segunda-feira, 27 de março de 2017

A Yoga de Albano

Escritório, sete da manhã, modorrenta segunda-feira onde nada que devia acontecer ocorre e o que deveria acontecer nem manda noticias.  Silêncio quebrado com aquela indagação inquisitória.

_ Albano, tu nem sabe, ontem fiz uma hora e meia de Yoga! Que exercício, a gente meche com toda a musculatura, tu devia tentar um dia desses – assim, animadamente Patrícia bombardeou o pobre Albano, antes dele beber o primeiro gole de café.

Ela estava curtindo um momento fitness, cortando carboidratos, decepando doces de sua dieta e inserindo um programa rígido de atividades físicas que cansavam só de escutar. Duas horas de caminhada, intercalada por uma de bicicleta e mais duas de caminhada. Albano pobre coitado imaginava que um dia entraria no escritório e veria um palito de um metro e sessenta no lugar de Patrícia.

Ele só teve tempo de dizer que talvez tentasse novamente um dia.

_Como assim tentar novamente. Tu já fez Yoga? Quando isso criatura? Olhando pra ti jamais poderia imaginar!

O problema, pensou o pobre Albano, é que as pessoas pensam que as outras já nasceram velhas, com os problemas de junta ou visão. Não, elas foram esbeltas e desejadas, embora pareçam velhos Mavericks, tiveram sua época, hoje só bebem.

_Sim, fiz.

_Quando, conta, detalhes!

Patrícia era assim, instigava Albano, desejava saber detalhes, depois gargalhava alto, aquela risada solta, nascida sob o estomago e que ecoa de forma gostosa por toda sala. Não foram poucas as vezes que as pessoas olhavam Patrícia com a impressão de não entenderem patavinas.

_Deixa pra lá, disse o pobre rapaz.

_ Não! Quero saber, a gente até podia fazer juntos. Tu já fez o passo do tigre?

Ele suspirou e novamente suspirou e por uma última vez puxou mais fundo o ar para os pulmões.

_Patrícia, lembrar o tempo de Yoga me faz recordar principalmente a Professorinha e aquele... pausa dramática, ele havia ultrapassado a fronteira da segurança. Não havia retorno. Era calar ou enfrentar as conseqüências.
_Agora continua – decretou a inquisitora colega.

_ É que ela tinha um belo corpo que não foi satisfatoriamente explorado, só isso.

_Olha só Albano, não ou boba, se tu diz que era um belo corpo que não foi satisfatoriamente explorado, porque ele não foi?

Patrícia era esperta, pelas beiradas comia o mingau mais frio e arrancava as confissões mais calhordas do pobre Albano. Ele lembrou a primeira vez que foi ao Studio, presente da prima solteirona adepta a técnica e a forma como aquela morena o recebeu. Cordial o deixou a vontade, explicou as técnicas de relaxamento, perguntou se poderia acender um incenso e se o volume da musica estava de agrado.

Deitado no solo começou as técnicas de relaxamento, inspira, expira, inspira, expira, esvazia a mente, pense em nada e quanto mais ela falava, mais ele pensava nas curvas que a roupa escondia, no colo farto que despertava os desejos mais sacanas. Lá pelas tantas ela disse com voz aveludada, agora vamos fazer esses movimentos que imitam animais. Pra que? Pra que?

Naquele momento Albano percebeu que aquilo não acabaria da forma que esperava. Ela olhou para ele, a caça e languidamente perguntou se ele também estava com calor. Balançou afirmativamente a cabeça. Primeiro foi a blusa, depois a calça e se fez o fio dental vermelho. Desnecessário entrar em pormenores.

As aulas se repetiram outras vezes, invariavelmente a senha era a mesma – Albano,você também está com calor? Ele se sentia único, o dono do campo. Partia para casa tomado do poder concedido somente ao macho alfa. Os amigos sacaram que acontecia algo com Albano, o que afinal tu está aprontando mocorongo?

Ele relutou e por fim contou detalhe por detalhe o que acontecia nas tarde em que buscava o relaxamento profundo.Os amigos começaram a rir, mas do que galhofavam? Até que Orestes explicou, a Lucicleide fez isso com todos nós, ela prensa um baseado instantes antes de receber os alunos, fica doidona, vê elefante azul subindo pela parede e passa todos nós em revista. É uma devoradora de incautos.

