quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O ménage de Jeremias


Ele passou parte da sua vida escutando as piadas sem graça acerca de sua identidade civil. Jeremias ao contrário de seu homônimo musical, não era maconheiro e tão pouco sabia dançar. Semelhante somente o fato de ser um tanto sem vergonha e que desaprendera a rezar há muito tempo. Amadureceu a toques de facão, conhecendo a crueza e dificuldade da vida. O esforço lhe foi compensado, advogado iniciante, defendeu uma causa quase impossível contra uma grande corporação e venceu. Daquele dia em diante, passou a ser um dos advogados mais requisitados e vencedor da cidade.

Todo bônus carrega consigo um ônus de igual grandeza, o seu era de dispor de pouco tempo para gozar os prazeres da vida. Abria de toda forma uma exceção quando se tratava de sair para jantar com Vanice. Conheceram-se ainda no segundo grau, quando ele tinha o rosto tomado de espinhas, usava tênis de basquete e camisetas pretas enquanto ela ostentava um corte moderno de cabelos ao estilo Bozo e preferia ombreiras e casacos de toureiro. Definitivamente o tempo fora generoso com eles, em nada lembravam aqueles adolescentes tomados de certezas.

Encontravam-se sempre no mesmo restaurante. A localização privilegiada, no alto da cidade, permitia que contemplassem toda a selva de concreto, emoldurada pelas luzes que iluminavam a noite. Tinham elegido aquele local como o refugio das correrias e dissabores que experimentavam, um momento de comunhão entre eles. Pediram a carta de vinhos e escolheram um Catena Zapata Malbec. Fazia algum tempo que não se encontravam, portanto, muito assunto para ser atualizado, comentar sobre as conquistas profissionais, os perrengues emocionais e até mesmo as lembranças esquecidas em cantos obscuros da mente, que incrivelmente ressurgiam quando estavam juntos.

Entre goles, diálogos e garfadas,não necessariamente nesta ordem, Jeremias lembrou que recebera um convite inusitado no inicio da semana e contou para Vanice. Durante uma consulta em seu escritório, um casal, expressava a admiração por ele e como se sentiam confortáveis em sua presença a ponto de lhe convidar para partilhar da intimidade deles em um ménage. Assim, de forma direta este convite foi feito, como se estivesse sido convidado para correr uma maratona ou ir a feira livre de domingo. Gentilmente ele declinou, afirmando que se fosse para decepcionar duas pessoas ao mesmo tempo ele preferia levar os pais para almoçar.

“Capaz, morri” – disse Vanice, explodindo em uma risada que ecoou pelo salão do restaurante. Recuperada, completou – “Pensando bem, tu foste perverso! Melhor fazer isso para não criar expectativas e surpreender depois!”

“Não sabia que pode surtir esse efeito. Vou começar a lançar esse artifício, vai que dê certo com alguém – disse com jeito reservado, esperando a reação da amiga.

“Pois é, sempre dá certo, só não pode ser demais, tem que ser na medida certa” – sentenciou olhando diretamente nos olhos que a analisavam profundamente.

“Sempre dá certo?”

“Fica a dica, só isso.”

“Vou encarar como um incentivo ou sei lá...”

“Coisa querida e ingênua da minha vida, vamos sair daqui?” – Vanice sendo Vanice, direta!

Abriram a porta do apartamento de Vanice, que estava iluminado apenas pelas luzes dos postes. Tudo em silêncio, não se ouvia nada, um absoluto e necessário silêncio. Quebrado pela primeira vez com o som das chaves aterrissando no tampo de madeira da mesa. Foi a senha, a sequência necessária para que a tensão crescente chegasse a seu ápice e explodisse. Iniciaram uma intensa briga de línguas, retiradas de batalha apenas para que as bocas pudessem percorrer os pescoços alheios com a vontade luxuriosa dos fins de noite, arfares continuavam a desvirginar o outrora intocado silêncio. Roupas começaram a ser jogadas pela sala, sobre o sofá vermelho ficaram o vestido listrado branco e preto e a camisa azul.

