quinta-feira, 25 de outubro de 2018

O Oitavo Dia



Não é segredo para aqueles que me conhecem, meu gosto pela leitura é enorme, rivaliza em grandeza com minha necessidade de escrever. E tenho feito de forma mais consistente e diária. Para que a mente se mantenha afiada, ela precisa estar ativa, para que a imaginação atinja os efeitos esperados é necessário devorar publicações. Nunca fui dado aos romances, prefiro a litura de poesia, contos, crônicas, livros de História e de Biografias. Esta última me conquista por completo, pois através dela, do contato com a história de outros, agregamos novas visões de vida, captamos o conhecimento ofertado e somos capazes de receber injeções extras de inspiração e exemplos de superação. Nunca esquecendo que uma de nossas primeiras tarefas quando chegamos neste plano é influenciar positivamente a vida daqueles que nos cercam e imprimir uma marca incapaz de ser apagada com o tempo. Sem isso, nada faria sentido.

Fiquei sabendo que haveria o lançamento do livro “O Oitavo Dia”, escrito em conjunto entre a fantástica escritora Letícia Wierczchowski e de Nelson P. Sirotsky, que é classificado pelo próprio desta forma – “Este não é um livro de memórias. Não é uma biografia. Não é uma história empresarial. Não é uma obra de ficção. Não é um romance. Não é um livro de revelações. O oitavo dia é um pouco de tudo isso”. Prontamente me interessei pela publicação, pois além de tratar da história da criação do Grupo RBS através dos esforços de Mauricio Sirotsky Sobrinho e de seus sócios, compartilhava a experiência profissional de Nelson e a herança Familiar e sua importância nessa caminhada.

Ter acesso a este volume tão grande de fatos e lembranças espontaneamente divididos com o público me proporcionou viajar no tempo e relembrar os anos que formei fileira no Grupo capitaneado por Nelson, sob a matrícula 060.770 entre os séculos XX e XXI. Minha caminhada teve inicio aos dezessete anos, mais precisamente no dia dezenove de dezembro de mil novecentos e noventa e quatro e terminou em março de dois mil e quatorze. Estranhamente não registrei em meu banco de memória o dia da partida. Talvez por sempre ter dito que tive data para entrar na Empresa, mas não sabia quando seria o dia da parada. Enfim.

Saber a origem de um sonho, como ele começou a germinar em terreno fértil e se desenvolveu de forma tão intensa, reforça ainda mais minha certeza de que nada é por acaso, que todas as pessoas, de uma forma consciente ou não, estão ligadas e sim, influenciam na existência do outro. Que bom conseguir perceber esse ensinamento enquanto ainda dispomos de tempo para multiplicá-lo. “O Oitavo Dia”, para mim, possui essa capacidade. É muito mais que um livro bem escrito, ele é o convite para uma reflexão, porque é impossível não se conectar com aquelas passagens, traçar um paralelo com suas próprias experiências.

Pessoalmente me realizei naqueles quase vinte anos completos. Conheci como diz Renato Russo, muita gente interessante, disposta a multiplicar conhecimento de forma espontânea e desinteressada, parceiros que possuíam um mesmo objetivo e que se compraziam com o crescimento dos colegas, pessoas incríveis que trouxe como uma herança maravilhosa e imensurável e com as quais falo diariamente, mesmo depois de tanto tempo. Os anos de RBS me proporcionaram viver amores inesquecíveis, casar com uma colega, financiar minha casa e aprender. Aprendi muito!

Pude perceber o quanto a existência do Grupo impactou minha vida, além do que já explanei, nele amadureci como cidadão e através da caminhada profissional pude freqüentar a Universidade, me graduar como Administrador de Empresas, embora os mais desavisados acreditem que sou jornalista – fato que muito me orgulha. Conquistei minha Especialização em Engenharia de Produção, retratando no artigo a produção no Parque Gráfico Jayme Sirotsky e tive a oportunidade de ser Gestor de um dos setores do Zero Hora.

