segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Muito Direito

Devia ter feito direito,
Ter me dedicado direito,
Ter estudado direito,
Cultivar as amizades direito,
Amado também direito.

Entre tantos direitos que
deixei atirados pelo caminho,
não existe nenhum mais dolorido,
que o de não ter sonhado direito.

Faça tudo o que for da lei,seja direito,
Não deixe para depois, utilize de seu direito
Porque a vida, não te dá esse direito!

sábado, 24 de setembro de 2016

Fragmentos XII

Lembrei da força que o Universo exerce sobre cada célula viva neste Planeta. O ímpeto de desejar mais do que se pode ter não é uma característica rara, todo Ser que possua capacidade de concatenar duas idéias, sempre tenderá a almejar o que não é totalmente seu por direito. Qualquer objeção não passará de simples Habeas Corpus.

Fragmentos XI

A primeira vez em nada difere da mais recente ou da última, porque todas trazem como essência a esperança da repetição e satisfação efêmera!

Pequeno Fragmento de Luz

O mais difícil em escrever qualquer linha sobre alguém que não está mais em tua vida, é a necessidade urgente de tornar a lembrança o mais impessoal possível.

Admiro, sincera e profundamente os poetas e escritores que mandam às favas tais convenções sociais e o cuidado de preservar o anonimato e gritam em profusão o nome de suas inspirações, dos amores agora impossíveis, mas sobre os quais teimosamente desejam escrever.

Não se preocupam com o desconforto da explicação, a dor de cabeça com indagações e aquela indignação semelhante a declaração da terceira, quarta, quinta ou quiçá sexta guerra. Desconhecem o ensinamento que todo amor, se não vivido, deve morrer sufocado entre lençóis.

Sogras

Existirá neste planeta azul, ser mais controverso da criação que este? Dizem que o homem mais feliz do mundo foi Adão que não teve sogra, embora alguns afirmem que a serpente do Jardim do Éden fosse a abençoada e adorada mamãe de Eva. Tudo é possível na imaginação humana, tudo, creiam!

Neste meu caminhar, baseado nas experiências que a vida proporcionou e a permissão de belas e interessantes companheiras, decidi que se algum dia  for baixado decreto para que se deseje algo pela última vez desejarei que se  erga no centro da principal praça de cada cidade, um monumento de loas a este frasco de sensibilidade e dureza.

Tive sogras que destilaram o veneno mortal das víboras e se pudessem teriam me feito morder uma maça, não da árvore do conhecimento, mas banhada no fel dos castigos eternos. Eram bestas que não entendiam seu papel no quebra-cabeças que uma relação se parece, feras que mordiam a mão que se aproximava de seu tesouro. Terrível experiência!

Outras, trouxeram de forma tão indelével dentro de sua alma o sentimento que une as pessoas, eram agregadoras, pacificadoras em sua missão de mostrar, orientar o caminho da serenidade. Ah, estas ficaram guardas em meu coração como a mais preciosa e rara joia da coroa, mesmo depois que a relação se tornou lenda, não por acaso, por que não creio nele, uma possui o mesmo nome que minha mãe. Destino? Quem explica! 

Deveria haver alguma lei que permitisse, em caso de encontrar uma Sogra rara destas, que ela permanecesse eternamente na vida do genro ou da nora, uma espécie de patrimônio existencial, um membro eterno da Família, sempre ali, aqui, em todo lugar, mostrando que há amor em todo Ser, mas não há, ou há?



Fragmentos X

Há muita dificuldade pra escrever a beleza da vida?
Depende - sempre dirá o polêmico,
O otimista afirmará positivamente,
O pessimista cravará um estrondoso sim,
Porém há um outro tipo esquecido,
Chamam-no de realista com informação,
uma evolução, Ser aprimorado da Teoria Darwiana,
não titubeante defenderá que todos se emudeçam
A beleza desta existência está gravada,
em apenas um diminuto grão de areia.

Fragmentos IX

Perdoe frustrar tuas expectativas, 
mas nem tudo que escrevo deve ser post litteram, 
já presenciei tantas transformações, 
tolos tornarem-se doutores e
o inverso ocorrer com frequencia, 
que a temeridade destes atos é
tão doce, tal bala de alcaçus.

