Devia ter feito direito,
Ter me dedicado direito,
Ter estudado direito,
Cultivar as amizades direito,
Amado também direito.
Entre tantos direitos que
deixei atirados pelo caminho,
não existe nenhum mais dolorido,
que o de não ter sonhado direito.
Faça tudo o que for da lei,seja direito,
Não deixe para depois, utilize de seu direito
Porque a vida, não te dá esse direito!
Seja bem vindo, aqui compartilho um pouco de "minha Obra", meus pensamentos, os personagens reais e imaginários tomados de dúvidas, crônicas, poemas banais e a forma como enxergo o mundo.
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
sábado, 24 de setembro de 2016
Fragmentos XII
Lembrei da força que o Universo exerce sobre cada célula viva neste Planeta. O ímpeto de desejar mais do que se pode ter não é uma característica rara, todo Ser que possua capacidade de concatenar duas idéias, sempre tenderá a almejar o que não é totalmente seu por direito. Qualquer objeção não passará de simples Habeas Corpus.
Fragmentos XI
A primeira vez em nada difere da mais recente ou da última, porque todas trazem como essência a esperança da repetição e satisfação efêmera!
Pequeno Fragmento de Luz
O mais difícil em escrever qualquer linha sobre alguém que não está mais em tua vida, é a necessidade urgente de tornar a lembrança o mais impessoal possível.
Admiro, sincera e profundamente os poetas e escritores que mandam às favas tais convenções sociais e o cuidado de preservar o anonimato e gritam em profusão o nome de suas inspirações, dos amores agora impossíveis, mas sobre os quais teimosamente desejam escrever.
Não se preocupam com o desconforto da explicação, a dor de cabeça com indagações e aquela indignação semelhante a declaração da terceira, quarta, quinta ou quiçá sexta guerra. Desconhecem o ensinamento que todo amor, se não vivido, deve morrer sufocado entre lençóis.
Sogras
Existirá neste planeta azul, ser mais controverso da criação que este? Dizem que o homem mais feliz do mundo foi Adão que não teve sogra, embora alguns afirmem que a serpente do Jardim do Éden fosse a abençoada e adorada mamãe de Eva. Tudo é possível na imaginação humana, tudo, creiam!
Neste meu caminhar, baseado nas experiências que a vida proporcionou e a permissão de belas e interessantes companheiras, decidi que se algum dia for baixado decreto para que se deseje algo pela última vez desejarei que se erga no centro da principal praça de cada cidade, um monumento de loas a este frasco de sensibilidade e dureza.
Tive sogras que destilaram o veneno mortal das víboras e se pudessem teriam me feito morder uma maça, não da árvore do conhecimento, mas banhada no fel dos castigos eternos. Eram bestas que não entendiam seu papel no quebra-cabeças que uma relação se parece, feras que mordiam a mão que se aproximava de seu tesouro. Terrível experiência!
Outras, trouxeram de forma tão indelével dentro de sua alma o sentimento que une as pessoas, eram agregadoras, pacificadoras em sua missão de mostrar, orientar o caminho da serenidade. Ah, estas ficaram guardas em meu coração como a mais preciosa e rara joia da coroa, mesmo depois que a relação se tornou lenda, não por acaso, por que não creio nele, uma possui o mesmo nome que minha mãe. Destino? Quem explica!
Deveria haver alguma lei que permitisse, em caso de encontrar uma Sogra rara destas, que ela permanecesse eternamente na vida do genro ou da nora, uma espécie de patrimônio existencial, um membro eterno da Família, sempre ali, aqui, em todo lugar, mostrando que há amor em todo Ser, mas não há, ou há?
Fragmentos X
Há muita dificuldade pra escrever a beleza da vida?
Depende - sempre dirá o polêmico,
O otimista afirmará positivamente,
O pessimista cravará um estrondoso sim,
Porém há um outro tipo esquecido,
Chamam-no de realista com informação,
uma evolução, Ser aprimorado da Teoria Darwiana,
não titubeante defenderá que todos se emudeçam
A beleza desta existência está gravada,
em apenas um diminuto grão de areia.
Depende - sempre dirá o polêmico,
O otimista afirmará positivamente,
O pessimista cravará um estrondoso sim,
Porém há um outro tipo esquecido,
Chamam-no de realista com informação,
uma evolução, Ser aprimorado da Teoria Darwiana,
não titubeante defenderá que todos se emudeçam
A beleza desta existência está gravada,
em apenas um diminuto grão de areia.