Mirei o exemplo dos colegas mais experientes e com os gestores, aprendi boas práticas profissionais, tanto com os bons quanto com os não tão bons. Tive um privilégio enorme, porque em minha caminhada encontrei mais profissionais do primeiro do que do segundo grupo. Neles ainda busco a inspiração quando problemas surgem em minha nova ocupação. Não foram poucas as vezes que me perguntei o que A, B ou C fariam naquela situação crítica. Seguir estes exemplos é sempre garantia de bons resultados, e hoje passados quatro anos de nossa separação, olhando com o distanciamento do dia a dia, sou muito grato por esse ciclo. Não há como ser diferente!

Como conseqüência da leitura de suas histórias, recordei dos primeiros dias e das gafes que um jovem de dezessete anos poderia cometer ao entrar no mercado de trabalho. Coisas banais, mas que foram mostrando que o mundo fora do conforto da Família é infinitamente mais desafiador e regrado. Entre estas gafes, conto seguidamente a vez em que me pediram para ligar para uma secretária e perguntar se o Carlos estava. Lá foi o contínuo telefonar e sem cerimônia perguntou se o Carlos estava disponível para assinar um cheque de pagamentos. O detalhe é que ele era um dos Diretores e a secretária ficou indignada por um contínuo não usar o “Sr” antes do nome próprio. Confesso que fiquei com temor dela nos primeiros tempos e depois se transformou numa querida parceira que muito me mostrou os caminhos dentro da Empresa.

Outra feita ocorreu um dia após a conquista do Bi-campeonato da Libertadores da América pelo Grêmio em 1995. Como realizava minhas tarefas externamente não vi mal em ir trabalhar com o Manto Tricolor. Porém em uma destas jogadas mágicas e irônicas do destino, precisei falar pessoalmente com um dos Superintendentes da Empresa.  Cheguei a sua sala e a secretária não estava presente, sem cerimônia bati na porta semi aberta e escutei um “entra”. Quando adentrei na sala, ele me olhou bem e perguntou – “uniforme novo da Empresa?”. Respondi que não, que aquele era um dia de exceção em que demonstrava a alegria pela conquista esportiva. Recebi uma bela tréplica – “vocês jovens devem realmente comemorar, isso é bonito, mas que não se torne um hábito usá-la”.

Dois fatos que ensinaram que eu não estava isolado. Fazia parte de um conjunto e que representava uma Empresa, e minhas atitudes de certa forma impactavam na sua imagem. Assim vão se formando as pessoas e as criaturas. Procurei ser o melhor profissional possível, dentro das minhas limitações e gosto de pensar que consegui, apesar de ter sido muitas vezes intransigente na defesa daquilo que acreditava e julgava ser correto. O importante é reconhecer as falhas e tentar honestamente pedir desculpas pelos excessos. Fiz isso com três pessoas, dois ex-colegas e um cliente que se tornou amigo de loucuras literárias. Reconhecer-se errado é o primeiro passo para a melhoria.

Voltando a falar sobre “O Oitavo Dia”, ele é de uma sinceridade impressionante, com passagens realmente comoventes. Digo sem equivoco, será uma grata surpresa para quem decidir debruçar-se sobre ele. Para mim, o livro serviu como um gatilho, uma viagem de redescoberta, reforçou minha visão da importância da Família e do apoio dos Pais em nossa vida e principalmente lembrou que tudo é possível, com foco, seriedade, ética, empatia e profissionalismo! Tenho certeza que você também será positivamente impactado por ele.