Fragmentos VIII

Duas faces da mesma moeda,
não possuem o mesmo valor,
crê por acaso que palavras,
gritos sufocados podem 
alterar o curso de um rio?

Fragmentos VII

Te amo e odeio com a mesma intensidade,
Por que há em mim essa dualidade,
dois caminhos que não tomam tempo,
apenas as esperanças destroçadas,
de não possuir mais teu afeto

O “encantamento” de Domingos Montaigner - Roberto Malvezzi (Gogó)

Várias pessoas me pediram uma palavra sobre a tragédia com Domingos Montaiger. Como moro há quinhentos km do lugar, não tenho detalhes do fato. Mesmo assim, decidi fazer esse texto a partir do que sei do rio e do fato. Minha mulher é beradeira do São Francisco, assim como nossos filhos e filhas. Ela sempre dizia aos meninos: “água não tem cabelo”. 

Ela mesma foi salva quando criança ao cair de um barco por uma pessoa que pulou na água quando viu apenas seus cabelos passando à flor da água. Foi salva pela cabeleira. Eu conheci Domingos pessoalmente na oficina sobre o rio São Francisco que fiz para atores, diretores e produção no Rio de Janeiro. No intervalo da oficina conversamos bastante, junto com Letícia Sabatella – ia fazer o papel de Camila Pitanga – e Lucy Alves. Pessoa muito simples e muito cidadã. 

Eu passava sempre por Canindé do São Francisco, indo ao baixo São Francisco. Há uma ponte que liga Alagoas (Piranhas) e Sergipe (Canindé). Quando se acaba de atravessar a ponte, está a referida prainha. Sempre muito quente, a vontade que dá é mesmo pular na água. Foi o que ele e Camila Pitanga fizeram. Acontece que a referida prainha está apenas há uns 300 metros abaixo da barragem de Xingó. Era o final antigo do Cânion – hoje represado-, logo abaixo, em Piranhas, o rio voltava a ser navegável. Hoje, com a barragem, a dinâmica das águas ficou modificada. O rio está raso, há muita pedra e muita correnteza, com poços profundos. 

Quando eles decidiram ir mais para o meio do rio, não imaginavam o risco que corriam. Pelo relato de Camila, a força da água aumentou e, pior, havia um “remanso”, isto é, redemoinho na água que puxa para o fundo. Além do mais, ele tentou nadar contra a corrente, quando o normal seria descer com a correnteza, tentando se aproximar de outra pedra ou procurar a margem do rio. 

A tragédia teria sido pior se ela tivesse pulado na água para salvá-lo. Estamos acostumados a ver o afogamento de duas ou três pessoas aqui no Velho Chico, quando um tenta salvar o outro, mas sem saber nadar direito ou sem técnica de salvamento. Esses dias dois irmãos morreram abraçados aqui na Ilha do Fogo, entre Juazeiro e Petrolina. 

As lendas do São Francisco falam nos “encantados”, aqueles que estão ali presentes, mas são invisíveis aos nossos olhos. Assim são as pessoas, assim é o “vapor encantado”. A novela trabalha com essas lendas. Impossível não ficar perplexos com essa situação. Só pude mandar um abraço aos atores e atrizes que conheci nesse contexto. Mesmo sem conhecer, aqui em casa pensamos muito na família real. Foi isso também que Letícia Sabatella me disse. 

Domingos tornou-se mais um encantado do Velho Chico, um rio sofrido e cheio de mistérios.

Farfalla

Minha capacidade de armazenamento de dados tem diminuído drasticamente nos últimos anos, este é o maior reflexo do acúmulo de aniversários e preocupações. Recordo perfeitamente datas Históricas, fatos da economia e da política mundial, dos malfadados boletos bancários e dos impostos e taxas governamentais a serem recolhidas, mas a trilha onde as datas pessoais estão gravadas parece, começar a ficar inacessível.