Fragmentos IX
Perdoe frustrar tuas expectativas,
mas nem tudo que escrevo deve ser post litteram,
já presenciei tantas transformações,
tolos tornarem-se doutores e
o inverso ocorrer com frequencia,
que a temeridade destes atos é
tão doce, tal bala de alcaçus.
Fragmentos VIII
Duas faces da mesma moeda,
não possuem o mesmo valor,
crê por acaso que palavras,
gritos sufocados podem
alterar o curso de um rio?
não possuem o mesmo valor,
crê por acaso que palavras,
gritos sufocados podem
alterar o curso de um rio?
Fragmentos VII
Te amo e odeio com a mesma intensidade,
Por que há em mim essa dualidade,
dois caminhos que não tomam tempo,
apenas as esperanças destroçadas,
de não possuir mais teu afeto
Por que há em mim essa dualidade,
dois caminhos que não tomam tempo,
apenas as esperanças destroçadas,
de não possuir mais teu afeto
O “encantamento” de Domingos Montaigner - Roberto Malvezzi (Gogó)
Várias pessoas me pediram uma palavra sobre a tragédia com Domingos Montaiger. Como moro há quinhentos km do lugar, não tenho detalhes do fato. Mesmo assim, decidi fazer esse texto a partir do que sei do rio e do fato. Minha mulher é beradeira do São Francisco, assim como nossos filhos e filhas. Ela sempre dizia aos meninos: “água não tem cabelo”.
Ela mesma foi salva quando criança ao cair de um barco por uma pessoa que pulou na água quando viu apenas seus cabelos passando à flor da água. Foi salva pela cabeleira. Eu conheci Domingos pessoalmente na oficina sobre o rio São Francisco que fiz para atores, diretores e produção no Rio de Janeiro. No intervalo da oficina conversamos bastante, junto com Letícia Sabatella – ia fazer o papel de Camila Pitanga – e Lucy Alves. Pessoa muito simples e muito cidadã.
Eu passava sempre por Canindé do São Francisco, indo ao baixo São Francisco. Há uma ponte que liga Alagoas (Piranhas) e Sergipe (Canindé). Quando se acaba de atravessar a ponte, está a referida prainha. Sempre muito quente, a vontade que dá é mesmo pular na água. Foi o que ele e Camila Pitanga fizeram. Acontece que a referida prainha está apenas há uns 300 metros abaixo da barragem de Xingó. Era o final antigo do Cânion – hoje represado-, logo abaixo, em Piranhas, o rio voltava a ser navegável. Hoje, com a barragem, a dinâmica das águas ficou modificada. O rio está raso, há muita pedra e muita correnteza, com poços profundos.
Quando eles decidiram ir mais para o meio do rio, não imaginavam o risco que corriam. Pelo relato de Camila, a força da água aumentou e, pior, havia um “remanso”, isto é, redemoinho na água que puxa para o fundo. Além do mais, ele tentou nadar contra a corrente, quando o normal seria descer com a correnteza, tentando se aproximar de outra pedra ou procurar a margem do rio.
A tragédia teria sido pior se ela tivesse pulado na água para salvá-lo. Estamos acostumados a ver o afogamento de duas ou três pessoas aqui no Velho Chico, quando um tenta salvar o outro, mas sem saber nadar direito ou sem técnica de salvamento. Esses dias dois irmãos morreram abraçados aqui na Ilha do Fogo, entre Juazeiro e Petrolina.
As lendas do São Francisco falam nos “encantados”, aqueles que estão ali presentes, mas são invisíveis aos nossos olhos. Assim são as pessoas, assim é o “vapor encantado”. A novela trabalha com essas lendas. Impossível não ficar perplexos com essa situação. Só pude mandar um abraço aos atores e atrizes que conheci nesse contexto. Mesmo sem conhecer, aqui em casa pensamos muito na família real. Foi isso também que Letícia Sabatella me disse.
Domingos tornou-se mais um encantado do Velho Chico, um rio sofrido e cheio de mistérios.