E no final, desejo que todos sejam arrebatados da mesma forma que fui e desejem brevemente chegar ao seu Oitavo Dia!

domingo, 7 de outubro de 2018

Alice e o caminho das maravilhas


Ela havia recebido seu nome graças a história de Lewis Carroll. Não poderia ter melhor nome para ser registrada que Alice. Afinal ela possuía características encontradas na personagem que poderiam levar aos mais desavisados a acreditar que a ficção imitou a realidade. Procurava ser educada e cortês com todos, inclusive com os ruminantes bípedes que lhe encaravam pelas costas, enquanto desfilava pelas calçadas descuidadas do centro. Era impossível permanecer incólume em sua presença, ao longe se escutava o bater do salto fino do scarpin cor de vinho marcando o doce balanço enquanto seu derriére parecia lançar um provocativo “um pra ti, um pra mim, um pra ti, um pra mim” instigando a imaginação criativa de homens e mulheres.

Apesar disso, conservava inesperadamente uma ponta de introspecção fantástica. Poderia ser comparada com o mais envolvente thriller de suspense e não foram poucos os que desejaram desvendar seus mistérios e climas, porém era a Esfinge moderna, não concedia espaço para tentativas e nem para meio termos. O incauto representante masculino precisava se garantir, deixá-la livre, com espaço e vontade de retornar. Direta, deixava claro que entrara várias vezes na fila da confiança enquanto se preparava para descer ao mundo dos mortais. Havia decidido deixar os boçais em um canto esquecido da existência.

Invariavelmente ao chegar em casa, executava dois movimentos quase simultâneos, atirava o molho de chaves sobre a mesa e a bolsa no sofá vermelho, herança da amiga que tinha partido para a Europa. Tentaria a sorte primeiro na Irlanda, se não tivesse sucesso Escócia e Espanha estavam em seu radar. Ela já havia chamado Alice, mais de uma dezena de vezes para fazer o mesmo, largar tudo e aterrissar de corpo e alma em algum aeroporto do Velho Mundo. Tinha esse plano, mas apenas para turismo. Desejava conhecer a região de Champagne, os vinhedos franceses, as oliveiras gregas e os Alpes suíços. Mergulhar em Paris, almoçar em Berlin, dormir em Londres e percorrer Madrid. Sonhos e mais sonhos. Enquanto não aconteciam, viajava na internet conhecendo um pouco mais de seus futuros destinos.

 Alice era descontroladamente curiosa, nada lhe aparecia sem que esmiuçasse por completo a origem, a composição e serventia, afinal, conhecimento nunca é demais e pode ser uma importante desculpa para iniciar uma conversa ou uma aproximação e um flerte na sala de espera do dentista, na fila do pão e até mesmo para dividir os impressionantes resultados obtidos com a utilização de alvejantes sem cloro e a diferença que o alecrim proporciona num molho. Sim, é uma mulher fascinante e interessante, capaz de surpreender a cada passo.

O ritual pós lançamento duplo consistia em alimentar seus dois bichanos – Cheshire e Cruel – preparar a janta e impregnar pelo apartamento o perfume de lavanda que exalava de seu corpo após a ducha. Saía enrolada em sua toalha branca preferia, ligava o som e de forma eclética entre o samba e o pop rock internacional, escolhia quem lhe embalaria durante a viagem virtual. O escocês rouco e doido foi o escolhido da noite e começou cantando Sailing, enquanto ela ia clicando e pulando de página em página. Sem explicações lógicas, em mais um dogma da computação, iniciou sua pesquisa sobre a Brazilian Painted Lady e chegou ali, uma página de sexshop. Nunca lhe chamara a atenção este segmento do entretenimento adulto, mesmo passando diariamente na frente de um para o serviço.

Discreto, apesar da vitrine apresentar um manequim feminino com uma camisola bem provocante e uma algema no pulso, ela percebia que as pessoas paravam em frente a porta, olhavam rapidamente para os lados e entravam apressadas, como se aquele ritual as fizesse invisíveis para algum conhecido que estivesse furtivamente o observando. Achava engraçada aquela reação e apesar da curiosidade, nunca teve vontade de conhecer o que tinha lá dentro.