Tentei muito relembrar a data exata em que a conheci, como se fosse fato imperioso ou a responsável pela paz mundial, não consigo! Lembro perfeitamente que já passou de uma década, muito provavelmente tenha sido em uma noite de quarta-feira, final de outono, inicio do inverno, quem sabe afirmar? Talvez ela, se não estiver vivendo a mesma experiência que eu.

Incrível, mas recordo a primeira vez que a toquei, no joelho, de leve, enquanto líamos a passagem de um livro, ou ainda daquela vez que no auge dos vinte e poucos afirmei que muitos homens encaram as mulheres como um pedaço de carne exposto no açougue, pronto para ser comprado e preparado no churrasco de domingo, da galhofa de um amigo, do sorriso que ela deu e a defesa de fez de minha tese.

Lembro ainda de muita coisa, do beijo quase concretizado no meio de uma avenida, do primeiro encontro de nossas bocas, do aconchego do sono depois da primeira noite de prazer, do despertar, do brique da Redenção aos domingos e de uma quantidade de bagagem, das descobertas, da mudança, de Bryam Adams cantando (Everything I do) I do it for you em nossa primeira noite de casados, guardo o perfume dos incensos, da casa arrumada e da tintura que cobria seus cachos.

Viagem dourada e perfeita? Claro que não, altos e baixos, brigas, discussões, atritos também fazem parte do amadurecimento de jovens donos do mundo. Não há expedição ao desconhecido que não proporcione algum tipo de desconforto e aborrecimento, é um caminho que irremediavelmente leva a um destino, parecido com dramalhão mexicano ou romance americano, é necessário encerrar um capítulo e começar uma nova estória.

Arrependimento?Ela foi exatamente quem eu precisava ter ao lado naquele momento, dura e amorosa, cinéfila, prenda e doida, professora e aluna, intensa, ciumenta e principalmente enfermeira. Ela demonstrou toda a verdade escancarada no dito popular, se cura as feridas de um amor com um novo amor.  Eu fui o que ela precisava? Algumas vezes penso que sim, em outras não tenho certeza, e em inúmeras afirmo que não.

Desejei mal ou que fosse infeliz em algum momento? Como poderia desejar isso para alguém que confiou a mim seu sono? Alguém que deitou ao meu lado e vi dormir serenamente, com quem descobri o melhor e o pior de mim? Acaso mantenho algum tipo de contato? Sim, o faço depois de tanto tempo, ainda mantemos uma ligação mental, que já foi mais forte, mas que se mantém viva.

Vibrei com suas conquistas, a graduação, a casa própria, por continuar dona de seu nariz, por não desistir de viver mesmo com todas as pancadas que já levou nessa existência e fico particularmente feliz por saber que tudo foi possível por seu próprio esforço e dedicação. Ela metamorfoseou-se, crisálida que libertou uma borboleta que não pousa onde não deseja.


Recordo disso tudo com uma precisão extraordinária, mas veja, não das datas estas marcações do calendário, convenções sociais e de tempo, insistentes em nos ludibriar, afirmando serem mais importantes do que os fatos que aconteceram nelas. 

domingo, 18 de setembro de 2016

Sobre estas Partidas

A perda de uma vida é geralmente traumática, uns encaram de uma forma natural, outros como uma afronta do destino por chegar tão cedo, mesmo que este cedo seja aos 90 e poucos.  É uma ilusão, um acalento mostrar-se durão e afirmar estar preparado para o momento. Nada passa de formosa convenção social, tentar negar o inegável, fugir da única e infindável certeza da vida, chegará um dia em que partiremos. A forma que conduzimos nossas ações e vivemos nossa relação com este plano, nos conduzirá a adentrar o mundo de Hades ou os Campos Elísios.


O Brasil perdeu neste setembro um dos seus maiores talentos dramatúrgicos, Domingos Montagner, no auge de sua capacidade produtiva, 54 anos, jovem (ainda mais comparado a quem está com quarenta anos) e repleto de planos, protagonista da novela do horário nobre, que narra à estória dos desmandos dos coronéis, ocorrida nas margens do velho Chico, teve sua vida ceifada pelas águas do rio que empresta nome a trama.

