Não é segredo para aqueles que me
conhecem, meu gosto pela leitura é enorme, rivaliza em grandeza com minha
necessidade de escrever. E tenho feito de forma mais consistente e diária. Para
que a mente se mantenha afiada, ela precisa estar ativa, para que a imaginação atinja
os efeitos esperados é necessário devorar publicações. Nunca fui dado aos
romances, prefiro a litura de poesia, contos, crônicas, livros de História e de
Biografias. Esta última me conquista por completo, pois através dela, do
contato com a história de outros, agregamos novas visões de vida, captamos o
conhecimento ofertado e somos capazes de receber injeções extras de inspiração
e exemplos de superação. Nunca esquecendo que uma de nossas primeiras tarefas
quando chegamos neste plano é influenciar positivamente a vida daqueles que nos
cercam e imprimir uma marca incapaz de ser apagada com o tempo. Sem isso, nada
faria sentido.
Fiquei sabendo que haveria o
lançamento do livro “O Oitavo Dia”, escrito em conjunto entre a fantástica
escritora Letícia Wierczchowski e de Nelson P. Sirotsky, que é classificado
pelo próprio desta forma – “Este não é um livro de memórias. Não é uma
biografia. Não é uma história empresarial. Não é uma obra de ficção. Não é um
romance. Não é um livro de revelações. O oitavo dia é um pouco de tudo isso”.
Prontamente me interessei pela publicação, pois além de tratar da história da
criação do Grupo RBS através dos esforços de Mauricio Sirotsky Sobrinho e de
seus sócios, compartilhava a experiência profissional de Nelson e a herança
Familiar e sua importância nessa caminhada.
Ter acesso a este volume tão
grande de fatos e lembranças espontaneamente divididos com o público me
proporcionou viajar no tempo e relembrar os anos que formei fileira no Grupo
capitaneado por Nelson, sob a matrícula 060.770 entre os séculos XX e XXI.
Minha caminhada teve inicio aos dezessete anos, mais precisamente no dia dezenove
de dezembro de mil novecentos e noventa e quatro e terminou em março de dois
mil e quatorze. Estranhamente não registrei em meu banco de memória o dia da
partida. Talvez por sempre ter dito que tive data para entrar na Empresa, mas
não sabia quando seria o dia da parada. Enfim.
Saber a origem de um sonho, como
ele começou a germinar em terreno fértil e se desenvolveu de forma tão intensa,
reforça ainda mais minha certeza de que nada é por acaso, que todas as pessoas,
de uma forma consciente ou não, estão ligadas e sim, influenciam na existência
do outro. Que bom conseguir perceber esse ensinamento enquanto ainda dispomos
de tempo para multiplicá-lo. “O Oitavo Dia”, para mim, possui essa capacidade. É
muito mais que um livro bem escrito, ele é o convite para uma reflexão, porque é
impossível não se conectar com aquelas passagens, traçar um paralelo com suas
próprias experiências.
Pessoalmente me realizei naqueles
quase vinte anos completos. Conheci como diz Renato Russo, muita gente
interessante, disposta a multiplicar conhecimento de forma espontânea e
desinteressada, parceiros que possuíam um mesmo objetivo e que se compraziam
com o crescimento dos colegas, pessoas incríveis que trouxe como uma herança
maravilhosa e imensurável e com as quais falo diariamente, mesmo depois de
tanto tempo. Os anos de RBS me proporcionaram viver amores inesquecíveis, casar
com uma colega, financiar minha casa e aprender. Aprendi muito!
Pude perceber o quanto a
existência do Grupo impactou minha vida, além do que já explanei, nele
amadureci como cidadão e através da caminhada profissional pude freqüentar a
Universidade, me graduar como Administrador de Empresas, embora os mais
desavisados acreditem que sou jornalista – fato que muito me orgulha. Conquistei
minha Especialização em Engenharia de Produção, retratando no artigo a produção
no Parque Gráfico Jayme Sirotsky e tive a oportunidade de ser Gestor de um dos
setores do Zero Hora.