Encarou aquela como uma oportunidade excelente de visitar o mundo inexplorado do comércio de brinquedos e fantasias adultas, sem se expor. Lembrou do que faziam na rua, olhou para os lados. Primeiro o esquerdo e depois para direito, onde encontrou Cruel lhe observando com olhos que deixavam claro, ele sabia o que ela faria. Engoliu a seco, olhou novamente para a tela do PC e começou a percorrer os caminhos virtuais da loja.

Encontrou de tudo.  Livros, revistas, lingeries, dados, algemas, máscaras, chicotes, fantasias de enfermeira, professora, mulher gato, objetos que reproduziam partes do corpo humano. Achava tudo engraçado e até ingênuo. Nada demais até sua expressão mudar. Franziu a testa, olhou mais de perto, recuou, colocou a mão esquerda no queixo e se dedicou a explorar aquele item. As bolinhas eróticas.

Elas prometiam o nirvana, ganhos capazes de causar inveja aos investidores financeiros, tornar as promessas políticas em meros contos da carochinha, praticamente um reclame de prazer garantido ou seu dinheiro de volta. Bolhinhas que explodem e exalam perfume e gostos variados, de morango silvestre a caipirinha litorânea, que lubrificam, que esquentam e esfriam, vibratórias, que podem explorar o corpo dos amantes ou serem escondidas para aumentar o clímax do encontro carnal. Ruborizou ao ler os comentários de quem já havia usado o produto e recomendava aquela viagem inesquecível ao mundo do prazer.

Percebeu que estava na hora de ir dormir, colocar o corpo para relaxar e tentar frear o pensamento que já viajara até Marte e retornara mais intenso e louco. Deitou, não sem antes chamar Adriana no aplicativo de mensagens. Eram amigas desde a época de colégio, portanto a intimidade entre elas permitia que dissessem e fizessem tudo juntas. Não poderia se entregar a Morfeu sem antes dividir sua descoberta e as reações percebidas. A amiga escutou o áudio que enviara, contanto com detalhes as incursões noturnas.

Adriana lhe disse que estava perdendo tempo, que devia se permitir experimentar alguma novidade daquele mix de possibilidades e isso era pra ontem! Uma mulher que conhece a reação de seu corpo é dona de seu destino Alice! Não perde tempo! Se tu não for amanhã eu te arrasto pelos cabelos pra dentro da sexshop, ta ouvindo? Compro o que tiver que comprar e vamos encontrar a felicidade!

Adormeceu e sonhou. Uma banheira cheia daquelas esferas, misturadas, sem que ela soubesse o que cada uma lhe proporcionaria. Despiu a lingerie vermelha e entrou. Um pé após o outro, se apoiou nas bordas e deixou o corpo mergulhar e receber o efeito dos óleos em seu corpo. Ofegante fechava os olhos a cada nova explosão, estava entregue ao momento e estremeceu ao perceber que dois lábios lhe beijavam o pescoço e uma língua atrevida percorria a face, fazendo abrir os olhos. Era Cheshire a lembrar que a madrugada passara, o horário de começar um novo dia chegara.

Levantou, tomou banho e depois o balde de café, prendeu os cabelos, passou o batom vermelho nos lábios, calçou scarpin amarelos, meias e saia pretas e saiu apressada. Quase nove horas, desceu duas paradas antes de seu destino, caminhou uma dúzia de passos, parou, olhou para os lados, ninguém lhe observava entrou rápido, invisível aos olhares insidiosos e se atirou para o caminho da redenção.

Réu Confesso


“O amor em tempos de cólera”, obra do genial Gabriel Garcia Márquez, relata a história real de seus pais, o telegrafista, violinista e poeta Florentino Ariza por Fermina Daza. Porém como em toda boa e surpreendente história de amor, o pai da moça, tentou impedir o casamento, enviando a filha ao interior numa viagem de um ano. Como manter viva a chama do amor? Florentino, com a ajuda de amigos telegrafistas criou uma rede de comunicação que alcançava a amada, onde ela estivesse. Impensável um esforço igual nos dias de hoje, em que as relações se tornam breves. Eu mesmo, vil escritor, estou me tornando um ponto fora dessa curva, quando ultrapasso uma década de convivência conjugal, entre altos e baixos, atritos e convivências pacíficas.