Assista, se você já o fez, assista novamente a entrevista que a atriz Camila Pitanga, atriz com quem o ator fazia par romântico, concedeu ao programa Fantástico. Ela foi testemunha dos últimos momentos de energia vital de Domingos. Terminavam naquele final de semana, as gravações externas da novela na região e para se despedir do rio, os atores planejaram um último mergulho em suas águas.

Não aprecio o trabalho da artista e tão pouco comungo das mesmas convicções políticas da pessoa Camila, mas isto não impede que seja empático e compreenda sua dor, que creiam, será eterna.  Testemunhar o momento da partida de uma pessoa causa em todo ser humano um impacto gigantesco, cria uma marca insolúvel, principalmente quando ela é trágica. Ela presenciou o último olhar de um ser humano, tentou por duas vezes tirá-lo da água, conduzir o amigo a uma região mais tranqüila do rio, ficou em dúvida, tentar um terceiro resgate, pensou em sua própria sobrevivência, ficar ou ir, uma série de decisões em segundos.

O momento do desenlace, geralmente não carrega consigo dignidade. Morrer não é o sonho de ninguém, é assunto postergado, jogado para baixo do tapete, esquecido nos corredores da alma e do pensamento. Presenciar o adeus a este mundo de uma alma é um privilégio, é uma prova da enorme confiança que aquele que parte tem no que fica. É revelado de forma escancarada que nada sabemos acerca dos mistérios da existência.
Lembro do momento da partida de minha tia, após longo e corajoso período de luta contra um câncer que lhe consumiu o corpo. Ela já estava totalmente sedada, talvez, não sentindo tanta dor, esperando o derradeiro bilhete de embarque para sua última viagem, mas estava de olhos abertos quando entrei no quarto.

Passados quase nove anos recordo a roupa que vestia, o trecho de um livro espírita que li antes de sair do trabalho – deixe que os mortos cuidem de seus mortos, o elevador que não chegava, os cinco andares percorridos com correria, a hora que entrei no quarto (12:50), seu último suspiro e a última lágrima que escorreu em seu rosto.

 É inegável, Camila terá como companheiras eternas uma quantidade de dúvidas, poderia ter feito algo diferente? E se tivessem ido a outra parte do rio? E se não tivessem combinado o banho? Serão infindáveis “ses”, mas uma única certeza, na indignidade da morte, Domingos a honrou como sua fiel companheira de partida.

Imagens retiradas da Internet



terça-feira, 13 de setembro de 2016

Sobre Cucas, Casamentos e Afins

Gosto de participar do que convencionei chamar de provocação literária, que consiste exatamente em criar estórias através de um tema qualquer. Aprecio ainda mais quando ela surge em dias chuvosos que lembram o inverno Londrino e o que foi proposto obriga aqueles dois neurônios remanescentes a se encontrarem e entrarem em comum acordo sobre que caminho trilhar e principalmente como escrever.

Indiretamente quem me provocou foi a Adriana, minha amiga e ex-colega dos tempos da  Universidade que foi tentar a vida no Velho Mundo, mais precisamente em Vitória Gasteiz, no País Basco e que para quem não sabe está incrustado no antigo Império Espanhol.  Ela é uma guria espetacular, alto astral e de uma generosidade sem igual, compartilhamos a profissão e o gosto pelo consumo às vezes sem moderação de literatura e cultura. Sabedora dessa minha compulsão me prometeu um exemplar de Dom Quixote em Espanhol, vejam só!

O melhor de conhecer alguém que vive do outro lado do Atlântico e que, principalmente, se disponha a dividir sua nova cidade através das modernas tecnologias de comunicação é conhecer locais belíssimos, que se quer imaginava existir e principalmente, a possibilidade de deparar-se com os pormenores de uma civilização totalmente diversa. As fotos dos cafés, das ruas e praças, livrarias e pratos que ela gentilmente compartilha, poderiam perfeitamente originar um livro de arte fotográfica tamanho o colorido e arquitetura.

