sábado, 29 de setembro de 2018

Cléo, café e quindim


Entre as certezas que o simpático Manuel registrava em seu íntimo é que toda sexta-feira a tarde, eles apareceriam, independente das condições de temperatura e pressão atmosférica. Não importava se fazia um frio polar, um calor desértico, chuva fraca e vento intenso ou sopro e precipitação intensa. Era sagrado, às 16 horas entravam e cumprimentavam com acenos a todos e buscavam a última mesa que ficava previamente reservada e encostada na janela. Pegavam alguma revista do aparador e iniciavam a cerimônia milenar.

Raquel roubava a atenção de todos com seus cabelos loiros naturais cortados à altura do pescoço. A volúpia lhe fez moradia e todos conheciam muito bem suas preferências, pelo menos as gastronômicas. Uma xícara de café preto, forte, sem açúcar e um quindim. Pobre daquele que afirmasse que ela plagiava descaradamente o gosto refinado do poeta das coisas simples. Ela iniciava um bombardeio de justificativas para demonstrar que era uma tradição de sua família pelotense. Raquel era de uma candura e selvageria contrastantes. Gostava de ler as publicações de amenidades, para tensão, já bastava o mercado financeiro que encarava diariamente.

Relacionamentos longos como o de Raquel e Heitor guardam extremamente escondidas sob as mais absurdas sutilizas a sua verdadeira essência. Isso aprimorou a obsessão de Heitor pelos detalhes. Todos tinham a convicção que houvesse algum concurso para escolher a face do detalhista padrão, aquele reconhecido em todos os cantos do globo ele venceria com larga vantagem sobre o segundo colocado.  Os atendentes estavam calejados com suas manias e a forma com que apreciava ser servido. A caneca com o pingado longo, deveria ter sua asa direcionada para a direita da mesa, em uma angulo de dez graus em paralelo a linha central da mesa, para que sua mão, automaticamente a segurasse sem que precisasse desviar os olhos dos artigos automotivos.  A cereja do bolo ficava por conta do pão de queijo que deveria ser de um dourado uniforme, tarefa insana de ser atingida com perfeição.

Outro detalhe importante a ser observado, o café era sempre consumido em silêncio. Nenhuma palavra trocada entre eles, sempre em obsequioso silencioso! Sempre, sem exceções, pelo menos até aquele dia. Todos testemunhariam a quebra de um dogma e o rompimento das amarras das tradições que transformam certezas em dúvidas, dias em noite de forma traumática, independente de seu resultado. Nem tudo é uma operação matemática em que o somatório de duas duplas resulta em um quarteto.

“A Cléo está uma delicia, que mulher linda, por ela eu esquecia que sou casada. Não concorda?” – sentencia do nada Raquel.

Algo que não ensinam no grupo escolar é que este tipo de questionamento, oriundo do nada, em momentos de relaxamento e desatenção é capaz de desencadear uma catástrofe sem precedentes, a derradeira hecatombe. Terra para Heitor, Terra para Heitor. We have a problem! “Ela descobriu minha saliência com a atendente da academia. Estou acabado! Adeus existência carnal!” Começou a sofrer ao imaginar suas roupas sendo lançadas da janela, ao vivo teria um AVC quando acontecesse essa manifestação de carinho pós uma inocente cagadinha matrimonial.

“Oi? Quem?” – foi o máximo que conseguiu articular enquanto estudava alguma desculpa factível e reconhecia as rotas de fuga que se apresentavam.

“Heitor, onde estás com a cabeça? Como quem, a Cléo Pires. Aqui oh, vai me dizer que tu nunca reparaste. Vocês homens reparam até as barangas da esquina, imagina ela!” – disse lhe mostrando a deusa escalando uma cadeira, vestindo apenas uma camiseta, deixando suas coxas a mostra.

“Ah! Essa, sim, sim”.

“Como assim, essa Heitor, acaso existe outra Cléo que eu não conheça?”

“Claro que não Raquel, que idéia! Estava apenas distraído, fiquei preocupado com o que li, parece que a fábrica de carros...”

“Heitor, amor meu – interrompeu-o com ironia – estou aqui, dizendo que acho a Cléo uma mulher digna de entrar na nossa vida, que eu toparia viver um triângulo amoroso e tu fala de carro? Sério isso?”