Chegar até aqui foi possível graças ao que aprendi percorrendo a “Route Relacionamentos” com minhas primeiras companheiras; cada uma delas ajudou, com paciência e explosões a moldar quem sou hoje. Entre tantos ensinamentos, um dos mais notáveis foi o de não expor a vida do casal para quem fosse. Por este motivo, preciso confessar, me tornar um réu confesso que se surpreende quando presencia casais se declarando de forma efusiva nas redes sociais.

Compreenderia, entenderia e me emocionaria se estas declarações fossem feitas em tempos de guerra, quando os casais se despedem nos portões desgastados de sítios e fazendas, embaixo de alguma árvore que serviu de testemunha para o nascimento de seu amor ou ainda nas portas rústicas que presenciariam o último encontro daquelas almas destinadas a incerteza do amanhã, mas como me acostumar com a banalidade que se transformou o amor? Por mais esforço que faça, não obtenho sucesso.

Quando me deparo com casais a dividir, com uma grande platéia de conhecidos e desconhecidos os seus momentos banais, legendados com as declarações mais respeitosas e simples de posse, vejo que algo não evoluiu na caminhada do homo sapiens. Os clichês sofrem apenas diferenças com a posição dos elementos – eu e meu marido, minha esposa e eu, minha amada companheira, eu e meu eterno amor, para sempre namorados e uma enxurrada de variações e declarações que surgem do mesmo princípio. Deixar claro, todos precisam saber, que ali se apresenta uma pessoa comprometida e devotada. Perdoem minha frieza e incapacidade empática, mas ao invés de sentir uma ponta de inveja destes descobridores do Éden, como todo reles mortal deveria, sou tomado de uma onda de pena.

Compreendo dentro desta minha lógica humanista e difusa, que tais declarações são um grito desesperado de auto-afirmação, uma necessidade quase infantil e urgente de marcar território. Não basta mais deixar a calcinha pendurada no registro do chuveiro, a escova de dente no armário ou uma troca de roupas no roupeiro, estes sinais não são visíveis a distância. É necessário algo mais contundente, deixar claro aos olhos desavisados e sedentos de aventuras e paixões furtivas que aquele ser humano, dono de um CPF e capacidade mental está amarrado para todo o sempre ou fazendo uma analogia mais grosseira, que aquele pedaço de carne ambulante possui um (a) dono (a).

A cereja do bolo, o grande prêmio concedido a quem presencia tal fenômeno é ler a enxurrada de comentários favoráveis e incentivadores deste comportamento. Quando não existe crise, ela é criada por um gabinete instaurado dentro da mente criativa do declarante. Não foram poucas as vezes que li digitalmente textos bíblicos e barracos Homéricos, oriundos de simples comentários ou curtida de foto ou postagem. Meus olhos até hoje não se recuperaram por terem lido uma destas obras primas, em que a esposa criticava publicamente o fato de mulheres comentarem as publicações de seu companheiro, em um flagrante desrespeito a individualidade do parceiro.

Parece-me que a humanidade vive um momento sem volta, um retorno a fase da imaturidade, independente do tempo cronológico que se tenha na certidão de nascimento. A vida se torna menos surpreendente, pelo menos para mim. Não quero acreditar que existam irmãos que pensem desta forma. Acaso imaginam que a simples identificação civil de marido ou esposa, os torne imunes a traições e desilusões amorosas. 