Pegou-o pela mão e o puxou para o quarto, enquanto deixava a mostra um quarteto de belezas composto pela nudez das costas e a tatuagem que a cobria inteira, a cintura desenhada e os glúteos perfeitos. A cama estava intocada, esperando apenas a oportunidade para ser desfeita, testemunha perfeita e discreta da devassidão que ali nascia e crescia. Exploravam seus corpos sem pressa alguma, a noite era longa e sempre, mas sempre, pode ser surpreendente. Escutaram um barulho na porta de entrada, somente naquele momento lembraram-se de como foram desatentos, deixaram provas espalhadas pelos cômodos sem recordar que morava mais alguém ali. Surpresos, viram Natalia, colega de apartamento, entrar sala adentro vestida com um minúsculo vestido de Mamãe Noel, um gorro e uma perneira rendada.

“Olhem só meus amores, parabéns! Quem diria, o Natal chegou mais cedo para vocês, e eu serei o presente! Posso?”

Rápida, sem esperar pela resposta a sua pergunta, se juntou a eles e na medida em que a excitação aumentava mais vontade de chorar Jeremias tinha. Por um simples motivo. Natal sempre lhe deixava triste e nostálgico, sensível à época em que as crianças repletas de esperança esperam com ansiedade os presentes do Papai Noel, após um ano de comportamento questionável. Recordou das vezes que se comportara, mas não recebera a visita do bom velhinho, chegou a pensar que Papai Noel não gostava de ir à casa de pobres e quando aparecia nunca trazia o que lhe pedia. Descobriu anos depois quem eram os verdadeiros Papai Noel.  Nunca se recuperou do trauma infantil.

Não havia mais clima, apesar de estar nos braços da morena e desejável Vanice e da voluptuosa e loira Natalia. O guerreiro estava abatido, fora atingido em um lugar impossível de recuperação – a mente! Começou a chorar o choro dos humilhados que não serão exaltados, o choro miserável de quem perdeu a oportunidade de escrever uma página dourada no livro das memórias. O choro daquele que percebe o quanto a vida pode ser engraçada e ingrata, que somos peças no tabuleiro dos Deuses que nos mexem conforme os dados rolam.

“Jeremias, Jeremias, Jeremias, Terra para Jeremias, o que vamos pedir de sobremesa?”

Acordou de seu devaneio, ainda estava no restaurante e Vanice, linda, bronzeada e plenamente vestida, estava em sua frente, querendo escolher a sobremesa. Teve vontade de dizer que devia ser ela, mas lembrou que estavam nos idos de Dezembro e o Natal se aproximava, melhor não arriscar nenhuma jogada ousada e terminar a noite com o pouco de dignidade que a inspiração lhe presenteava.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Meu vovô!


Carta para meu vovô!

As pessoas podem pensar que o fato de ser pequeno me impossibilite ter uma boa memória. Não, não, não! Lembro muito bem de várias coisas. Sim, coisas, porque apesar de ter essa memória privilegiada não aprendi todos os nomes deste mundo.

Sei bem o nome do Velociraptor, do Tiranossauro Rex, do Batman, Homem-Aranha, Hulk, Super-Homem e principalmente que a Patrulha Canina salva o dia! O que não me interessa vou deixando pra depois. Assim deve ser a vida de uma criança, e assim é a minha!

Eu sou um garoto bem sortudo, sério, no duro! Olha, tenho papai e mamãe que me amam e cuidam bem de mim e também tenho um plus de cuidado e amor – Vovôs! Vocês sabem o que é ter vovôs? Pois então, eu tenho mais de um, tenho quatro! Sim, eu sei, não quero me aparecer, são muitos vovôs; dois que moram perto e dois que tenho que pegar avião para visitar. Todos eles são muito legais, mas já notei que minhas vovós falam mais que meus vovôs. Eles são mais quietos e um dia ainda vou descobrir por que. E o melhor, sei que eles me amam bastantão!

Tem um dos meus vovôs que eu fico bem ligado. Quando eu ainda estava no aconchego e proteção da barriga da mamãe eu escutava a voz dele e ficava imaginando como seria o dono daquela voz grave. Ele não falava muito e ria menos ainda e isso me deixava mais curioso. Porque sim, crianças são muito curiosas, querem, como dizem os adultos, dar fé logo no que está acontecendo. E eu não sou diferente no auge dos meus três anos de vida. Vou contar um segredo, faltam apenas dois para eu ficar grandão e ai sim, ninguém vai me segurar!