O mundo de Albano desmoronara, não apareceu mais. Anos depois saudoso de suas aventuras resolveu ligar para o telefone que tinha da outrora amada e escutou o desabafo da nova dona linha – por favor, parem de ligar atrás dessa Lucicleide, é homem telefonando de manhã, a tarde, a noite, na madrugada, o que essa criatura fazia da vida? Albano pediu desculpa.

Soube depois pelo mesmo Orestes que Lucicleide havia feito um italiano se encantar por suas curvas nacionais e fora embora para o velho mundo, já tinha três filhos, virara uma matrona sustentada por pastas, gnocchi e outras iguarias.

_Hein Albano, aterrissa, porque o corpo não foi satisfatoriamente explorado criatura? Vai me deixar nessa gastura?

Rubro de vergonha por seu antigo papel, Albano disse misteriosamente


_A maconha – pausou e deu outro gole no café – a maconha causou isso e outras coisas que não me lembro mais.

Queen Daenerys Targaryen

Ela entrou no quarto, apressada, perdera a hora apesar de ter levantado antes do tempo. Onde estava o sapato, aquele amaldiçoado que combinava perfeitamente com o vermelho de seus cabelos? Não daria trinta anos para aquele rosto nem sob tortura, mas sim, ela começa a percorrer o caminho inevitável do amadurecimento físico e íntimo.

Precisava acordar o pequeno, deixar para a avó o preparo do café, já revisou os deveres de casa, muito a fazer, pouco tempo. O trânsito caótico era prenúncio do estresse que enfrentaria para percorrer os quase dez quilômetros de casa ao serviço. Não adiantava pegar a Avenida larga, ela estava parada! Sete horas da manhã.

Desce apressada, carrega bolsa, chave do carro, óculos na testa apesar do sol já castigante, não o repousa sobre os olhos, diz que enxerga melhor assim. Brinca que não é vampira, embora tenha minhas dúvidas. Corre, tropeça em mim, tudo cai menos sua cordialidade e seu humor quase raro. A ajudo nos agachamos e reerguemos sincronizadamente.

Agradece me dando um beijo estalado na bochecha, larga um bom dia escritor e amigo do coração e parte igual míssil desgovernado. Parte sem ter hora para voltar, mas me deixa com reflexões enquanto a observo entrar no carro. Soco no estômago é a primeira reflexão querendo gritar.

Ah morar no coração é uma das maneiras mais interessantes de te transformar em ser eterno. Não te iluda, pode ter sido a forma fofa e agradável de dizer – ok, você hoje está aqui, mas amanhã talvez não. Senha de acesso ao arquivo do drama. Drama, drama, drama o eterno, a forma de se dizer, jamais me deixe longe de você.

Afff, velho e dramático sacode a segunda. Já pensou que ela ache importante não deixar de ser a amiga próxima e quiçá musa do escritor de pantufas?Assim ela pode se tornar eterna. Imagine daqui uns cem, duzentos anos quando encontrarem os modernos papiros digitais, qual será a reação das pessoas? Serão ainda pessoas como o sabemos? Quem foi a moça vampira que andava sob o sol da manhã? Ela possuía uma má conduta, seria realmente portadora de uma dúbia conduta ou apenas personagem ficcional?

A terceira reflexão enciumada que ela só, reacende o incêndio, teria sido ela alguém próximo? Um amor não correspondido? Já sei, um amor que foi batido e embatumado, morto no forno do coração? Talvez ela não tenha sido nada disso, era a menina do balcão da padaria que servia apenas pão queimado e passado do ponto ou aquela desavisada eterna Lolita tatuada que passeava com o cachorro e o deixava fazer as necessidades a esmo, presente aos pés distraídos?

Poderia ter sido tudo ou muito menos. Não passasse de delírio do doido escriba ou sonho da noite intercalada por uivos vindos da esquina e gemidos do quarto de cima. Talvez, sempre o talvez, fosse tudo, nada, o principio, o meio e o fim e como cantou Lulu, o que eu ganho, o que eu perco, ninguém precisa saber!

Jornalista, Eu?

A maior parte dos meus anos de contribuição para aumento do PIB nesta República Tupiniquim se deu nas instalações de um Jornal. Não é um mero acaso para aqueles que conhecem um pouco de minha trajetória; sempre desejei ser jornalista. Considero importante esta capa com a qual eles são investidos, tornam-se modernos Dick Tracys, aqueles que dão a cara à tapa, correm atrás da notícia, apanham chuva, levam tapa na cara, ameaças de morte, tiros, bomba e num período conturbado da vida política, visitavam os porões sem saber se voltariam a ver o nascer do sol.