Nestas horas sou impelido a buscar em meus arquivos mentais exemplos que desmistifiquem tais comportamentos. Recordo rapidamente de dois. O primeiro é de um casal de colegas que declaravam seus amores infinitos a seus respectivos cônjuges para quem desejasse ou não saber. Acreditava neles até o dia que os flagrei em beijos e abraços em uma rua pouco movimentada próxima ao trabalho, independente disso, continuaram firmes e fortes com seus relacionamentos nas redes sociais, causando inveja até nestes neófitos casais de duas semanas.

O outro caso é o de um casal que se mostrava exageradamente apaixonado. A esposa declarava a todos o quanto ele a fazia feliz, que antes dele sua vida era vazia e sem graça, um marasmo sem fim e por ai seguia em um desfilar de frases de efeito. Eis que o destino, este mimado brincalhão a presenteou como uma inesperada viuvez. Declarações de desespero substituíram as anteriores, a vida se tornara fria, sem sentido, o seu amor e real motivo de respirar não estava mais com ela. Não lhe aqueceria nas noites frias e tão pouco compraria o pão para o café da manhã. Cenário desolador que durou dois meses, quando encontrou um novo companheiro e o bombardeio de declarações de eterno amor ressurgiram em sua caminhada.

Não existe certo e errado nas coisas do coração, algum sábio já deve ter dito isso, ainda mais se ele leu o Soneto da Fidelidade de Vinicius de Moraes – “Eu possa lhe dizer do amor (que tive); Que não seja imortal, posto que é chama; Mas que seja infinito enquanto dure”. Independente, fico com o pensamento de minha bisavó, viúva antes dos quarenta anos que afirmava – “não se engane meu filho, viúvo é aquele que morre”.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Sempre há tempo


Os primeiros raios de sol rompiam o horizonte e encontravam como destino o canto de seu rosto. Era o despertador natural seguido do piar agudo e triste de uma ave que ainda não distinguira qual era. Olhou para o teto e observou o ventilador velho que cumpria bravamente seu papel, apesar de lançar o bafo quente do quarto fechado. A mania adquirida com uma antiga namorada lhe fez moradia, claro que por motivos diferentes. Ela não conseguia dormir com nenhuma claridade, ele apenas acreditava que no quarto fechado só entrariam boas vibrações, recordações e inspirações.

Olhou o relógio no pulso, marcava seis horas. Precisou confirmar com o do celular, afinal, nem sempre é possível confiar no tempo, o inclemente e severo mestre. A preocupação com o passar dos ponteiros, horas, dias, meses e anos era uma constante. Por vezes se pegava a pensar se todo aquele estilo de vida não era uma forma de provocar essa contagem instituída e seguida por todos. Lembrou de um poema que decorara por completo. O único em sua caminhada; riu o sorriso dos ingênuos e o recitou – “O tempo perguntou ao tempo, quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo, que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem”.

Aproveitou que o sinal da internet estava cheio e antes mesmo de colocar os pés no chão acessou a rede social. Buscou atualizações e interações com seu perfil. Um colega curtiu seu comentário a respeito do transito caótico da cidade e da necessidade dos motoristas mais lentos trafegarem pela pista da esquerda, num notório esquecimento do que se aprende nas aulas de trânsito, veículos lentos devem se deslocar pelas faixas da direita. Infrutífero pensamento. Cinco amigos apreciaram a foto em que imortalizou uma casinha açoriana, com entradas pintadas de um azul celeste e parede branca. Passou a olhar a sua linha de tempo e encontrou piadas, frases sarcásticas, pensamentos tolos, músicas que atestavam o gosto musical duvidoso de alguns e o refinamento de outros. Seguiu sua busca até se deparar com uma postagem em especial. 

Fazia tempo que sua dona não aparecia nas buscas e ali estava ela a dar um bom dia especial. Não era nenhuma mensagem cifrada, nem escrita em letra bonita ou em papel que o valha. Simples, como devem ser os pensamentos que tocam uma alma – “Há quem fique contigo quando sobra tempo e há quem arranje tempo para ficar contigo. Aprende a diferença”. Tempo, tempo, oh tempo, novamente tu aqui! Recordou que a amara em segredo, baixinho, assim como ensinara Quintana, sem fazer alardes, afugentar os passarinhos e provocar tempestades tropicais.