Voltando ao vovô, eu queria mesmo saber como ele era. Quando nasci, reconheci logo meu papai, ele estava todo bobo e acho que até chorou junto comigo quando as luzes desse mundo começaram a me incomodar. Quando ele me levou para conhecer o resto da família fiquei perplexo! Tinham quatro que podiam ser o vovô que ria pouco.

Olhei com os olhos meio fechados e vi que dois que não tinham cabelo não pareciam com vovôs, logo descartei eles. Os outros dois sim pareciam vovôs, mas estávamos separados por uma janela, meu ouvido não conseguia escutar nada do outro lado, então precisei esperar mais algumas horas para que minha expectativa se solucionasse.  Quando ele me pegou meio sem jeito no colo não tive mais dúvida. Era ele! E mais, descobri que até aquele dia ele não era vovô! Eu o fiz vovô! Fui o criador, refiz o trajeto natural da vida, através dele meu papai nasceu e eu cheguei aqui e agora eu retribuía, lhe dando o título de vovô.

Acho que até fui meio mágico, porque dizem que ele voltou a sorrir mais e a ficar bobo com as minhas tiradas inteligentes e rápidas. Gosto dele, muito mesmo, tanto que eu quero ficar sentado na cadeira dele que balança e aprendi a imitar o jeito dele andar com as mãozinhas para trás. Percebi que ele não lava a minha roupa como a vovó faz e nem cozinha bem iguala ela. Aprendi a dizer isso só para implicar com ele, não sei onde escutei que só implicamos com quem gostamos. A verdade é que da comida do vovô nunca provei, mas já comemos pão de mel juntos, que é quase a mesma coisa, né?

O vovô quando quer falar comigo me chama de lindo e eu fico olhando como se não soubesse direito, mas sei bem o que é ser lindo! Meus vovôs me lembram sempre disso. Sou o lindo do vovô e o lindinho da vovó! Isso não é pouco. Decididamente sou um garoto de muita sorte mesmo e sei disso, principalmente quando escuto o meu titio de nome estranho – Ando ou Anson, ah não sei – dizer que ele não sabe o que é ter vovô! Eu sei! Por isso peço para ir pra casa deles, peço pro meu pai os chamare para a minha casinha e não quero que ele vá embora quando me leva feijão, porque eu tenho sorte de ter vovôs que me chamam de lindo e principalmente porque nos fazemos felizes!

Monica


Perdoem-me a falta de precisão em meu relato, confesso que hoje, falar nela me transporta para um nível de consciência em que dispenso os detalhes maiores para poder me concentrar ao que realmente importa. A conheci em um dia incerto de um mês desconhecido em um ano não registrado e disso tudo, a única certeza é que nosso encontro aconteceu em uma época inconsequente, onde minha preocupação com a contagem do tempo rivalizaria com a atenção que dispensaria para a reprodução de uma planária.

Ela se mostrava, desde os primeiros momentos, sem filtros e rodeios. Sempre direta, deixava claro que não era o tipo de menina que levava desaforo para casa. Não senhor! Dona de uma personalidade forte e ao mesmo tempo romântica, Monica sempre soube muito bem o que desejava, de uma forma positiva, exigindo e impondo respeito com sua maneira peculiar de enxergar a vida.

Tenho certeza que seu pai não imaginou o impacto que as ações da pequena Monica representariam e a importância e influência que exerceria sobre gerações de garotas e garotos que tiveram contato com ela quando trouxe a vida e a registrou no distante 1963. Mauricio de Sousa foi extremamente feliz e sem perceber, mudaria a partir dali, principalmente a forma como as meninas se enxergariam através da personagem de vestido vermelho.

Monica mostrou, ao contrário do que alguns desejam fazer crer que o mundo é das mulheres e ela tem cumprido seu papel de embaixadora informal dessa bandeira de forma exemplar, sendo essencial ao reforçar essa mensagem. Mulheres fortes uni-vos, vocês podem tudo! Sempre e cada vez mais! Quando você começa a observar as que estão a sua volta, encontrará muitos exemplos que corroboram esse argumento.