Hoje ela encaminhou essa foto com as belíssimas e quiçá saborosas cucas. Para quem não está habituado ao nosso linguajar, cucas não são cabeças soltas que rolam por ai, elas são bolos recheados ou não e cobertos com uma farofa fantástica, que ao meu paladar é o ponto alto da iguaria. Haja como contentar gordos e magros, gregos e troianos, brasileiros e brasileiras!

Comentei que ela estava se tornando cada vez mais prendada, expert no domínio da secular arte culinária e esta é uma das gloriosas experiências que o matrimônio recém adquirido proporciona. Logicamente que para toda ação, há sempre uma reação oposta de igual intensidade – se Newton não disse isso, esta frase passa a ser minha – e ela contra-argumentou que nós homens, possuímos uma relação ímpar e incomparável com a comida. Esta talvez seja a maior injustiça impetrada contra nós, homens de boa fé e índole. A relação que nutrimos pela comida é a mesma que nutrimos por qualquer outra que nos proporcione prazer. Simples assim!

O importante, o fio desencapado, o ômega, o xis oculto da questão é que o matrimônio te apresenta a inúmeras possibilidades de aprendizado e crescimento e sobre o tema posso falar com certo conhecimento de causa.  Talvez por seguir os passos de meu avô que casou três vezes e teve alguns romances pelo trajeto percorrido do berço ao túmulo, já o alcancei no número de matrimônios e alguns primos também honram ou não a saga do Vecchio nono!

Casar queridos amiguinhos é presenciar a diminuição da freqüência do intercurso carnal com o passar dos anos, talvez porque os arroubos da paixão cederam espaço para a maturidade do amor, pela disponibilidade diária do corpo e da alma ao seu lado de forma prática, rápida e indolor ou ainda há outra possibilidade, os pombinhos passaram a valorizar a qualidade e deixaram de lado a quantidade de vezes que aquela troca de fluídos ocorre. Um amigo costuma dizer que você sabe se os casais ainda se procuram pela forma que o marido apresenta a esposa, se ele disser fulano, esta é a minha “senhoura”, deu, ou melhor, não deu mais.

Dividir o lar é descobrir pêlos e cabelos que não são seus grudados no sabonete, na toalha de banho, nas grossas roupas de inverno, no travesseiro surrupiado e abraçado durante sua ausência consentida no leito de núpcias, além disso, é juntar as escovas naquele deprimente copinho sobre a pia do lavatório, é encontrar pentelhos juntos e misturados em constante harmonia no ralo do Box, é querer amaldiçoar trezentas gerações do parceiro por tentar de forma dissimulada colocar uma cortina de peixes coloridos e psicodélicos no banheiro.

Coabitar é ter o estresse do sapato no meio da sala, a roupa jogada sobre a ergométrica – o mais caro cabide da história – é toalha molhada e amarrotada sobre a cama, cobertas no chão, tapar e se destapar igual um processo industrial em noites mal dormidas, receber aquela reprimenda clássica – dá pra parar de se mexer, estou tentando dormir?

Estar amigado é justamente tudo isso e mais! É água bebida direto da garrafa com a geladeira aberta, pão dormido, provar o molho na panela, discordar da quantidade de temperos utilizados no prato, é dobrar a receita sabendo que não vai dar certo e escutar aquele sonoro “eu avisei”. Recentes estudos de uma conceituada universidade afirmam que essa simples e quase inofensiva expressão já resultou em mais conflitos que a briga por terra, se há verdade ou não, que se arrisca a comprovar? Eu não!

Morar junto não é tarefa das mais difíceis e tão pouco flerta com a facilidade de resolver uma equação composta de matemática. Complicado mesmo é entrar em acordo sobre os móveis, sobre a disposição de cada um nos cômodos do espaçoso sala, dois quartos e cozinha conjugada.  Não existe uma fórmula pronta igual à cuca hispano-tupiniquim da Adriana, cada qual com o seu qual e, por favor, não venha querer mudar a minha receita!