Situações extremas requerem atitudes igualmente extremas. Este é o momento clássico, em que palavras se fazem desnecessárias. O silêncio torna-se imperioso e seguir as tradições já experimentadas e aprovadas é o único caminho seguro. Lembre do silencio! Todas as sextas anteriores foram acompanhadas dele, porque quebrar a rotina? Geralmente menos é mais, pensou ele antes de tentar justificar sua imperdoável gafe

“Desculpe, é que...” balbuciou ele, antes de ser atropelado por uma narrativa do que os três poderiam fazer juntos no recôndito do quarto, a região sagrada e dedicada a luxuria e devassidão.  Enquanto Raquel lhe sussurrava com sua metralhadora oral todas as fantasias e situações dignas de ruborizar a mais devotada meretriz, o cérebro masculino de Heitor entrou em um repentino trabalho de criação.

Imaginou aquele contraste de mulheres em sua casa. Uma loira e a outra morena, desfilando em trajes mínimos e talvez até dispensando os mesmos, entre a cozinha e a sala. Suspirou. Seria o rei de duas rainhas e os feitos de Artur de Camelot nada seriam perto dos dele.  Criariam odes a ele, o grande Heitor, filho de Mário, neto de Luis, descendente de Antônio “o conquistador”, jamais seria esquecido por ter encontrado com tanta facilidade o nirvana. Viu Cléo experimentando o brigadeiro feito na panela azul e oferecendo com o dedo indicado para a doce Raquel. Ele aproveitaria para pedir uma taça do Malbec mais encorpado quando elas viessem ao seu encontro. O paraíso! Perceberia os olhares invejosos dos vizinhos quando saísse com as duas entrelaçadas em seus braços e não se importaria, pois teria a certeza de ser o filho dileto do Criador!

Porém a felicidade e realização plena não se destinam para o homem simples, creia que em todo sonho perfeito, a introdução do tridente do pequeno rubro, surte o mesmo efeito do pó de pirlimpimpim.  Foi tomado da consciência do ônus que lhe causaria aquele sonho, transportado, sem escalas para o purgatório, onde uma tela gigante mostrou o inevitável. Shampoo em dobro, cremes corporais em profusão, teria que abrir mão de seu recanto criativo para que ali fosse declarado closet imperial, cabelos soltos no ralo, falta de espaço na cama, desavenças por blusas e sapatos, cartão estourado por compra de bolsas em dúzias, TPM dobrada, reclamações potencializadas por causa daquela toalha esquecida sobre a cama, implicância com o sagrado futebol de quartas, ciúmes exacerbado, mas o pior lhe foi revelado. O pavor de todo homem, para ele seria um castigo duplo – A sogra, ou melhor, duas sogras! Ele não merecia tamanha má sorte!

“Claro que isso tudo hipoteticamente, porque no mundo real a Cléo nem olharia pra nós” – foi a senha que autorizou o pouso na realidade da padaria. Olhou para os azulados olhos de Raquel e num rompante fez o que todo homem faria em seu lugar. Ergueu o braço e pediu a conta.

sábado, 22 de setembro de 2018

Botar a raba para jogo


Existe um fenômeno que acomete uma parcela da população influenciadora das redes sociais. Não basta apenas divulgar seus pensamentos, há necessidade de surpreender, chocar, instigar a imaginação, manter viva sua figura e até mesmo chamar para a reflexão fora do senso comum.

Presenciei tal fenômeno enquanto percorria as chamadas em um importante site jornalístico. Entre um clique e outro, me deparei com a notícia de uma atriz global que postara em rede social, uma foto em que aparecia seminua. Deitada de costas para a lente da fotógrafa repousava o corpo, com os pés direcionados para a cabeceira da cama. O registro realizado em preto e branco mostrava os cabelos negros repousados de forma a deixar exposto e desprotegido o pescoço e introduzia as costas sem imperfeições aparentes. Direcionando o olhar para baixo da cintura, era apresentada a marca do fio dental que evidenciava uma tatuagem estrategicamente escondida de olhares comuns, as pernas bem desenhadas e o derrière digno de admiração e veneração respeitosa, emoldurados por uma meia arrastão preta. Plasticamente um dos mais belos registros que observei nos últimos meses. Um primor de arte, digno de pôster fixado em uma parede gelo.