Uma verdadeira Monica larga tudo para viver um romance em outra cidade, Estado ou País se esse for o seu desejo. Ela foca e planeja sua carreira sem a menor preocupação com os comentários de terceiros. A Monica raiz percebe que não precisa dos velhos modelos de relacionamento para se sentir completa, pode constituir uma família, viver sozinha, ser mãe solteira e até mesmo não aceitar o papel de reprodutora como meta de vida, sem medo algum das maledicentes tias. Uma Monica de carne e osso não aceita um não com a passividade de outrora, cobra respeito da sociedade, acorda cedo e dorme tarde correndo atrás de seu sonho. Esta Monica moderna é criativa, empreendedora e não quer depender de ninguém que não seja ela própria. A Monica do século XXI é justa e mal agradecida, doida e sã, pecadora e sacra. Sabe bem o que deseja e como se realizar.

Sabendo disso, cresci e me tornei um homem observador, dedicado a encontrar o máximo de Monicas em minha existência, para permanentemente aprender com elas a me tornar um elemento mais flexível, um ser humano decente e despido das visões arcaicas eternizadas por discursos vazios. Assim fui encontrando uma série de Monicas disfarçadas de Anas, Márcias, Adrianas, Fernandas, Marias, Robertas, Andreias, Vanessas, Sandras, Helenas, Milenas, Jussaras, entre tantas que me presentearam com seus exemplos e conquistaram minha eterna admiração.

Carta para Anna


Minha amada Anna,

Talvez devesse começar a escrever mais cedo, sabes como sou impreciso quando necessário e um relógio suíço quando é inútil. Compreendo que você queira respostas e satisfações e não uma série de desculpas e palavras evasivas, porém minha intenção jamais foi nos trazer a este ponto.  Preciso te pedir desculpa Anna. Reconhecer que nada aconteceu da forma que combinamos e imaginamos, e isso se torna mais doloroso, pois recordo claramente todo o planejamento e os ajustes que fizemos para passar alguns anos juntos.

Não pense que é fácil e cômodo. Saiba que existe nas profundezas do lago onde afoguei minha consciência, um remorso velado, imperceptível na superfície que deixo a mostra. Constantemente ao fechar os olhos, te vejo correr em minha direção com os braços abertos e o sorriso que desarma qualquer mau humor e me dói o peito saber que somente assim e em sonhos consigo relembrar teus negros e encaracolados cabelos e a vivacidade de teus olhos verdes. Estão aqui, em mim, cada vez que me permito pensar em ti.

Espero que você acredite em minha franqueza, pode soar como apenas a repetição inútil de uma frase vazia, mas me desculpe Anna por preferir escrever que dizer frente a ti que existe apenas um culpado por toda essa indefinição e impossibilidade de seguir em frente. Talvez você não acredite e se revolte, pelo medo que tenho do silêncio desta casa, a cada dia que passa mais distantes ficamos. A culpa não é tua. Nunca foi. Tive medo, hesitei quando não podia.

 Provavelmente não vais ler estas linhas, não sei onde vives agora, então para onde enviá-las? Talvez viva em alguma casa amorosa distante e não é fácil imaginar isso. Não, não precisa dizer que sou pessimista, apenas tento ser o mais realista possível. O sofrimento nascido das impossibilidades auto-impostas é um fardo pesado e indivisível. Porém saiba amada Anna, te quis sim em minha vida, mas não encontrei a hora para tua chegada e foi isso que desejei te dizer no sonho de ontem.

O mesmo local com o sol quente a beijar a grama da praça, o céu limpo de nuvens, com os gritos e risadas das crianças e os cães correndo capturando tua atenção enquanto brincava no balanço vermelho, o teu preferido! Tudo seria igual, acordaria em seguida e levaria a mesma rotina diária. Porém ontem o roteiro foi diferente; no auge de tua sabedoria infantil, me indagou – Papai está na hora de ir embora e já estou com saudades de novo! Quando você volta? Quando eu chego?

