foto em que aparecia seminua. Deitada de costas para a lente da fotógrafa repousava o corpo, com os pés direcionados para a cabeceira da cama. O registro realizado em preto e branco mostrava os cabelos negros repousados de forma a deixar exposto e desprotegido o pescoço e introduzia as costas sem imperfeições aparentes. Direcionando o olhar para baixo da cintura, era apresentada a marca do fio dental que evidenciava uma tatuagem estrategicamente escondida de olhares comuns, as pernas bem desenhadas e o derrière digno de admiração e veneração respeitosa, emoldurados por uma meia arrastão preta. Plasticamente um dos mais belos registros que observei nos últimos meses. Um primor de arte, digno de pôster fixado em uma parede gelo.

Não fosse essa descrição suficiente para chamar a atenção do mais singelo espectador, a legenda utilizada pela atriz apimentou ainda mais a publicação – “foto linda da tathiana_novaes e sua daydreamfotografia que conseguiu que eu botasse a raba para jogo”. A matéria ainda salientava que a postagem original ficou publicada por pouco tempo e logo foi excluída pela dona do perfil, porém como na rede mundial de computadores não há freio para a divulgação de imagens, textos e afins, este registro se multiplicou.

O que realmente me chamou para reflexão não foi a imagem de uma bela mulher despida e jogada na cama, mas o seu comentário – “conseguiu que eu botasse a raba para jogo”. Nestes tempos de tribunal da internet, em que cada usuário é um juiz juramentado, repleto de pessoas impolutas e livres de máculas, defensoras da família, dos bons costumes e do agronegócio, ter a coragem de chocar com palavras é um tremendo ato de rebeldia.

“Botar a raba para jogo”, de onde venho tem uma forte conotação sexual, é uma declaração de quebra de tabu, a permissão de mergulhar profundamente nos limites da luxúria e do prazer, é rasgar a etiqueta das convenções sociais, é ser a dona de suas vontades e desejos, é obrigar o Compadre Washington a declarar com sua voz característica um “sabe de nada inocente”. Assim pensaria um desavisado.

Porém a mensagem foi mais intensa e carregada de uma verdade perturbadora. Aquela fotografia é uma série de significados, arte, poesia bruta, resistência, rebeldia e reflexão. Convoca as mulheres a se permitirem viver a mesma experiência, se perceberem plenas e fortes, donas “da porra toda”, de seu nariz e corpo, reafirmar que distribuem as cartas de seu destino, a não se curvarem aos desmandos de uma sociedade opressora e machista, lutar por seus direitos de forma clara e objetiva e principalmente a deixar a inveja para o milésimo plano. Mulheres uni-vos!

Lógico que também existe uma mensagem para nós homens de bem e de mal, esquecidos neste mundo globalizado e largados a própria sorte, é a senha para o surgimento de uma nova ordem mundial em que os tempos são outros, de admiração e valorização das mulheres que “botam a raba para jogo”, pois a elas, finalmente serão concedidas as chaves do Paraíso!



Imagem Publicação / Instagram / Site Marie Claire

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