Não fosse essa descrição suficiente para chamar a atenção do mais singelo espectador, a legenda utilizada pela atriz apimentou ainda mais a publicação – “foto linda da tathiana_novaes e sua daydreamfotografia que conseguiu que eu botasse a raba para jogo”. A matéria ainda salientava que a postagem original ficou publicada por pouco tempo e logo foi excluída pela dona do perfil, porém como na rede mundial de computadores não há freio para a divulgação de imagens, textos e afins, este registro se multiplicou.

O que realmente me chamou para reflexão não foi a imagem de uma bela mulher despida e jogada na cama, mas o seu comentário – “conseguiu que eu botasse a raba para jogo”. Nestes tempos de tribunal da internet, em que cada usuário é um juiz juramentado, repleto de pessoas impolutas e livres de máculas, defensoras da família, dos bons costumes e do agronegócio, ter a coragem de chocar com palavras é um tremendo ato de rebeldia.

“Botar a raba para jogo”, de onde venho tem uma forte conotação sexual, é uma declaração de quebra de tabu, a permissão de mergulhar profundamente nos limites da luxúria e do prazer, é rasgar a etiqueta das convenções sociais, é ser a dona de suas vontades e desejos, é obrigar o Compadre Washington a declarar com sua voz característica um “sabe de nada inocente”. Assim pensaria um desavisado.

Porém a mensagem foi mais intensa e carregada de uma verdade perturbadora. Aquela fotografia é uma série de significados, arte, poesia bruta, resistência, rebeldia e reflexão. Convoca as mulheres a se permitirem viver a mesma experiência, se perceberem plenas e fortes, donas “da porra toda”, de seu nariz e corpo, reafirmar que distribuem as cartas de seu destino, a não se curvarem aos desmandos de uma sociedade opressora e machista, lutar por seus direitos de forma clara e objetiva e principalmente a deixar a inveja para o milésimo plano. Mulheres uni-vos!

Lógico que também existe uma mensagem para nós homens de bem e de mal, esquecidos neste mundo globalizado e largados a própria sorte, é a senha para o surgimento de uma nova ordem mundial em que os tempos são outros, de admiração e valorização das mulheres que “botam a raba para jogo”, pois a elas, finalmente serão concedidas as chaves do Paraíso!



Imagem Publicação / Instagram / Site Marie Claire

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Desejo Eleitoral


Argumentar qualquer idéia política nestes tempos turvos é a certeza de dissabor e estresse, salvo quando este exercício de cidadania ocorre entre pessoas que comungam da mesma vertente ideológica e balancem cores iguais nas ruas. Hoje o quadro é pintado com nuances nebulosas, sem que haja um real crescimento e desenvolvimento de questões primordiais, pois somente um insano desejará encontrar um motivo para dor de cabeça.

Não posso cravar uma resposta adequada para a responsabilidade deste cenário, porém, creio que haja um pouco de responsabilidade da família, que não discute e ensina sobre política e tão pouco incentiva os mais jovens a buscar informações confiáveis e ao desinteresse dos projetos educacionais que sabotam a História e Filosofia, matérias fundamentais para o desenvolvimento cidadão. Desta forma, a mão invisível que tudo balança, atinge êxito em seu propósito de dividir para comandar, semeando ainda mais o desinteresse da sociedade desorganizada.

O cidadão não percebe que faz parte do jogo desenvolvido nestes grandes salões. Ele não deixa de ser uma peça sem importância estratégica neste nada sutil tabuleiro político. A regra do jogo é cada vez mais clara e o portador de registro eleitoral recebe atenção em ciclos bianuais, um período de euforia e ufanismo em que lhe são proporcionados abraços, adesivos para carros, camisetas, bandeirolas, canetas e bonés e uma enxurrada ideológica capaz de causar inveja em quem não a obtém.

A grande verdade, esta redutora e ao mesmo tempo redentora de biografias, é que o brasileiro médio, onde eu me incluo, desconhece em nacos gigantescos o que realmente é decidido nos corredores noturnos da Capital Federal. O antigo toma lá, dá cá, combatido nos discursos politicamente corretos é um motivo de indisfarçável comemoração entre iguais.