Domingos


Domingo, quero te encontrar e desabafar todo meu sofrer, estar ao seu lado, esquecer de tudo. Tudo que o amor até hoje nos fez sofrer, esse é o trecho de um pagode de sucesso nos anos noventa, que ressurgiu em minha mente enquanto descia as escadas claras da escola onde fui exercer meu dever de cidadão com direito constitucional de eleger os representantes do povo.

Todo o pleito envolve a disputa de idéias e doutrinas, algumas tão iguais que se confundem em uma simbiose duvidosa. Depois de anos em que a corrupção e o descaso se tornaram endêmicos, a polarização eleitoral foi a conseqüência lógica, dividindo uma vez mais os brasileiros. Estas reflexões me acompanhavam quando ganhei a rua e decidi tomar o caminho mais longo em direção a casa.

A escola fica próxima da rua em que nasci, cresci e vivi até meus dezessete anos e inesperadamente uma vontade de revisitar aquelas quadras onde passei as primeiras fases desta caminhada carnal. Entrei no carro, olhei para o volante e girei a ignição, engatei a ré e coloquei o bólido em movimento. O trajeto seria curto, a rua que homenageia um herói Farroupilha possui apenas nove quadras.

Entrei na primeira rua à esquerda, andei alguns metros e direcionei o carro para a direita. Iniciava minha viagem ao passado, apesar de dizerem que viver nele é prejudicial, pois acabamos atrelados ao que já aconteceu, recomeçando uma espécie de espiral. Para mim, revisitá-lo é ver a minha história com olhos distantes, capazes de perceber os acertos e erros. Tão simples quanto encontrar um resultado matemático.

Transversalmente na quadra inicial viveu meu padrinho. Um bom homem, que não procurava com a freqüência que merecia reflexo da imaturidade da idade, pelo menos pensar assim exime uma parcela da culpa que carrego. Outro motivo não haveria. Lembrava que morava em um prédio próximo a esquina. Talvez fosse aquele primeiro, não tenho certeza e se estivesse com meu pai ele cravaria a posição exata, ele sempre foi bom com estas questões geográficas. Determinei que fosse aquele prédio e mentalmente pedi perdão por meu descaso, acredito que os pensamentos chegam longe e aqueles a quem são destinados os recebem.

Cruzei a rua e logo à esquerda encontro a Igreja em que fui batizado e a qual freqüentei nos primeiros anos de caminhada espiritualizada. Nela fiz minha Comunhão, meu irmão foi batizado e minhas tias trabalharam. Também ali me prepararia para a realização do outro sacramento cristão, a Crisma. Provavelmente a tivesse feito se aquele que escolhi para Padrinho não tivesse partido tão cedo. Recordei como esse irmão de meu pai foi presente em sua vida e um tio amoroso, mesmo morando em outro Estado. Senti uma saudade boa, agradeci por tudo o que ele fez e pensou em fazer por nossa família.

Ainda faltavam mais duas quadras a percorrer, e a seguinte se encontrava entre a Gomes Jardim e a Santana. Procurei a casa onde minha primeira paixão platônica viveu. Eram casas geminadas que foram demolidas e onde hoje existe um estacionamento. Lembrei do loiro de seu cabelo e de seu físico irreparável para os anos adolescentes.  Esta quadra e a próxima, onde morei são as que guardam mais lembranças. Os dois restaurantes ainda existem, agora, com novos nomes e o armarinho que vendia de tudo, se transformou em ferragem. E assim a vida vai mudando seus ciclos, se refazendo e se recriando.

O primeiro restaurante era o “Prenda Minha”. Apesar do nome gaúcho, servia um Filé à Parmeggiana que era uma perdição. Quase todo final de semana, íamos buscá-lo ou almoçar ali. O Darci e o Pila tocavam o estabelecimento e estavam sempre disponíveis para um dedo de prosa; da manhã a noite o movimento era grande, em uma época em que as pessoas andavam e não corriam como hoje. 