Farfalla
Minha capacidade de armazenamento
de dados tem diminuído drasticamente nos últimos anos, este é o maior reflexo
do acúmulo de aniversários e preocupações. Recordo perfeitamente datas
Históricas, fatos da economia e da política mundial, dos malfadados boletos
bancários e dos impostos e taxas governamentais a serem recolhidas, mas a
trilha onde as datas pessoais estão gravadas parece, começar a ficar
inacessível.
Tentei muito relembrar a data
exata em que a conheci, como se fosse fato imperioso ou a responsável pela paz
mundial, não consigo! Lembro perfeitamente que já passou de uma década, muito provavelmente
tenha sido em uma noite de quarta-feira, final de outono, inicio do inverno,
quem sabe afirmar? Talvez ela, se não estiver vivendo a mesma experiência que
eu.
Incrível, mas recordo a primeira
vez que a toquei, no joelho, de leve, enquanto líamos a passagem de um livro, ou
ainda daquela vez que no auge dos vinte e poucos afirmei que muitos homens encaram
as mulheres como um pedaço de carne exposto no açougue, pronto para ser
comprado e preparado no churrasco de domingo, da galhofa de um amigo, do
sorriso que ela deu e a defesa de fez de minha tese.
Lembro ainda de muita coisa, do
beijo quase concretizado no meio de uma avenida, do primeiro encontro de nossas
bocas, do aconchego do sono depois da primeira noite de prazer, do despertar,
do brique da Redenção aos domingos e de uma quantidade de bagagem, das
descobertas, da mudança, de Bryam Adams cantando (Everything I do) I do it for
you em nossa primeira noite de casados, guardo o perfume dos incensos, da casa
arrumada e da tintura que cobria seus cachos.
Viagem dourada e perfeita? Claro
que não, altos e baixos, brigas, discussões, atritos também fazem parte do
amadurecimento de jovens donos do mundo. Não há expedição ao desconhecido que
não proporcione algum tipo de desconforto e aborrecimento, é um caminho que
irremediavelmente leva a um destino, parecido com dramalhão mexicano ou romance
americano, é necessário encerrar um capítulo e começar uma nova estória.
Arrependimento?Ela foi exatamente
quem eu precisava ter ao lado naquele momento, dura e amorosa, cinéfila, prenda
e doida, professora e aluna, intensa, ciumenta e principalmente enfermeira. Ela
demonstrou toda a verdade escancarada no dito popular, se cura as feridas de um
amor com um novo amor. Eu fui o que ela
precisava? Algumas vezes penso que sim, em outras não tenho certeza, e em
inúmeras afirmo que não.
Desejei mal ou que fosse infeliz
em algum momento? Como poderia desejar isso para alguém que confiou a mim seu
sono? Alguém que deitou ao meu lado e vi dormir serenamente, com quem descobri
o melhor e o pior de mim? Acaso mantenho algum tipo de contato? Sim, o faço
depois de tanto tempo, ainda mantemos uma ligação mental, que já foi mais
forte, mas que se mantém viva.
Vibrei com suas conquistas, a
graduação, a casa própria, por continuar dona de seu nariz, por não desistir de
viver mesmo com todas as pancadas que já levou nessa existência e fico
particularmente feliz por saber que tudo foi possível por seu próprio esforço e
dedicação. Ela metamorfoseou-se, crisálida que libertou uma borboleta que não
pousa onde não deseja.
Recordo disso tudo com uma
precisão extraordinária, mas veja, não das datas estas marcações do calendário,
convenções sociais e de tempo, insistentes em nos ludibriar, afirmando serem
mais importantes do que os fatos que aconteceram nelas.
domingo, 18 de setembro de 2016
Sobre estas Partidas
A perda de uma vida é geralmente
traumática, uns encaram de uma forma natural, outros como uma afronta do destino
por chegar tão cedo, mesmo que este cedo seja aos 90 e poucos. É uma ilusão, um acalento mostrar-se durão e
afirmar estar preparado para o momento. Nada passa de formosa convenção social,
tentar negar o inegável, fugir da única e infindável certeza da vida, chegará
um dia em que partiremos. A forma que conduzimos nossas ações e vivemos nossa
relação com este plano, nos conduzirá a adentrar o mundo de Hades ou os Campos
Elísios.