Somente o brasileiro raiz, alienado pelo discurso de “nós contra eles”, da “mídia golpista”, dos “direitosos que desejam entregar o País ao capital estrangeiro” e os “esquerdistas que buscam transformar o rincão verde-amarelo em uma república bolivariana”, acredita que conseguirá emprego, moradia, saúde, educação e segurança, agindo dessa forma acusatória, egoísta, apaixonada e doentia de encarar o destino de uma Nação.

Busco em meu arquivo mental e não encontro nenhum outro período de nossa História em que o País enfrentou uma crise moral tão profunda como esta. Presenciamos a escrita de páginas com cores fortes que não se apagarão jamais e mesmo assim não percebemos que este navio está à deriva. Sem norte, rumo, porto, apenas com uma tripulação bufônica.

Questão de dias haverá eleição presidencial e as alternativas que se apresentam para escolha pertencem a grupos ao mesmo tempo antagônicos e homogênicos, alguns exercendo papel de inquisidores e outros de vítimas destas circunstâncias políticas. Existem aqueles que se apresentam como o único oásis do deserto, os que caminharam junto dos últimos mandatários, sendo que alguns desejam se desconectar do passado, ainda há os que fazem vista grossa a corrupção e os detentores de fórmulas mágicas para solucionar os graves problemas sociais e não o fazem.

Entre estes descritos acima, cada um com suas virtudes e defeitos, sairá quem executivamente sentará na cabine de comando deste quase continente. Desconheço quem será, porém desejaria que ele fosse escolhido com consciência, tomada da capacidade de reflexão analítica e fria, despida de paixões ideológicas que favorecem somente os membros da alta direção, que deixam sempre os interesses do povo de lado, e a ele esquecido no fundo da gaveta.

domingo, 16 de setembro de 2018

Por onde andam as pessoas interessantes?



Um questionamento tão simples, porém de difícil resposta.  Por um simples motivo, que fica presente nestes dias confusos e tumultuados da história da existência humana. Há uma densa névoa confundindo os radares internos. Deixamos de distinguir as pessoas interessantes em meio ao rol comum das pessoas rasas que se multiplicam de forma assustadora.  Descobri-las é uma tarefa penosa de execução, porém extremamente prazerosa quando se obtém sucesso ao encontrar tamanhos tesouros perdidos.

O círculo de certezas e egos inflados espalhados pelos cantos deste mundo globalizado e conectado, não comportam e tão pouco se adaptam a simplicidade. Portanto, pessoas interessantes se tornaram um item raro, são deixadas de lado, tal quais os melhores dicionários, o básico do básico. Logicamente que necessitamos de olhos extremamente treinados e a mente afiada para perceber as sutilezas deixadas pelo caminho. Aqui abro rapidamente um parêntese, nem todo aquele que é interessante para mim, o é para você. Parece complexo como uma lição de física, mas garanto ser mais fácil que girar uma maçaneta.

Despretensiosamente enquanto percorria intensamente o caminho que liga dois pontos distantes, esbarrei em um destes quase extintos e mitológicos seres. A necessidade de falar do corpo não se faz presente. Seria como chover no molhado e aqui, novamente encaramos a subjetividade. Beleza é igualmente um ponto de vista, somatório de características que aprazem a uns e distanciam outros. O estado físico é passageiro e está mais para condutor que destino.

Interesso-me pelo que não é mostrado, busco desnudar a alma, retirar lentamente as camadas de verniz protetor, descobrir ali a vida, da mesma forma que Davi nasceu de um bloco de mármore. Quando você se propõe a encarar as pessoas desta forma, em uma análise não profissional ou acadêmica, os ganhos são imensuráveis. Portanto, o que acaba sendo importante é a individualidade, que me encanta com os pequenos detalhes.  Exemplos? Como ela delicadamente separa as roupas para lavar, misturando lençóis e panos de prato e não enxágua a lingerie no banho. Fico perplexo ao constatar que existe naquele ser, uma força infinita para agüentar pauladas da vida e energia para se requebrar nas noites de sábado. Comungo das certezas e incertezas e da forma de encarar o invisível enquanto clama a proteção de Thor, Mercúrio, Atena, Posseidon e Zeus.