A penúltima quadra é onde morei. Dela me lembro com mais detalhes e riqueza de histórias. Olhando para o lado da esquerda, perfilam-se três prédios de três andares, que eram diferenciados pela cor. O primeiro era azul, o segundo verde e no que morávamos rosa. Pelo lado direito, havia o Restaurante do Portuga, do seu Manoel que agora é um Sushi. Toda manhã havia forte concentração de taxistas e de vários trabalhadores da região que tomavam o desjejum antes da labuta. Era um movimento bárbaro! Colado a ele havia o armazém do Luis, um bonachão que vendia de tudo. Ki-suco, raspadinhas, fazia jogo do bicho, refrigerante, queijo da colônia, jornal, frutas e cigarros. O armazém teve vida mais longa que a do Luis, que passou a dormir nele e um dia simplesmente não abriu as portas. Partira durante o sono. Hoje o armazém não existe mais.

Entre o prédio verde e o rosa existe um espaço que deveria ser uma rua, que levaria até a Avenida Vicente da Fontoura, porém em uma destas inexplicáveis questões político administrativas, nunca saiu do papel. Pois ali, naquele espaço vivia uma Mangueira e sob sua sombra foi enterrado meu cordão umbilical. Nenhum dos dois existe mais, o cordão virou adubo ao se decompor e a árvore foi derrubada quando suas raízes começaram a surgir dentro dos apartamentos.  Naquele projeto de rua, jogávamos bola e uma das goleiras era o espaço entre duas árvores ao fim do terreno. Elas ainda estão lá, com os troncos mais grossos e encurvados.

Parei o carro e fiquei observando, lembrando das defesas que fazia ali e de tudo mais que acontecia. Os vizinhos desciam com suas cadeiras de praia no fim da tarde e conversavam entre eles. Nunca entendi como podia surgir tanto assunto, mas eles tinham e como tinham! E a gurizada em volta. Hoje está tudo gradeado, os carros continuam estacionados ali, mas estranhamente me lembrava do espaço ser maior. Talvez esse seja um mistério, um fenômeno típico a todos que crescem. Os lugares sempre parecem maiores e mais assustadores do que realmente eram.

A frente do prédio em que morávamos era enfeitada com uma cerca de Coroa de Cristo e neste pátio meus pais plantaram, quando se casaram, um Pinheiro. É dispensável dizer que nada disso existe mais, exceto o casamento de meus genitores. Os prédios foram pintados em tonalidades de marrom que escondem como ali existia vida e cor. Rapidamente lembrei que meses atrás, meio sem querer, descobri que o apartamento em que morávamos estava a venda. Entrei no anúncio e matei um pouco da saudade dele, constatei pelas fotos que a pia de pedra que meus pais ficavam escovando para que não criasse limo e gordura é a mesma, fazendo companhia para os azulejos originais de quatro décadas!

A casa que fica ao lado do prédio onde morei está lá! Agora não faz mais divisa com a casa da dona Carmen; o terreno que ela ocupava, junto com o Pátio da Moda e o terreno do Manoel, deram lugar a um arranha céu, fora dos padrões de verticalidade da rua. Igualmente a casa dos meus amigos de infância, onde nos reuníamos para comer bergamotas nas noites de inverno ainda existe, está lá, firme e forte. A tia e a vó, já partiram, ficaram somente a gurizada a quem não vejo há algum tempo. Desculpas e mais desculpas para tentar justificar o injustificável, mas assim são os ciclos da vida. Já devo ter dito isso. São muitas recordações. Inúmeras!

O muro em que ficávamos sentados durante a noite e inicio da madrugada e que cercava o Instituto de Pesquisas Biológicas do Estado não existe mais, cedeu lugar a cercas que fazem a proteção do local.  Ali andávamos de bicicleta, jogávamos bola, fazíamos estripulias típicas das crianças do século passado. Não sei qual, entre as muitas espécies de arvores plantadas ali possuía um odor característico que lembro perfeitamente, como se o sentisse agora. E assim, lentamente fui chegando ao final de minha viagem no tempo.

Ainda resistem as casas do seu José, a oficina mecânica que o dono abria após avisar que estava chegando com sua potente DKW cinza chumbo e o posto de gasolina. Quase nada está do jeito que deixei ao partir. Tolice minha pensar que seria diferente, afinal também não sou mais aquele adolescente que saiu de lá contrariado e com esperanças de voltar brevemente. E assim entrei na João Pessoa, desliguei a chave do passado, cantarolando domingo quero te encontrar e desabafar todo meu sofrer...