sábado, 14 de abril de 2012

Saudade


A dor que dói mais - Martha Medeiros

Em alguma outra vida devemos ter feito algo de muito grave para sentirmos tanta saudade. Trancar o dedo um uma porta dói, bater com o queixo no chão  dói, torcer o tornozelo dói . Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder  a língua, cólica dói, cárie e pedra no rim também dói, mas o que mais dói é  a saudade.

Saudade de um irmão que mora longe, saudade de uma cachoeira da  infância, saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais, saudade do  amigo imaginário que nunca existiu, saudade de uma cidade, saudade...Da  gente mesmo, o tempo não perdoa.

Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama, saudade da pele, do  cheiro, dos beijos, saudade da presença e até da ausência consentida. Você  pode ficar na sala e ela no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você  poderia ir para o Dentista e ela para Faculdade, mas sabiam-se onde. Você  podia ficar o dia sem vê-la, ela o dia sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã.

Com tudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor, no outro sobra uma  saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é basicamente não saber. Não saber mais se ela continua fungando num  ambiente mais frio, não saber se ele continua sem fazer a barba por causa  daquela alergia, se aprendeu a entrar na internet e encontrar a página da  Diário Oficial, se aprendeu a estacionar entre dois carros, se continua  preferindo Skol ou se continua sorrindo com aqueles olhinhos abertos. Será  que ela continua cantando tão bem e se continua adorando Mc´Donnalds? Será  que ele continua amando os livros e se continua gostando de dar longas  caminhadas? Será que ela continua a chorar até nas comédias? Será que ele  continua lendo os livros que já leu um tempo atrás?

Saudade, é não saber mesmo. Não saber o que fazer com os dias que ficaram  mais compridos. Não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o  pensamento. Não saber como ferir as lágrimas diante de uma música. Não saber  como vencer a dor de um silencio que nada preenche. Saudade é não querer  saber se ela está com outro e ao mesmo tempo querer. É não querer saber se  ele está feliz e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso.

É não  querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca  mais saber de quem se ama e ainda assim doer.

Saudade é isso que senti enquanto estive escrevendo, e o que você  provavelmente está sentindo agora depois que acabou de ler.
saudade... sete letras que choram....


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