Esta não é apenas mais uma carta e talvez ela nem mereça ser lida, porque pode se assemelhar como um eterno queixar, mas ele tentara fazê-la como uma peça única que merecesse realmente ser guardada ou na pior das hipóteses, ser destruída após a leitura.
Não esperava sinceramente nenhum retorno, porque insistir em determinados desejos e vontade, poderia ser determinante para o insucesso de vidas que antes se assemelhavam a contos de fada. Pensara o quanto era estranho as produções que a Providência determina a cada um. Lembrara de uma tarde tão longínqua, que não possuía mais data, perdida no meio de tantas outras de igual importância, onde as impressões foram tão fortes, tão contundentes que criaram uma afinidade tão improvável quanto real. É como se fosse um reencontro, uma reaproximação criteriosamente planejada pelos engenheiros do destino para duas almas errantes, viajantes milenares dos labirintos plantados no tabuleiro da existência.
Humanos e imperfeitamente perfeitos, não observaram as sinalizações e sem importar os defeitos e os costumes, não mediram os esforços para que os antes guardados sonhos tornassem-se realidade. Suas testemunhas foram as estrelas de noites infindáveis, em que o silêncio significava imensuravelmente mais do que palavras escolhidas e repetidas incessantemente, sussurros eram as canções entoadas em torno das mesas e sempre foi assim, um constante encontro e desencontro. Um temor percorria os braços de ambos, as mãos tremiam e suavam frio a cada instante em que se quedavam frente a frente.
Sentados na beira do mar, guardados sob árvores ou simplesmente caminhando despreocupadamente em lugares tão especiais, eles imaginaram que seriam felizes. Sim, a felicidade estava restrita a singelas ocasiões, pequenas demonstrações de carinho e o mundo de ambos parecia repleto.
Ah esse tão inconstante ser humano, não se dá satisfeito por nada que conquista. Sempre deseja dar mais um passo, se sentir cada vez mais vivo, falar o que sente e deseja ser entendido. A estreita estrada de antes que os permitia tão próximos foi sendo alargada, e o que antes parecia ser uma tranqüila e perfeita viagem, tornou-se repleta de percalços.
Ele sentia-se relegado a um plano tão distante que se pegava perguntando o que havia acontecido e não encontrava respostas, imaginava que talvez ele devesse se convencer que não servia para acompanhá-la; pensou em várias daquelas noites em que a procurava em vão, em deixar gravado em algum banco de praça; “meu amor, você é uma ave que ama a liberdade e o céu não te limita, estás livre pra seguir teus longos vôos sem necessidade de voltar, me acostumarei com tua ausência!” Isto seria o correto, mas ele por mais que tentasse não conseguia.
Ainda estava bem viva em suas lembranças uma ligação furtiva no meio de uma manhã de tensão extrema, em que ela falando baixinho pergunta se a escutava bem. Diante de sua resposta afirmativa, ela fala bem baixinho: te gosto! Como deixá-la partir? Onde encontraria outra igual a ela? Ele não queria mais se preocupar com nenhuma situação, tentava se tornar em alguém mais forte, capaz de enfrentar todos os obstáculos e sair vitorioso sempre, mas quando conversavam havia briga, desentendimento covarde e a distância aumentava a saudade, era assim que ele sempre pensara e nisto se apegava na esperança dela sentir o mesmo.
Seu coração era bobo, talvez, louco, porque sabia no fundo que eram incompatíveis, não poderiam mais uma vez ficar juntos, mas era tanto amor e paixão que sentia que as razões que a própria razão desconhece falaram mais alto. Ficara parado, não tinha mais respostas, vivia na esperança de acordar ao seu lado, embora soubesse da impossibilidade, era chegada a hora de partir. Em verdade não conseguira, por mais que tentasse, todo o caminho acabava nos braços dela, em seus doces beijos e perdido nas curvas sinuosas de seu corpo.
Quisera, rezara tantas vezes para que houvesse uma saída e nenhuma apresentada lhe agradava. Não havia mais tempo, novo amor apresentava-se no horizonte de ambos e ele uma ultima vez a olhou pela janela, abanou de forma discreta e a deixou partir, contrariado em si mesmo, incerto da decisão tomada, fincou os pés no chão, decidira que sonhos não eram feitos para ele e vestiu pela ultima vez a armadura que dele, ela despira!
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