Pessoas que se permitem conhecer desta forma são interessantes ao extremo. Trazem para este mundo de provações, uma lamparina para ser ponto de referência, mostrando que na simplicidade moram grandes e admiráveis oportunidades. Acaso você encontre alguém interessante, tente sê-lo igualmente para ela, pelo máximo de tempo possível, para que se dispam e se toquem onde os olhos físicos não percebem. Garanto que os ganhos serão imensos e a satisfação inexplicável. Vale à pena e como já ensinou Fernando Pessoa, tudo sempre vale quando a alma não é pequena

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Lábios lascivos

Os lábios são importantes,
Guardiões da porta das almas,
Tem como arma potente,
O beijo que sela tudo,
A amizade singela
O amor perene e até mesmo
A paixão lasciva.
Busco em cada lábio
O beijo que cesse minha sede,
Essa incansável busca
De me entregar a uma mulher,
Que domine esse desejo,
De fazer amor sem pressa alguma.
Lábios assim são raros,
Jóias da coroa, potes de ouro,
E quando se encontra um,
Os nossos ficam asiosos de sentil-los,
Assim, do mesmo jeito que ficam,
Quando miram os teus!

Felicidades

Sou ansioso. Pelo menos penso assim, não consigo deixar para resolver qualquer questão pra depois. Prefiro entrar, no vocabulário dos peladeiros, rasgando do que frouxo. Assim me fiz. Esta é a minha essência.

Não consigo comprar um presente e deixá-lo guardado para depois. Falar o que vem a mente para amanhã. Esse tempo futuro pode não chegar e se perde nas ruas e salas oportunidades únicas!

Por estes dias haverá alguém de aniversário! Um certo alguém que poderia ser o da musica, mas não o é.

Esse alguém é real, vivo, possui carne, ossos, sentimentos, alma. Uma essência apaixonante, inesquecível e eterna.

Recordo a primeira vez que a encontrei. Deslizou por entre corredores de classes, sem olhar para os lados, dona de si e da situação. Naquele momento recebi o soco que me derrubou. Me encantei, apaixonei e assim continuo!!!

Agora estreará um novo tomo de sua história, desejo que tenha paz, muita luz, tempo para falar sobre o universo, a alma, a vida, sexo, planos e conquistas. Que tenha saúde de sobra para ser quem é, dinheiro pra comprar o que lhe for aprazível.

Que consiga escutar a música que lhe chame para dançar, viaje muito, ria, sonhe, seja para sempre ela e se isso significa algo, que compreenda e apenas e tão somente me mantenha próximo!

Janelas indiscretas

Estou sentado próximo a janela da sala. Olho para fora, protegido do frio e vejo incontáveis pontos de luz. Não é a luz das almas, mas aquela gerada por motores que ilumina e aquece nosso tão predatório modo de viver. Em cada janela, há uma estória, alguém fazendo amor, comendo pipoca, lavando o corpo, lendo, arrumando a cama, a bolsa e a mala. Existe riso e palhaçada, choro e tristeza, uma infinidade de possibilidades. O meu sonho? Ter um telescópio nesta janela. Não me entenda mal, não é para tentar dar fé na vida dos outros, longe de mim, mas para ver se em alguma dessas janelas te encontro, do jeito que for e quiser, afinal, não custa nada te trazer do sonho para a vida real!

Chatice Extrema

Nunca fui um sujeito de gestos amplos de carinho.
A vida me fez assim, na base do corte seco
e da desconfiança nos meus semelhantes.

Muito simples esta equação.
Porém a medida que os anos passam,
vou sentindo uma enorme necessidade
de alterar esse modus operandi.

Meus olhos ficam procurando um sinal
em aplicativos de mensagem, no email e nas redes sociais.
Silêncio total!

Onde terei errado?
Terei pesado a mão?
Desejarei mais do que dou e mereço?
Serei dono de muito tempo livre?
Carente ao extremo?

Ainda aposto que seja um carma proveniente de outras encarnações,
nada desta vida em que apenas busco um lugar ao sol.

Você

Quero tirar cada peça de tua roupa,
Como se estivesse descobrindo
Um tesouro há muito desejado,
Devagar, sem pressa alguma,
Não quero que termine,
A sensação de tocar,
Tua pele macia, sardenta e lisa,
Do arrepio percorrendo a espinha
E o cor que sobe pelas pernas,
Testemunhar as pupilas dilatadas,
O surgimento da água na boca,
Enquanto recebo a maciez dos lábios
Perdendo a velocidade própria,
De uma língua arredia,
Que se nega a confessar
Aquilo que o corpo grita!

