Aconteceu de forma tão singular. em uma destas arrumações encontrei uma velha bíblia, a palavra de Deus já fustigada pela ação de traças e umidade que deformaram por completo a publicação. Natural você se desvencilhar de livros em tal estado, mas o que mais chamou minha atenção foram os comentários a respeito de minha intenção de encaminhar à reciclagem a Palavra do Senhor.
Entre argumentos de enterrar o livro ou queima-lo, decidi por colocá-lo em uma destas sacolas plásticas de supermercado e depositá-lo diretamente no tonel de lixo reciclado.
Os olhares de reprovação me fizeram sentir como se vivesse ainda na Idade Média, onde atitudes bem menos blasfêmicas eram condenadas à morte em fogueira, após infindável suplício nos aparelhos de tortura medieval, tudo avalizado pelos comentários que haviam cometido um pecado e ofendido a Deus.
Pensei, pecado é negar assistência a quem realmente precisa; não saciar a fome de um irmão; deixar que o frio solape as famílias em nosso rigoroso inverno; é desejar a mulher ou o marido do próximo (a), é roubar, matar, trapacear e desviar dinheiro da saúde, estes sim motivos mais que suficientes para que a alma pecadora permaneça a eternidade no mais profundo e ardente inferno, tal o de Dante.
Agora,se por este meu ato, de lançar a reciclagem folhas de papel rabiscadas por tinta for condenado por Deus aos castigos próprios que me disseram ser merecedor, ficarei com a suspeita que Deus é míope!
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