O Brasil perdeu neste setembro um
dos seus maiores talentos dramatúrgicos, Domingos Montagner, no auge de sua
capacidade produtiva, 54 anos, jovem (ainda mais comparado a quem está com
quarenta anos) e repleto de planos, protagonista da novela do horário nobre, que
narra à estória dos desmandos dos coronéis, ocorrida nas margens do velho
Chico, teve sua vida ceifada pelas águas do rio que empresta nome a trama.
Assista, se você já o fez,
assista novamente a entrevista que a atriz Camila Pitanga, atriz com quem o
ator fazia par romântico, concedeu ao programa Fantástico. Ela foi testemunha
dos últimos momentos de energia vital de Domingos. Terminavam naquele final de
semana, as gravações externas da novela na região e para se despedir do rio, os
atores planejaram um último mergulho em suas águas.
Não aprecio o trabalho da artista
e tão pouco comungo das mesmas convicções políticas da pessoa Camila, mas isto
não impede que seja empático e compreenda sua dor, que creiam, será eterna. Testemunhar o momento da partida de uma
pessoa causa em todo ser humano um impacto gigantesco, cria uma marca
insolúvel, principalmente quando ela é trágica. Ela presenciou o último olhar
de um ser humano, tentou por duas vezes tirá-lo da água, conduzir o amigo a uma
região mais tranqüila do rio, ficou em dúvida, tentar um terceiro resgate,
pensou em sua própria sobrevivência, ficar ou ir, uma série de decisões em
segundos.
O momento do desenlace,
geralmente não carrega consigo dignidade. Morrer não é o sonho de ninguém, é
assunto postergado, jogado para baixo do tapete, esquecido nos corredores da
alma e do pensamento. Presenciar o adeus a este mundo de uma alma é um
privilégio, é uma prova da enorme confiança que aquele que parte tem no que
fica. É revelado de forma escancarada que nada sabemos acerca dos mistérios da
existência.
Lembro do momento da partida de
minha tia, após longo e corajoso período de luta contra um câncer que lhe
consumiu o corpo. Ela já estava totalmente sedada, talvez, não sentindo tanta
dor, esperando o derradeiro bilhete de embarque para sua última viagem, mas
estava de olhos abertos quando entrei no quarto.
Passados quase nove anos recordo a
roupa que vestia, o trecho de um livro espírita que li antes de sair do
trabalho – deixe que os mortos cuidem de seus mortos, o elevador que não
chegava, os cinco andares percorridos com correria, a hora que entrei no quarto
(12:50), seu último suspiro e a última lágrima que escorreu em seu rosto.
É inegável, Camila terá como companheiras
eternas uma quantidade de dúvidas, poderia ter feito algo diferente? E se tivessem
ido a outra parte do rio? E se não tivessem combinado o banho? Serão
infindáveis “ses”, mas uma única certeza, na indignidade da morte, Domingos a
honrou como sua fiel companheira de partida.
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| Imagens retiradas da Internet |
terça-feira, 13 de setembro de 2016
Sobre Cucas, Casamentos e Afins
Gosto de participar do que
convencionei chamar de provocação literária, que consiste exatamente em criar
estórias através de um tema qualquer. Aprecio ainda mais quando ela surge em
dias chuvosos que lembram o inverno Londrino e o que foi proposto obriga
aqueles dois neurônios remanescentes a se encontrarem e entrarem em comum
acordo sobre que caminho trilhar e principalmente como escrever.

Indiretamente quem me provocou
foi a Adriana, minha amiga e ex-colega dos tempos da Universidade que foi
tentar a vida no Velho Mundo, mais precisamente em Vitória Gasteiz, no País
Basco e que para quem não sabe está incrustado no antigo Império Espanhol. Ela é uma guria espetacular, alto astral e de
uma generosidade sem igual, compartilhamos a profissão e o gosto pelo consumo
às vezes sem moderação de literatura e cultura. Sabedora dessa minha compulsão
me prometeu um exemplar de Dom Quixote em Espanhol, vejam só!
O melhor de conhecer alguém
que vive do outro lado do Atlântico e que, principalmente, se disponha a
dividir sua nova cidade através das modernas tecnologias de comunicação é
conhecer locais belíssimos, que se quer imaginava existir e principalmente, a
possibilidade de deparar-se com os pormenores de uma civilização totalmente
diversa. As fotos dos cafés, das ruas e praças, livrarias e pratos que ela
gentilmente compartilha, poderiam perfeitamente originar um livro de arte
fotográfica tamanho o colorido e arquitetura.
