Pensei em alguns títulos para esta crônica, porém nenhum
soou melhor que este – “Ela não pediu nada!” – e durante as próximas linhas ele
será repetido tal um mantra, talvez assim, uma semente de consciência possa ser
plantada em alguma mente atolada no lodo da poluição e do desrespeito humano.
Somente nesta terça-feira, soube do caso ocorrido na
véspera do feriado da Proclamação da República em uma cidade no interior do Rio
Grande do Sul, em que uma menina de 16 anos em uma atitude desesperada ceifou a
própria vida por ter fotos íntimas suas divulgadas na internet. Porém este não
era o destino que ela e os pais desejavam, o sonho da garota era cursar uma
faculdade, realizar-se, ser alguém feliz.
O responsável presumidamente é o ex-namorado para quem
ela havia encaminhado as imagens. “Ela não pediu nada” apenas confiou que
aquele rapaz a quem amara, beijara, fizera planos seria incapaz de um ato tão
torpe, ledo engano. Caso não tenha sido ele o divulgador, não teve o cuidado
com as imagens, pois elas caíram na rede.
Porém sempre haverá algum defensor dos bons costumes e da
família que erguera bandeira dizendo que a vítima “procurou”, afinal quem
mandou encaminhar fotos íntimas? Gostaria de entender o que passa na cabeça e
alguém que tenta transformar a vítima em criminoso, qual o Q.I. que ela possui
ou principalmente em qual dimensão ela transita.
Fico atônito quando me defronto com este tipo de situação
em pleno século XXI, o ser humano evolui tanto na área da ciência, é capaz de
encontrar a molécula de Deus, subir as estrelas, pisar na lua e eticamente
continua totalmente atrasado. A definição do que vem ser ética é perfeitamente
traduzida pelo Professor e Filósofo Mário Sérgio Cortella:
Ética é o conjunto de valores e princípios que usamos para
responder a três grandes questões da vida: quero? devo? posso? Nem tudo
que eu quero eu posso; nem tudo que eu posso eu devo; e nem tudo que eu devo eu
quero. Você tem paz de espírito quando aquilo que você quer é ao mesmo tempo o
que você pode e o que você deve.
O mais preocupante é que atitudes iguais a esta, estão tornando-se cada vez mais recorrentes, talvez impelidos pela sensação de impunidade ou a falta de empatia pelo próximo. Não importa o motivo e sim a necessidade da descoberta da moral, com a qual Cortella traça um paralelo junto a ética, onde ética é o conjunto de princípios e valores de uma pessoa que serve para orientar as suas condutas. Já moral é a prática de suas condutas éticas. Logo, ética e moral não são a mesma coisa como muitos pensam ou interpretam, mas estão conectadas. Moral é a prática de uma ética, concepção ética é o princípio e moral é a prática. Portanto, eu tenho um princípio ético: não pegar o que não me pertence. Meu comportamento Moral é se eu roubo ou não.
Situação tão violenta é igualmente encontrada quando uma
mulher é estuprada. “Ela não pediu nada”, não pediu para ser agredida, seu corpo
violado, a alma destroçada e seus sonhos arruinados. Não! Ela não saiu de cedo
de casa ou tarde da faculdade pedindo para algum doente tratar-lhe como um
pedaço de carne pendurado no açougue. Causa-me espanto como os homens são
incapazes de escutar um não, como reagem de forma desproporcional a negativa.
Alguns homens, perdoem o termo, esquecem que só devemos adentrar em algum local se convidados. Nestes
casos também surgem os defensores dos bons costumes que dirão que uma mulher freqüentar
determinado local em determinado horário ou se andar com roupas sumárias está
procurando! NÃO, “ela não pediu nada!”Relacionei-me por um tempo com uma mulher que havia
sofrido este trauma e garanto que o estrago impetrado às mulheres não possui
paralelo Caso não haja um suporte emocional correto, elas acabam muitas vezes,
em função da sociedade machista e hipócrita creditando a culpa a si.
Isto
precisa mudar urgentemente, não é mais possível ser conivente com
comportamentos doentios, prepotentes, imorais e infantis de homens, ou melhor,
garotos sem o menor escrúpulo.
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