Henry decidira partir de Paris naquele outono. Fazia uma ou duas estações que se distanciara de casa e tinha certeza que a poeira tinha tomado conta dos móveis. Suzanne era excelente cozinheira, mas péssima na arte de visualizar sujeira e exterminá-la. O caminho de volta era o que mais temia, sabia de suas necessidades, do tempo que passou e daquele arrependimento de outrora de onde surgia a insatisfação do retorno.
O exílio talvez já fosse suficiente, mas o cético Henry ainda não conseguia visualizar no espelho o reflexo de quem se tornara. Não acreditava estar curado do mal que lhe castigava, no fundo de sua alma ainda residia a semente daquele fruto daninho. Por mais que vigiasse seus pensamentos, o labirinto em que se perdera ressurgia, com as altas e esverdeadas paredes em seu entorno. Ao mesmo tempo em que a vergonha tomava conta de sua alma, certa excitação e êxtase lhe aprofundavam os pensamentos, estes eram os momentos em que o temor lhe dava as mãos.
Havia muito a perder e Henry o sabia, o tempo passava e isto não lhe fazia bem. Escutara tantas opiniões na Cidade Luz, mas nenhuma igual à de Sophie. Em uma noite regada a vinho e queijos; ela, dotada de sua característica franqueza disse que já havia chorado tudo o que deveria e esse era o conselho a lhe dar – chore Henry mon amour, é o melhor que tens a fazer!
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