Tudo começou no final da primavera do ano em que a Seleção Canarinho saiu da fila na Copa do Mundo. O Real era um bebê forte e invocado que rivalizava com seu irmão mais velho, o Dólar de igual para igual, ninguém segurava o brasileiro. Estava vivendo um novo momento do cenário Histórico, chutara um Presidente democraticamente eleito, assumiu outro em seu lugar que ressuscitava carros e aparecia ao lado de modelos desnudas da cintura para baixo.

Pois bem, nessa bucólica República encontrei um amigo de anos e entre aquelas costumeiras perguntas que surgem destes encontros casuais, como estão todos, o que estão fazendo, enfim ele perguntou com qual idade eu estava. Após responder, ele quis saber se eu já estava dispensado do Exército de Caxias. Sim, estava e no auge dos meus dezessete anos, sonhos borbulhando, cabelos revoltos e tinha a vontade de ser útil para a sociedade e ter meu próprio dinheiro.

Ele comentou que havia uma vaga no setor dele no Grupo Jornalístico e que o procurasse no outro dia pela manhã. E lá me fui, cedo da matina ao encontro do meu destino, entrar pela porta da frente, ficar mais próximo do mundo da redação, da produção do periódico líder de mercado. Claro que nem tudo ocorre da maneira que se deseja, ainda mais quando se é um adolescente recém saído das fraldas, a vaga era para a área financeira. Ok vamos em frente!

Lembro perfeitamente de minha entrevista para adentrar nas fileiras do Jornal. Estavam sentados a minha frente o coordenador da área, um tipo sério com feições bugras e o representante dos recursos humanos, um cara muito gente fina e desenvolto como todo profissional de RH deve ser. Perguntas aqui, outras ali, aquele clima de descontração e eis que surge a indagação crucial – Qual o motivo que te faz querer trabalhar conosco?

Resposta direta de bate pronto, paulada certeira iguais as do Arce batendo uma falta pelo Grêmio – Ser Jornalista. Quero em quatro anos estar na Redação! A audácia e a impertinência sempre foram características que me acompanharam, não tanto agora que já estou na meia idade, pois bem, fui contratado, lógico que o Q.I. foi imprescindível para um adolescente conseguir o primeiro emprego em uma das maiores Empresas do Estado. O importante é que estava dentro.

Incrível, mas sem saber, em uma semana estava na Redação, logicamente que não escrevendo, mas levando notas, buscando autorizações de faturamento e despesas. Fiquei na área em que fui contratado por pouco mais de um ano, não agüentava mais aquela vida, a grana curtíssima e o sonho de entrar e pagar a Faculdade cada vez mais distante. Consegui uma vaga em outra área que vejam só, possibilitava aos jornalistas independentes, entidades de classe, clubes e uma infinidade de clientes a imprimirem seus jornais nas Máquinas do Jornal. Para os iniciados, elas possuem outro nome – Rotativas! Vocês pelo menos em filme já as viram, o cara entra apressado e grita: Parem as rotativas, temos que mudar a matéria sobre os pesticidas ou algo parecido.

Aqueles que trabalham ou labutaram nessa área, podem atestar e não me deixar mentir sozinho como é viciante toda a atmosfera de produção de um Jornal. O cheiro do papel misturado a tinta que não sai das narinas exerce papel de ópio, enquanto o barulho dos cilindros das chapas e do motor da máquina são a trilha sonora perfeita para dar vida ao mensageiro de notícias diárias, semanais, mensais e de periodicidades infinitas.

Durante os dezenove anos que seguiram, conheci e convivi com fantásticos jornalistas, aqueles da velha escola, os cascudos, dinossauros que caminhavam entre os pobres mortais sem que muitas vezes me desse conta da importância daqueles momentos. Jovem geralmente é assim, dispersivo ao que interessa.

Não tentaria ser audacioso ao ponto de citar o nome de todos este míticos seres, incorreria no erro primário do homem – ser injusto. Porém, cito dois que me faziam parar toda a tarefa que porventura estivesse fazendo para escutar: Jayme Copstein, que recentemente partiu para narrar histórias em outro plano e que não havia vez que não parássemos para trocar uns dedos de prosa; com ele aprendi que o rádio possui um delay de alguns segundos e que a bandalheira vai ao ar somente se o apresentador permitir e Tibério Vargas, Mestre de uma das mais conceituadas Universidades de Jornalismo do Estado, que tem um compêndio de causos e momentos Históricos que transformam cinco minutos de conversa em uma aula completa, além de fantástico escritor!