O credo popular já diz, o casamento é uma relação a dois em que a esposa está sempre certa. Talvez o casamento seja a relação em que você deseja ardentemente e de forma repetida, trucidar o outro, mas não o faz porque lembra que esse outro te ajuda a pagar as contas no fim do mês, porque sem esse outro, você jamais encontrará o controle remoto perdido sobre o sofá, não terá mais aquele despertar com bafinho, olheira e cara amarrada, a cobrança pesada tal qual um paquiderme sobre a bagunça da casa e a exigência para participar mais no cuidado com as crianças (embora não seja obrigatório que existam rebentos para um casal ser feliz e completo).


Ah, desculpe, esqueci de perguntar se você achou tudo isso escatológico demais? Pois é, viver é assim mesmo, com pequenas variações, o que foge desse quadro de caos é conto de fadas, estória fantástica e lenda urbana. Aventurar-se neste novo e desconhecido mundo não é obrigatório, mas é uma viagem inigualável de experiências e sensações iguais as que a Adriana está explorando entre um bolo e um café, um camarão na moranga e uma paella, entre fatias da mesma cuca, mas o importante é não deixar que elas embatumem! 







Imagens de Vitoria Gasteiz, retiradas da Internet sem autoria

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Perdão, preciso Ser Tolo

O Brasil é um País fantástico, uma fábrica capaz de criar e gerir polêmicas com uma velocidade espantosa; se a pessoa não prestar atenção, fica totalmente desatualizada sobre o que não possui relevância social. A mais recente polêmica é a publicação de uma coluna de um escritor e humorista, intitulada “Desculpe o transtorno, preciso falar de Clarice”, que versa sobre momentos da relação dele com a ex-mulher. 


Todo ser humano já escreveu alguma linha sobre seu relacionamento. Talvez seja o tema mais fácil de ser desenvolvido, uma vez que, este é um dos principais combustíveis de nossa vida, motivo mor para a existência do gênero humano na Terra.

Isso fez com que me lembrasse de um de um poema escrito por um dos Poetas de minha Família, o Mestre Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Álvaro de Campos. 

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)


O poema e o texto publicado para Clarice, fizeram-me recordar do tempo em que me debruçava sobre o papel, empunhando bravamente a caneta para escrever tolas cartas de amor. Existiu este período em minha existência e elas tornaram-se uma obsessão, no mínimo a cada 30 dias uma carta nascia e era direcionada ao primeiro grande amor de minha vida e com o passar do tempo, qualquer motivo, por mais banal que fosse justificava a missiva.

Sim, você leu corretamente, meu primeiro amor foi vivido em uma época pré-histórica em que não existiam emails, sms, redes sociais e aplicativos de comunicação e pasmem a comunicação entre as pessoas era exercida através da conversa olho no olho, ligação telefônica, muitas vezes através de telefones públicos e cartas. As gerações atuais e futuras jamais saberão o que significava encarar a fila dos Correios para encaminhar uma carta social ao simbólico custo de hum centavo de Real e ficar imaginando a reação de quem a recebeu. Jamais, creiam!

Os anos foram passando, e aquele amor de outrora foi eterno enquanto durou, seguindo precisamente as recomendações literárias. Chegou o momento em que ele precisou ser enterrado apesar de ainda estar vivo, respirando talvez com a ajuda de aparelhos, querendo se agarrar a qualquer sopro que lhe devolvesse as forças. Veio o curto luto e enfim, milagres acontecem e outros amores nasceram e com ele o coração vadio foi ficando cada vez mais calejado.

Apesar de serem amores intensos, quentes e inesquecíveis, as cartas foram rareando até desaparecerem em um horizonte não tão distante. Estas relações não mereciam tolas e inconseqüentes cartas de amor? Sim, mereciam, porém elas tornaram-se obsoletas, perdidas e deslocadas em um mundo de constante mutação em que é preciso escolher entre o devaneio e a cruel realidade.

Tornei-me um cético e sério homem? Não! Continuo a ser tolo em menor escala, passei a escrever poemas de duvidosa qualidade e péssima métrica, sem estilo e repletos de sinceridade e palavras simples e de duplo sentido. Através deles presto minha singela contribuição a este mundo canalha que teima em extinguir o que realmente aquece nossos corações e alma, o sentimento que não deve adormecer jamais, aquilo que nos torna tolos, o amor!