quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A manhã de Henry

Henry não conseguia pregar os olhos, apesar do cansaço que tomava conta dele e do sono que sentia. Era como se algo o mantivesse acordado, plenamente ligado e disposto a raciocinar sobre as mudanças que vinham ocorrendo em sua vida. Mudanças bruscas geram invariavelmente um desconforto descomunal, bem como, indagações profundas e o temor de sair daquela zona de segurança que resolvera estacionar há tanto tempo.

As tentativas para desligar o botão do pensamento que o direcionava para quilômetros dali eram inúteis. Havia tentado de formas diferentes se afastar daquele cálice, por mais que quisesse seus passos sempre o levavam para a mesma direção e o mesmo recomeço. Confessava para si que viver daquela forma, como um arremedo do que já fora não lhe agradava nenhum pouco. Obtivera a permissão de tentar consertar todos os problemas que criara em sua ultima estada naquela cidade, mas com seu jeito inconseqüente, colocara tudo a perder novamente.

Inegável a sua queda. Percebia que a necessidade de alternativas para colocá-lo novamente em condições plenas de discernir entre o certo e o errado eram latentes, não poderia viver escondendo-se sob disfarces que pensava, não enganavam mais ninguém. Tudo começara em uma noite perdida no tempo e espaço, imaginara se o portal de outra dimensão não fora aberto e ele sugado para dentro desta nova realidade que se descortinava em sua frente. Lutara durante muitos anos para não cair em tentação, mantivera-se fiel as suas mais profundas convicções, mas naquele instante nada daquilo parecia fazer algum sentido. É como se estivesse recomeçando a escrever sua História, e por experiência própria, sabia do riscos que enfrentaria. Estaria disposto a pagá-los?

Olhava para o teto mofado do quarto e reconhecia entre aquelas manchas, as faces de pessoas que pareciam saltar e falar-lhe. Decididamente era hora de agir. O dia começara feio, uma chuva forte lavava as ruas e deixava o clima mais frio. Estas tempestades de inverno serviam unicamente para isto, esfriar o tempo, faze-lo tirar os casacos do armário e sentir-se um pouco mais preso, seus movimentos acabavam por se restringir e era exatamente disto que ele estava escapando. A cada instante o som das águas caindo sobre sua janela tornava-se mais forte e isto tinha um efeito devastador sobre ele. Henry ficaria mais tempo na cama que insistia em expulsa-lo, iria se revirar de um lado para o outro, arrancaria os lençóis do lugar, iria atirar os travesseiros ao chão e resistira ao fato de levantar-se. Não poderia mais se furtar da responsabilidade, tinha que encarar a realidade e buscar uma saída, e ele o faria.

Estranhamente naquela manhã, seu rosto estava mais alongado, a barba por fazer já algum tempo emoldurava a palidez com que estava pintado. Os olhos fundos e opacos encaravam um homem que ele não conseguia decifrar. Estivera tão envolvido com as necessidades urgentes de Monique que esquecera dele próprio. Vivia uma relação repleta de altos e baixos com aquela mulher, ao ponto de diversas vezes terem se afastado, mas seus pólos os uniam novamente. Por mais que ele procurasse uma explicação plausível ela não se descortinava, continuava sem explicar qual a estranha ligação deles.

O chuveiro ligado permitia que a água fizesse coro com a chuva que ainda caia. Seus pensamentos estavam distantes. As palavras de Monique continuavam a ecoar – não tenho tempo agora, não posso ficar perdendo tempo, tenho relatórios pra entregar. Inegavelmente ela era uma mulher que priorizava a carreira e isso batia de frente ao pensamento de Henry. Ela deveria ser mais suave, mais leve, não levar a vida de forma tão seria, afinal de contas, era apenas metal, dinheiro que entrava por uma mão e sairia pela outra e não permitira que ela aproveitasse os instantes que poderia se proporcionar. Em contra partida, Monique não concordava com o ponto de vista dele. Ela era segura de si, desejava ser cada dia mais independente, achava desnecessário possuir um mantenedor, afinal, ela tinha fibra e saúde para conquistar o que desejava, só precisava ajustar a sua agenda profissional aos inúmeros compromissos que lhe eram ofertados. Seu dia se iniciava antes mesmo do sol surgir e terminava tarde da noite, era uma correria que realmente fazia inveja aos mais notáveis maratonistas. Definitivamente nunca se entenderiam.