Invariavelmente, fazemos um plano e a vida nos mostra que ele deve ser refeito. Não cursei Jornalismo, me formei em Administração me especializei em Engenharia de Produção o que alguns dizem ser Gestão Industrial, mas continuei orbitando onde Jornalistas estavam. Tanto que certa vez conversando com uma recém apresentada amiga, ela confidenciou; pensava que tu era Jornalista. Foi um dos equívocos que mais me envaideceu.

Não menosprezo em nenhum momento a carreira abraçada, muito pelo contrário sei que a Administração move o mundo, que nós, enquanto Administradores somos os regentes da orquestra, mas bate aquela ponta de inveja de quem tem a possibilidade de levar a informação à população. Aqui talvez eu cometa um pecado, mas penso exatamente assim – levar a informação, refletir e tomar partido frente a ela cabe ao leitor, ouvinte, telespectador. Inicio e fecho a possível polêmica.

Quando o STF decidiu em 2009 que não havia mais necessidade de diplomação para exercer a profissão, aquele Ser sacana que reside em cada um de nós despertou de sua letargia e por segundos me fez vislumbrar ali a possibilidade de realizar o sonho juvenil. Foram segundos, porque o duende da reflexão me chamou a razão. Naquela época estava cursando Administração e já me sentia incomodado com o fato de muitos profissionais exercerem cargos de Gestão sem nunca terem assistido uma aula do curso ou ainda que os bacharéis tivessem as mesmas prerrogativas nas Empresas que um Administrador.

Por nenhum segundo e nem por uma decisão da Suprema Corte, eu teria, pelo menos penso assim, o direito de me considerar jornalista. Onde estaria a ética se assim me considerasse? Como encarar os amigos que estudaram, labutaram, consolidaram carreiras? Ser um bode no meio da sala? O penetra da festa? Não, se não deu nessa, quem sabe na próxima.

Recordei desse caso por duas razões, a primeira porque vi dia desses um anúncio online de um importante jornal de circulação nacional que conclamava com o patrocínio de duas empresas suspeitas e sob investigação federal, aos profissionais de todas as áreas para participar do programa de treinamento em jornalismo diário. Compreendeu a profundidade da questão?

Segunda razão porque lancei um livro de crônicas com outros nove inigualáveis escritores, sendo seis deles jornalistas. Participei dos encontros prévios do lançamento da obra como um observador atento, as histórias que surgiam na mesa eram impressionantes; nomes, datas, ligações, desdobramentos, enfim, décadas de conhecimento se espraiando gratuitamente. Meu silêncio se fazia imperioso, abrir a boca para que? Estragar aquela comunhão gratuita de ensinamentos? Jamais!

 Juro, se um dia houver a possibilidade de viagem no tempo, volto para aquela época do jovem adolescente sabichão e arrogante e direi que alivie o nível de sua exigência, que aceite fazer primeiro a Faculdade e depois partir para a labuta, pois a vida não é um filme dos Smurfs, está mais para MadMax ou Bastardos Inglórios. Agora, se ele não escutar, o titio careca e cansado, que faça as mesmas escolhas, pelo menos conviverá com profissionais fantásticos e talvez, no recôndito de quatro paredes da sala, frente ao laptop possa se considerar 0,01% jornalista.


Ah, e se realmente existir reencarnação, na próxima não abro mão de ser um foca!

quinta-feira, 23 de março de 2017

Meteoro, nos salve!!!


Esta quinta-feira foi prodigiosa ao me confrontar com situações cotidianas de uma pequena-grande metrópole brasileira, já escrevi sobre o pedinte com a máquina de cartão na sinaleira, porém essa perde para o que narrarei.

Caminhava lépido e fagueiro em uma das principais Avenidas da cidade quando começo a escutar ao longe aquela tradicional batida sonora... tum-tum-tum-tum.

Aquela poluição sonora mostrou-se uma tortura quanto mais o veículo vencia o caótico trânsito do final da tarde e se aproximava de mim.

Um flamante carro de elevado valor comercial, com um cidadão que aparenta ter uma boa posição profissional, sem nenhum boné de aba reta ou de bico de pato na cabeça, espontaneamente brindava a todos com o mais belo lançamento da industria musical.

Fiquei estarrecido no exato instante que fui apresentado a letra melodiosa e repleta de sentimento e sentido. Tristemente constatei a falência da sociedade tupiniquim, com a compreensão que apenas o meteoro pode nos salvar.