Mirei o exemplo dos colegas mais
experientes e com os gestores, aprendi boas práticas profissionais, tanto com
os bons quanto com os não tão bons. Tive um privilégio enorme, porque em minha
caminhada encontrei mais profissionais do primeiro do que do segundo grupo. Neles
ainda busco a inspiração quando problemas surgem em minha nova ocupação. Não
foram poucas as vezes que me perguntei o que A, B ou C fariam naquela situação
crítica. Seguir estes exemplos é sempre garantia de bons resultados, e hoje
passados quatro anos de nossa separação, olhando com o distanciamento do dia a
dia, sou muito grato por esse ciclo. Não há como ser diferente!
Como conseqüência da leitura de
suas histórias, recordei dos primeiros dias e das gafes que um jovem de
dezessete anos poderia cometer ao entrar no mercado de trabalho. Coisas banais,
mas que foram mostrando que o mundo fora do conforto da Família é infinitamente
mais desafiador e regrado. Entre estas gafes, conto seguidamente a vez em que
me pediram para ligar para uma secretária e perguntar se o Carlos estava. Lá
foi o contínuo telefonar e sem cerimônia perguntou se o Carlos estava
disponível para assinar um cheque de pagamentos. O detalhe é que ele era um dos
Diretores e a secretária ficou indignada por um contínuo não usar o “Sr” antes
do nome próprio. Confesso que fiquei com temor dela nos primeiros tempos e
depois se transformou numa querida parceira que muito me mostrou os caminhos
dentro da Empresa.
Outra feita ocorreu um dia após a
conquista do Bi-campeonato da Libertadores da América pelo Grêmio em 1995. Como
realizava minhas tarefas externamente não vi mal em ir trabalhar com o Manto
Tricolor. Porém em uma destas jogadas mágicas e irônicas do destino, precisei
falar pessoalmente com um dos Superintendentes da Empresa. Cheguei a sua sala e a secretária não estava
presente, sem cerimônia bati na porta semi aberta e escutei um “entra”. Quando
adentrei na sala, ele me olhou bem e perguntou – “uniforme novo da Empresa?”.
Respondi que não, que aquele era um dia de exceção em que demonstrava a alegria
pela conquista esportiva. Recebi uma bela tréplica – “vocês jovens devem
realmente comemorar, isso é bonito, mas que não se torne um hábito usá-la”.
Dois fatos que ensinaram que eu
não estava isolado. Fazia parte de um conjunto e que representava uma Empresa, e
minhas atitudes de certa forma impactavam na sua imagem. Assim vão se formando
as pessoas e as criaturas. Procurei ser o melhor profissional possível, dentro
das minhas limitações e gosto de pensar que consegui, apesar de ter sido muitas
vezes intransigente na defesa daquilo que acreditava e julgava ser correto. O importante
é reconhecer as falhas e tentar honestamente pedir desculpas pelos excessos. Fiz
isso com três pessoas, dois ex-colegas e um cliente que se tornou amigo de
loucuras literárias. Reconhecer-se errado é o primeiro passo para a melhoria.
Voltando a falar sobre “O Oitavo
Dia”, ele é de uma sinceridade impressionante, com passagens realmente
comoventes. Digo sem equivoco, será uma grata surpresa para quem decidir
debruçar-se sobre ele. Para mim, o livro serviu como um gatilho, uma viagem de
redescoberta, reforçou minha visão da importância da Família e do apoio dos
Pais em nossa vida e principalmente lembrou que tudo é possível, com foco,
seriedade, ética, empatia e profissionalismo! Tenho certeza que você também
será positivamente impactado por ele.
E no final, desejo que todos
sejam arrebatados da mesma forma que fui e desejem brevemente chegar ao seu Oitavo
Dia!