Foi justamente nesta hora que Henry percebeu o quanto desconhecia a vida de Monique. Ela sempre fora uma incógnita, um aparente mar calmo e isso o instigava. Ninguém poderia ser daquele jeito 24 horas por dia, sorrisos, palavras gentis sem deixar guardado seu outro lado. Era justamente este outro lado que o fascinava, o jeito de explodir, de falar sem parar, de metralhá-lo com seus pensamentos, desejos, idéias e olhares. Sempre quisera acreditar que ele era o único que conhecia este outro lado da menina tranqüila.

Em verdade, queria conhecê-la e da mesma forma desejava que ela o conhecesse, de forma total, sem esconderijos, sem maneios, só que percebera que nunca haviam parado frente a frente e dito tudo o que lhes era importante, apenas mostravam a capa de seus livros, mas não permitiam que fossem folhados, manuseados, o seu conteúdo ainda era desconhecido e da forma como tudo estava sendo desenhado, permaneceriam ocultos. Ele pouco sabia sobre sua vida fora das quatro paredes, era como se apenas o desejo e o sexo os ligassem. Isto o incomodava, era óbvio, mas não poderia ser muito diferente, afinal de contas, eram apenas furtivos os momentos que desfrutavam.

Nunca pediram para entrar naquele espiral, em verdade quando se perguntavam como se conheceram, as definições eram diferentes. Cada qual se perguntava em qual o momento poderiam ter deixado o outro de fora de suas vidas e as respostas eram quase sempre as mesmas, sabiam que não deveriam permitir a aproximação, mas não possuíam coragem de afastar-se. Por mais que brigassem e se cobrassem ou tentassem manter uma posição de total afastamento e convencimento que nada existia entre eles, era impossível deixar de notar as faíscas que surgiam quando estavam próximos.

Todo o dia surgiam novos atores que insistiam em afastá-los e até parecia que esta deveria ser a melhor atitude a ser tomada, cada um seguiria sua vida, trilhariam caminhos diferentes e se fosse de agrado do destino se encontrariam mais a frente. Isto seria a atitude lógica a ser tomada por pessoas com um pouco de centro, mas eles inegavelmente eram diferentes da maioria. Pelo menos Henry assim julgava. Em sua forma de idealização encontrara naquela mulher um pedaço de vida que lhe permitia seguir vivo, era difícil definir tudo o que lhe chamava a atenção.

Ao meio de uma das infindáveis discussões que tiveram Monique mostrou toda a sua ferocidade ao dizer-lhe que ele não queria conversar, essa seria apenas uma desculpa encontrada para não deixar claro e escancarado o desejo de levá-la para cama. Ele pensou que talvez você mais fácil se transformasse essa inverdade em uma incontestável verdade. Sim, seria muito tranqüilo que confirmasse o desejo de tirar-lhe a roupa, prensa-la contra uma parede e possuí-la como os animais no cio. Sim, era isso que ela gostaria de escutar, teria a certeza que ele era igual a todos os outros que a procuravam e flertavam na esperança de ter momentos de prazer com uma mulher encantadora. Tinha tomado sua decisão, na próxima encarnação agiria assim, com certeza, mas nesta não teria este ímpeto.

Enquanto a água caia sobre seu corpo, tentava colocar os pensamentos em ordem, embora não soubesse ao certo o que estavam vivendo, que tipo de relacionamento era aquele baseado em desencontros e brigas, tinha apenas a certeza de não possuir a força necessária para dar um basta naquela situação. Iria simplesmente deixar a vida leva-lo, não era fácil para ele viver aquela situação, ela era extremamente contrária a tudo o que ele sempre acreditou. É como se ele pegasse os ensinamentos de uma vida inteira e os rasgasse, esquecendo as aulas de catecismo, as ameaças de uma vida nos mais profundos abismos tomados pelo fogo do inferno, estes seriam os riscos assumidos e talvez não tão bem mensurados. Ambos possuíam pares que lhes completavam, eram seus suportes emocionais, lhes proporcionavam o amor mais puro que poderiam desfrutar, mas parece que não era suficiente. Henry inegavelmente possuía uma alma indomável. Poderia traçar um paralelo entre o universo e sua alma, ambos estavam em constante expansão e era isso que o incomodava de maneira única. Tentava compreender o porquê era assim. Queria compreender porque Monique o deixou entrar em sua vida, se ela sempre propagara ser uma mulher centrada e tinha um pânico mortal que desconfiassem que ela estava encantada por ele, mesmo no período em que eram descompromissados. Seriam eles dois ingratos? Não estariam arriscando demais? Eram inúmeras perguntas que encontravam sempre a mesma resposta, um “não sei” com entonação entre o desespero e frustração.

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