Era uma quente tarde de primavera
em Porto Alegre e no distante Pernambuco, entravam em campo duas agremiações
que lutavam desesperadamente por um futuro melhor em 2006. Grêmio e Náutico
dariam inicio às 15 horas, no Estádio dos Aflitos uma partida épica
testemunhada in loco por mais de 29 mil pessoas e transmitida para boa parte do
País. Muito mais que o título de Campeão Brasileiro, estava em jogo a já
combalida saúde financeira do Tricolor para o próximo ano.
Naquele ano o acesso para a Série
A era disputado em um quadrangular de turno e returno onde todos jogavam contra
todos e os dois clubes com maior pontuação obteriam as vagas. Completavam este grupo o Santa Cruz, também
de Pernambuco e a Portuguesa Paulista. Para o Grêmio bastava um empate para
carimbar o passaporte, vitória a certeza do título.
O que ocorreu a partir do apito
inicial do árbitro Djalma Beltrami (anos depois envolvido em outro escândalo,
este policial), entra para a História do Futebol Mundial com a alcunha de Batalha
dos Aflitos. Nunca se presenciou nada parecido! O time da casa empurrado por sua
torcida pressionava o Grêmio até que aos 33 minutos do primeiro tempo, há o
primeiro pênalti marcado para os donos da casa. O lateral Bruno Carvalho foi
escalado para cobrar a penalidade e o resultado é a bola beijar a trave da meta
defendida por Galatto.
Os primeiros 45 minutos de jogo
tinham chegado ao fim. Restava esperar mais 15 minutos de intervalo e os
restantes 45 minutos para voltar a respirar aliviado, tirar a tensão que
rondava todos os gremistas, porém o jogo guardava muitas emoções. Enquanto o
Santa Cruz vencia seu jogo contra a Portuguesa a tensão aumentava nos Aflitos.
Aos 30 minutos do segundo tempo, o lateral esquerdo Escalona coloca a mão na
bola, como já tinha cartão amarelo, recebe o segundo e é expulso. O Náutico
cresce no jogo.
Logo aos 32 minutos, Galatto
derruba o atacante Miltinho, mas o árbitro marca simulação e amarela o jogador
pernambucano. A pressão aumentava e aos 35 minutos ocorreu o lance que deixou
em suspensão toda a República Rio-grandense e mudou a história de jogadores,
treinadores, torcedores e de Djalma.
Em um chute de fora da área a
bola bate no braço do volante Nunes, e o atrapalhado arbitro marca nova
penalidade. Um gol do Náutico, com menos de 10 minutos restantes de jogo e com
o Grêmio com um jogador a menos praticamente selaria o destino Tricolor. O ano
de 2006 seria mais um de peregrinação pelo País, jogando contra times de pouca
ou nenhuma expressão em recantos nunca vistos.
O que se presenciou em campo foi
a maior demonstração de indignação, vergonha na cara e hombridade dos atletas
gremistas. O lateral direito Patrício veio correndo em direção ao árbitro e sem
conseguir para em tempo deu uma peitada típica de MMA em Beltrami. Cartão
vermelho! Nunes ao tentar segurar Beltrami pela camisa também é avermelhado. O
Grêmio estava com três atletas a menos e com um pênalti contra.
Onze minutos de paralisação e
tumulto generalizado depois, Beltrami tentava colocar a bola na posição para
cobrança e numa atitude de indignação o zagueiro Domingos dá um tapa na mão do juiz.
Resultado, a quarta expulsão Tricolor. Agora o Grêmio tinha um quadro de terror
em sua frente, pênalti contra e quatro jogadores a menos e com o jogo do Santa
Cruz finalizado. Por sinal, o outro clube Pernambucano já dava volta Olímpica
comemorando o título nacional.
A responsabilidade de converter a
penalidade sobrou para o lateral Ademar, que nunca havia cobrado um tiro livre
na carreira. Os jogadores do Náutico em claro sinal de instabilidade emocional
se isentaram da cobrança. Sob as traves estava o único atleta que havia
permanecido alheio a toda confusão. Formado nas categorias de base do clube, o
goleiro Galatto sabia que era o momento de brilhar.
Enquanto o adversário arrumava a
bola na marca de cal, o arqueiro chega perto dele e ao invés de provocá-lo, ele
olha para o lateral e diz: “Deus te abençoe”. Quem poderia esperar uma atitude
destas em meio a batalha campal que a partida havia se transformado? O
resultado é conhecido o pênalti foi cobrado no meio do gol e com a perna direita
Galatto faz o impossível, cala o Estádio.
Ainda faltavam 10 minutos e mais
os acréscimos para garantir a vaga, seria uma tarefa árdua, afinal nunca um
time com quatro jogadores a menos havia resistido qualquer investida do time
adversário. Atônitos com o que ocorria dentro de campo, os atletas do Náutico
não perceberam a saída rápida de bola pelo lado esquerdo de ataque. O atacante
Anderson parte pra cima do zagueiro Batata que o derruba. Expulsão do defensor.
Marcelo Costa aproveitando a
perplexidade que havia definitivamente se instalado nos jogadores pernambucanos
cobrou rapidamente a falta entregando-a para Anderson que invade em diagonal a
área adversária e ao passar por dois marcadores toca na saída do goleiro
adversário. O inacreditável como narrou um profissional de rádio ocorria. O
Grêmio abrira o marcador! Nenhuma imagem reflete tão bem aquele espírito do que
a de Anderson correndo em direção à torcida adversária, batendo no peito e
gritando em sou foda, eu sou foda, enquanto era presenteado com pilhas e
rádios.
A pressão continuou e com 114
minutos de partida o atrapalhado Beltrami encerra a partida. O Grêmio voltava a
Série A com o Título Nacional, com o reconhecimento da grandeza da conquista e
mostrando que o impossível é apenas uma questão de crença. Naquela tarde, 14 atletas gravaram seus nomes
nas páginas históricas do Tricolor – Galatto; Patrício, Domingos, Pereira e
Escalona; Nunes, Sandro Goiano, Marcelo Costa e Marcel (Anderson); Ricardinho
(Lucas Leiva) e Lipatin (Marcelo Oliveira).
Recordo perfeitamente que assisti
ao jogo no sofá da sala e vestia um dos Mantos da coleção – a camisa Tricolor
de 2003, que a persiana da janela estava quebrando o sol com os vidros abertos
sem minimizar o calor. Minha esposa da época, colorada fanática, prevendo meu
estado de humor passou todo o jogo no Office room secando silenciosamente,
direcionando olhares longos para a tela da TV, com aquele sorriso sarcástico
que somente os colorados sabem executar, enquanto escutava meus xingamentos
direcionados aos jogadores quando surgiam falhas ou desatenção e sobretudo ao ilustríssimo
Djalma.
Comemoração lá e cá, Porto Alegre fervilhava naquele já final de tarde
e eu ainda tentava compreender o que tinha presenciado. Talvez por tudo isso, o
dia 26 de Novembro é lembrado como o “Dia da Garra Gremista”, por uma decisão
do Conselho Deliberativo do Clube.
Afinal, quem viu, viu, quem não
viu, jamais verá!
Imagens retiradas da Internet




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