Hoje ela encaminhou essa foto
com as belíssimas e quiçá saborosas cucas. Para quem não está habituado ao
nosso linguajar, cucas não são cabeças soltas que rolam por ai, elas são bolos
recheados ou não e cobertos com uma farofa fantástica, que ao meu paladar é o
ponto alto da iguaria. Haja como contentar gordos e magros, gregos e troianos,
brasileiros e brasileiras!
Comentei que ela estava se
tornando cada vez mais prendada, expert no domínio da secular arte culinária e
esta é uma das gloriosas experiências que o matrimônio recém adquirido
proporciona. Logicamente que para toda ação, há sempre uma reação oposta de
igual intensidade – se Newton não disse isso, esta frase passa a ser minha – e ela
contra-argumentou que nós homens, possuímos uma relação ímpar e incomparável
com a comida. Esta talvez seja a maior injustiça impetrada contra nós, homens
de boa fé e índole. A relação que nutrimos pela comida é a mesma que nutrimos
por qualquer outra que nos proporcione prazer. Simples assim!
O importante, o fio
desencapado, o ômega, o xis oculto da questão é que o matrimônio te apresenta a
inúmeras possibilidades de aprendizado e crescimento e sobre o tema posso falar
com certo conhecimento de causa. Talvez
por seguir os passos de meu avô que casou três vezes e teve alguns romances
pelo trajeto percorrido do berço ao túmulo, já o alcancei no número de
matrimônios e alguns primos também honram ou não a saga do Vecchio nono!
Casar queridos amiguinhos é
presenciar a diminuição da freqüência do intercurso carnal com o passar dos
anos, talvez porque os arroubos da paixão cederam espaço para a maturidade do
amor, pela disponibilidade diária do corpo e da alma ao seu lado de forma
prática, rápida e indolor ou ainda há outra possibilidade, os pombinhos
passaram a valorizar a qualidade e deixaram de lado a quantidade de vezes que
aquela troca de fluídos ocorre. Um amigo costuma dizer que você sabe se os
casais ainda se procuram pela forma que o marido apresenta a esposa, se ele disser
fulano, esta é a minha “senhoura”, deu, ou melhor, não deu mais.
Dividir o lar é descobrir
pêlos e cabelos que não são seus grudados no sabonete, na toalha de banho, nas
grossas roupas de inverno, no travesseiro surrupiado e abraçado durante sua
ausência consentida no leito de núpcias, além disso, é juntar as escovas
naquele deprimente copinho sobre a pia do lavatório, é encontrar pentelhos juntos
e misturados em constante harmonia no ralo do Box, é querer amaldiçoar
trezentas gerações do parceiro por tentar de forma dissimulada colocar uma
cortina de peixes coloridos e psicodélicos no banheiro.
Coabitar é ter o estresse do
sapato no meio da sala, a roupa jogada sobre a ergométrica – o mais caro cabide
da história – é toalha molhada e amarrotada sobre a cama, cobertas no chão,
tapar e se destapar igual um processo industrial em noites mal dormidas, receber
aquela reprimenda clássica – dá pra parar de se mexer, estou tentando dormir?
Estar amigado é justamente
tudo isso e mais! É água bebida direto da garrafa com a geladeira aberta, pão
dormido, provar o molho na panela, discordar da quantidade de temperos
utilizados no prato, é dobrar a receita sabendo que não vai dar certo e escutar
aquele sonoro “eu avisei”. Recentes estudos de uma conceituada universidade
afirmam que essa simples e quase inofensiva expressão já resultou em mais
conflitos que a briga por terra, se há verdade ou não, que se arrisca a
comprovar? Eu não!
Morar junto não é tarefa das
mais difíceis e tão pouco flerta com a facilidade de resolver uma equação
composta de matemática. Complicado mesmo é entrar em acordo sobre os móveis,
sobre a disposição de cada um nos cômodos do espaçoso sala, dois quartos e
cozinha conjugada. Não existe uma
fórmula pronta igual à cuca hispano-tupiniquim da Adriana, cada qual com o seu
qual e, por favor, não venha querer mudar a minha receita!