"Então joga, joga o popo na piroc@..." e assim foi se repetindo a frase tão bem elaborada quanto este texto, invadindo, sem autorização os ouvidos e mentes de crianças, idosos, gente jovem, de meia idade, sem nenhuma sinalização de constrangimento.

Não que seja moralista, longe disso, quem já presenciou alguma situação muito estressante comigo, sabe que utilizo palavras de baixo calado como vírgula, mas bom senso e caldo de galinha - antes da Carne Fraca - não fazem mal a ninguém.

Toda a forma de manifestação é livre e defendida por nossa já remendada Constituição, mas o já citado bom senso parece ter sido consumido destes trópicos. Nada contra, mas se ainda há aqueles que consideram o Rock o filho do Capiroto, do Rubro, do Guampa Torta, o que esperar da paternidade desta "música"?

Prefiro não ser apresentado ao genitor da obra.

A moderna arte de pedir Esmola

Vocês vejam a modernidade deste mundo. Hoje a tarde peguei meu bom e velho pai e fomos tomar um café com o amigo de mais de três décadas Toninho Ostyn e quando para lá nos dirigíamos paramos em um semáforo próximo ao Hospital de Clinicas.
Um pedinte se aproximou e pediu umas moedas, com a negativa recebida ele lentamente dirigiu a mão ao bolso, e naquele momento pensei... Ferrou! Ele vai tocar uma pedra no carro, uma faca para arranjar a lataria e vocês não tem noção do que ele puxou.
Vocês não podem imaginar e eu não acreditaria se não tivesse acontecido comigo, ele nos mostrou uma máquina de cartões de crédito, nova, bem conservada e disse que aceitava doações através dela.
Meu pai e eu, em uníssono largamos um não acredito nisso! Olhei pelo retrovisor e lá se foi o pedinte para o próximo carro, máquina na mão e pensei que a máxima, não há o que não haja, se aplicaria perfeitamente ali.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Promessa às vezes é dívida!

Espero que você preste bem atenção ao que escreverei, porque não repetirei. Quer dizer, talvez até repita, ultimamente tenho me sentido igual aos antigos bolachões arranhados, que faziam com que a agulha caísse sempre no mesmo trecho da música. Algo tão chato quanto aquele irritante ruído que se escutava ao fundo das músicas.

Sim, para algumas coisas evoluí. Gosto do som claro, limpo, sem chiados e interferências, do mesmo jeito que me encanta a comunicação direta entre as pessoas. Por um destes acasos misteriosos da existência fomos inseridos neste mundo de eterna ebulição e onde os conceitos sociais sofrem uma pressão estonteante. Porém o caso não é este, o que realmente acontece é que desaprendemos a nos comunicar, escutar o que o outro tem a dizer.

Viramos metralhadoras ambulantes, que ao invés de expelir projéteis, disparam palavras sem um critério bem estabelecido. Poucos possuem o dom de concatená-las, inserir algum significado que crie no seu receptor o entendimento claro da idéia. Não uma simples troca de sons ou sinais gráficos, mas uma experiência que valha a pena ser relembrada por momentos sem fim.

Foi mais fácil? Com certeza foi. Quando criança a comunicação flui de maneira lúdica, é uma descoberta sem paralelos. Os sons e as palavras monossilábicas possuem significado único, o entendimento ocorre sem muitos sobressaltos. Claro, existem as exceções a regra, culpa dos adultos que desaprenderam o santo alfabeto infantil. Pensando bem, sem a renovação que as crianças executam ao nascer, o que seria dos seres arqueados e rugosos conhecidos como adultos? Logo chegarei neles!

E os adolescentes com suas gírias, palavras cortadas e risadas exageradas surgidas a partir das piadas mais sem graça? Neste momento os problemas começam a surgir para os mais tímidos. As palavras simplesmente nascem, mas não criam asas. Ficam guardadas em um grande hangar, ocupando espaço, sufocando e criando uma atmosfera nem um pouco bacana de freqüentar.

Agora com os adultos tudo é mais fácil. Será? E o tal pesar cem vezes antes de falar, serve para que? É a tal censura que nos impomos. Não se deve falar tal coisa que será interpretada de forma equivocada pelas freirinhas pecadoras do monte. O que tua família pensará se disseres a forma como encara o mundo? Os fardos vão se tornando mais pesados e quem consegue melhor assimilá-los, é o popular da turma, aqueles que se rebelam recebem o carimbo de ignorantes. Tão simples como comer jujubas para criar uma fissão nuclear.