Resolveu entrar no perfil e encontrou pensamentos, fotos, textos que reacenderam a fagulha adormecida. Sentiu a nostalgia dos amantes que não viveram e apenas se prometeram e juraram o impossível. Sentou na cama, tirou primeiro o pé direito e depois o esquerdo de cima do colchão, mas os pousou no solo na ordem inversa. Passou a mão na cabeça e tentou acomodar os cabelos com a mão esquerda enquanto segurava o celular com a direita. Continuou sua expedição virtual e descobriu uma publicação de poucos dias. Uma foto que registrava um grupo de adolescentes tomados da esperança e da ilusão tão própria daquela idade, o ano era 1993. Constatou dois fatos, já era bela no auge de seus quatorze anos e que aquela foi uma época pouco valorizada, pois a legenda era uma confissão – “E hoje olhando dá uma baita saudade”.

Deixou o aparelho de lado, levantou e foi até o som. Apertou o play e Malika Ayane trouxe vida a casa com sua “E se poi”; se tivesse escolhido, não acertaria em trilha melhor para sua reflexão matutina. Retornou a foto, imaginou o que ela fazia naquela idade, quais as dúvidas que a acompanhavam. Talvez já houvesse começado a planejar a festa de quinze anos ou ainda mais, decidido que ela era dispensável. Estaria enfrentando dificuldades nos estudos? Alguma matéria mais complicada a deixaria insegura de superar aquela série? Haveria entre aqueles jovens rapazes o foco de seu afeto?  Lembrou então que ele tinha dezessete à época, corria atrás de emprego, difícil de conseguir enquanto não recebesse a dispensa do Exército. Escutava Legião Urbana e se via como o Eduardo da música em busca de um lugar ao sol enquanto não encontrava sua cara metade.

Olhou para o relógio que portava no pulso direito, já era sete horas.  O desejo de revê-la tomou conta de seus pensamentos. Não tinha o telefone guardado na agenda do celular e tão pouco em sua memória, mas sabia que o havia anotado numa pequena agenda, perdida em algum canto da casa. Abriu a janela rispidamente, o sol invadiu com carga ligeira o quarto e ele iniciou a busca pelos sagrados números. Seria infinitamente mais fácil enviar uma mensagem com um oi ou até mesmo pedir novamente os nove dígitos. Porém ele queria surpreender da mesma forma que fora surpreendido ao ganhar uma barra de Diamante Negro entregue em uma tarde de outubro.

Depois de uma procura intensa os encontrou. Ali estavam, em sequência, o que buscava. Seria ainda dela o número? Lançou-os no aparelho transformando os nove dígitos na senha para o recomeço. Nova consulta ao marcador de tempo. Oito horas. Completou a ligação, um toque, dois toques, três toques – já decidira, desligaria no quinto toque – quatro toques e quando foi iniciar o derradeiro, escutou o alô.

Balbuciou um bom dia e engatou a série de questionamentos cordiais – Tudo bem? Como está? Atrapalho? Escutou mais do que esperava – Jamais me atrapalha, estou super bem e tu não vai acreditar, hoje pela manhã acordei pensando em ti. Sempre desconfiei que te importava muito comigo e que não percebia o quanto torcia pelo meu sucesso e nessa hora me dei por conta que fazia muito tempo que não nos falávamos.  E agora a tua ligação. Sinais do universo, hein? – Concordou com ela e antes que dissesse algo, ela emendou – “Já sei, vamos jantar hoje? Passa aqui em casa às oito horas, anota o endereço, porque sei que já deve ter perdido ele, temos que recuperar esse tempo perdido”. Anotou e se despediram com um breve até logo.

“O tempo perguntou ao tempo...” novamente recitou o poeminha tão verdadeiro.