Ela está pintando o beijo


Fiel aos rituais do amanhecer abriu lentamente os olhos e percebeu as nuances de sombras do quarto,enquanto  acostumava os nervos óticos a escassez de luz antes de sair da cama. Aproveitava aqueles momentos para mentalmente revisar todos os compromissos do dia, arquivar em seu HD cerebral as anotações dos sonhos que recordava e principalmente, agradecer por seu organismo estar vivo, pelos batimentos cardíacos e os movimentos dos pulmões a inspirar e expirar continuamente o ar purificante.

Prestava atenção aos sons que lhe recepcionavam. O sabiá gorjeava ao longe a melodia de todo dia enquanto o vento escrevia uma canção por entre as folhas das árvores que protegiam sua janela. Era a senha, chegara o momento de levantar. Jogou as cobertas para o lado, se ergueu e esticou os braços como se desejasse alcançar alguma estrela escondida no teto do quarto azul. Movimento seguinte lançou os braços em direção oposta, tocando na ponta dos pés. Foi em direção ao armário e escolheu a roupa que vestiria em minutos, tudo sóbrio, instigante e simples. Uma combinação perfeita.

Seguiu até a cozinha, pegou a chaleira esmaltada que herdara de sua avó e abasteceu de água até a metade da capacidade. Não dispensava uma bebida quente antes de sair de casa.  Enquanto não fervia o líquido, os pés descalços conduziam seu corpo de um lado para o outro, a alma sempre leve e o espírito indomável permitiam que os pensamentos voassem léguas de distância. Por um átimo se permitiu indagar e cantarolou baixinho – como vai você, eu preciso saber de sua vida... Passou. Foco. Olha para o relógio. São seis horas da primeira metade do dia. Desligou o fogão, era o momento de visitar o chuveiro.

A mão direita abre o registro. Experimenta a temperatura da água com a ponta do pé. Está perfeita. Entra no Box e permite que ela percorra o corpo em mais um dos rituais matinais. Uma purificação em que limpa a pele morta, lavando os cabelos revoltos.  Permite que o líquido beije seus ombros, percorra as costas, nádegas, coxas, panturrilhas e pés. Sempre atenta aos detalhes que a pele percebe, nada diferente para uma perfeccionista nata.

Busca a toalha vinho e com ela seca lentamente seu corpo. A peça ainda serve como saída de banho e proteção até o quarto, onde cremes, maquiagem e batom lhe esperam. O trajeto é rapidamente percorrido, o fez seguida por uma nuvem de vapor, testemunha discreta de sua intimidade. Parada em frente ao espelho, deixa que a toalha beije o chão. Começa a se encarar, maneia o rosto de um lado para o outro. Comprime os seios com as mãos e constata que continuam belos como se tivesse vinte e poucos anos. Fiscaliza as celulites e estrias que lhe concedem a imperfeição perfeita. Lembram que é uma mulher de verdade.

Subitamente tem vontade de dançar, sem importar-se com a hora e os compromissos que se avizinham. Decide conceder essa satisfação para si e busca o controle para acionar o som e escuta – falando sério, entre nós dois tinha que haver mais sentimento. Não é o que desejava escutar, almeja algo mais agitado e continua a sua busca para encontrar a trilha que embalará seu dia. Encontra um rock nacional. Vamos em frente, sempre em frente. Não há tempo a perder!

Nua, em frente ao espelho, volta a se observar. Cerra os olhos e cita em voz alta, Nudez de Carlos Drummond. Percebe a verdade incontestável, escancarada de forma transparente – em sua vida tudo era poesia, que permeia seus pensamentos, sempre a seu lado, ensinando que enfeitar a vida só depende do esforço de cada um. Pegou o batom vermelho e repousou nos lábios – pensou em terceira pessoa – Ela está pintando o beijo! Eis minha poesia, passagem para tempos sem fim, que me permite ser imortal igual ao amor que é chama acesa e não se extingue jamais.

Estou pintando meu beijo, e assim, com essa idéia viva, olhou para as lingeries brancas repousadas na cama e decidiu que lá ficariam. Sairia livre, leve e solta, assim como devem ser as mulheres, paixões e amores.