O credo popular já diz, o
casamento é uma relação a dois em que a esposa está sempre certa. Talvez o
casamento seja a relação em que você deseja ardentemente e de forma repetida,
trucidar o outro, mas não o faz porque lembra que esse outro te ajuda a pagar
as contas no fim do mês, porque sem esse outro, você jamais encontrará o
controle remoto perdido sobre o sofá, não terá mais aquele despertar com
bafinho, olheira e cara amarrada, a cobrança pesada tal qual um paquiderme
sobre a bagunça da casa e a exigência para participar mais no cuidado com as
crianças (embora não seja obrigatório que existam rebentos para um casal ser
feliz e completo).
Ah, desculpe, esqueci de
perguntar se você achou tudo isso escatológico demais? Pois é, viver é assim
mesmo, com pequenas variações, o que foge desse quadro de caos é conto de
fadas, estória fantástica e lenda urbana. Aventurar-se neste novo e
desconhecido mundo não é obrigatório, mas é uma viagem inigualável de
experiências e sensações iguais as que a Adriana está explorando entre um bolo
e um café, um camarão na moranga e uma paella, entre fatias da mesma cuca, mas
o importante é não deixar que elas embatumem!
Imagens de Vitoria Gasteiz, retiradas da Internet sem autoria
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
Perdão, preciso Ser Tolo
O Brasil é um País fantástico, uma fábrica capaz de criar e gerir polêmicas com uma velocidade espantosa; se a pessoa não prestar atenção, fica totalmente desatualizada sobre o que não possui relevância social. A mais recente polêmica é a publicação de uma coluna de um escritor e humorista, intitulada “Desculpe o transtorno, preciso falar de Clarice”, que versa sobre momentos da relação dele com a ex-mulher.
Todo ser humano já escreveu alguma linha sobre seu relacionamento. Talvez seja o tema mais fácil de ser desenvolvido, uma vez que, este é um dos principais combustíveis de nossa vida, motivo mor para a existência do gênero humano na Terra.
Isso fez com que me lembrasse de um de um poema escrito por um dos Poetas de minha Família, o Mestre Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Álvaro de Campos.
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
O poema e o texto publicado para Clarice, fizeram-me recordar do tempo em que me debruçava sobre o papel, empunhando bravamente a caneta para escrever tolas cartas de amor. Existiu este período em minha existência e elas tornaram-se uma obsessão, no mínimo a cada 30 dias uma carta nascia e era direcionada ao primeiro grande amor de minha vida e com o passar do tempo, qualquer motivo, por mais banal que fosse justificava a missiva.
Sim, você leu corretamente, meu primeiro amor foi vivido em uma época pré-histórica em que não existiam emails, sms, redes sociais e aplicativos de comunicação e pasmem a comunicação entre as pessoas era exercida através da conversa olho no olho, ligação telefônica, muitas vezes através de telefones públicos e cartas. As gerações atuais e futuras jamais saberão o que significava encarar a fila dos Correios para encaminhar uma carta social ao simbólico custo de hum centavo de Real e ficar imaginando a reação de quem a recebeu. Jamais, creiam!
Os anos foram passando, e aquele amor de outrora foi eterno enquanto durou, seguindo precisamente as recomendações literárias. Chegou o momento em que ele precisou ser enterrado apesar de ainda estar vivo, respirando talvez com a ajuda de aparelhos, querendo se agarrar a qualquer sopro que lhe devolvesse as forças. Veio o curto luto e enfim, milagres acontecem e outros amores nasceram e com ele o coração vadio foi ficando cada vez mais calejado.
Apesar de serem amores intensos, quentes e inesquecíveis, as cartas foram rareando até desaparecerem em um horizonte não tão distante. Estas relações não mereciam tolas e inconseqüentes cartas de amor? Sim, mereciam, porém elas tornaram-se obsoletas, perdidas e deslocadas em um mundo de constante mutação em que é preciso escolher entre o devaneio e a cruel realidade.
Tornei-me um cético e sério homem? Não! Continuo a ser tolo em menor escala, passei a escrever poemas de duvidosa qualidade e péssima métrica, sem estilo e repletos de sinceridade e palavras simples e de duplo sentido. Através deles presto minha singela contribuição a este mundo canalha que teima em extinguir o que realmente aquece nossos corações e alma, o sentimento que não deve adormecer jamais, aquilo que nos torna tolos, o amor!
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