Pare para pensar. Fora tudo isso, como anda nossa comunicação? Sou antigo, do tempo em que as meninas colecionavam papéis de carta e que invariavelmente no primeiro dia de aula devíamos escrever aquela fantástica redação – Minhas Férias. Todo inicio de ano era a mesma coisa, e lá íamos nós, com as letras trêmulas e grandes, escrever a lápis as peripécias vividas naquele paradisíaco momento de ócio que hoje faz tanta falta. Crianças se estiverem lendo isso, não tenham pressa para crescer, sério, não vale muito à pena.

Não me lembro se tive algum conselho deste tipo, porque logo cresci e assim comecei a escrever primeiro para registrar as idéias que brotavam iguais petróleo recém descoberto, depois se encontra uma finalidade mais apropriada para este dom, embora discorde que seja um dom, é apenas uma faculdade bem desenvolvida. Independente, o que realmente importa, é que escrevíamos no papel, sim, em folhas brancas, pautadas, arrancadas de cadernos, milimetradas, com caneta, lapiseira e até mesmo, pasmem, datilografadas em inacreditáveis máquinas de escrever portáteis. Isso parece um relato de ficção científica, porém aconteceu a menos de 30 anos. Um segundo se formos colocar na régua da existência do Planeta Azul.

Cartas! Mandava cartas para minhas primeiras namoradas, escrevia poesias, inseria um monte de pensamento nas folhas e enviava pela bagatela de um centavo de Real. Uma pechincha! Talvez tenha sido a última geração que se utilizou deste subterfúgio de comunicação, porque um inimigo apareceu no horizonte. E ele tem nome e é através dele que escrevo, digito ou transformo em um sistema binário estas palavras.
Veio o computador e seu Edit, Bloco de Notas, Word e afins, rápidos como essa geração desejou nasceu a troca de mensagens instantâneas, sms e agora os aplicativos. Facilitou? Sim. Melhorou? Talvez. Aprovo? Quem sabe?

Tudo isso porque hoje, me utilizando de um famigerado e moderno aplicativo de comunicação, li uma amiga escrever – “Afff, falou o velho!”. Caso alguém ainda não esteja acostumado com a ironia, o senso de humor apurado dos inteligentes, essa curta frase foi carregada em toda sua essência dela.

Ela me enviou uma foto muito bacana de um trabalho que executou numa reunião mensal do trabalho.  Fotos lindíssimas, com a frase icônica – O que quero para o futuro. Tenho certeza que não será difícil conquistar tudo o que deseja competência e energia para isso lhe sobra. Notei que havia faltado apenas o seu desejo de conhecer a terra do sol nascente, com todas suas cores e cultura milenar. Comentei e ela disse que a deixasse dormir para sonhar.

Disse que ela não deixasse de sonhar e correr atrás de seus sonhos, porque isso é o que ainda resta para a maioria das pessoas. Alguns não lidam muito bem com as frustrações de não chegarem onde queriam e partem na busca de culpados para seu próprio fracasso. Talvez por isso tenha desistido de sonhar a algum tempo, se algo surge no meu radar que venha a me interessar, a busco, ou melhor, tento buscá-la. Lógico que frustra não obter sucesso na empreitada, mas o importante é não se amargurar.

Seja lá o que aconteça é necessário manter a mente aberta e alma leve, cada qual carrega sua bagagem e sabe quanto lhe custou chegar até onde está. Deparei-me certa vez com uma frase que em essência dizia que se estávamos ali, havíamos superado muitos dias ruins e isso era um sinal que estávamos igualmente nos saindo bem da situação. Simples não?

Alguém ainda pode pensar cara, como ele permite que ela tenha enviado um “afff, falou o velho!” e fique de boa?  Lembra do que escrevi logo no inicio? Precisamos aprender a escutar, compreender a sabedoria e o significado de pequenas frases ou palavras. Ela com sua espontaneidade e conhecimento em me provocar as maiores reflexões mostrou para este velho em corpo de “jovem” que há muito mais entre o aqui e o Japão, o despertar e o sonhar, as linhas de um caderno ou os bits de um texto que a filosofia e a análise podem descobrir.


Sem muito gre-gre para Gregório ela escancarou que um jardim com flores vermelhas e brancas convidam para uma contemplação e mergulho no íntimo em busca de respostas já platinadas e principalmente, que uma má conduta não é errada, ainda mais quando a trilha sonora é Bon Jovi.