Henry nunca perdera nada de importante em sua vida. Talvez algum livro em uma de suas constantes mudanças ou peças de louça. Em sua visão de mundo, só considerava seu o que comprara com o suor de seu rosto; e por este motivo fica tão impressionado quando escutava alguém dizer que perdera a amizade de uma pessoa.
Os sentimentos, com raras exceções não são comprados. Eles são uma conquista de meses, anos e táticas mais ou menos arriscadas de aproximação e merecimento. Eles são outorgados de forma espontânea, sem nenhum tipo de cobrança, e tão pouco aviso formal. Quando menos se espera, percebe-se a responsabilidade assumida frente a quem nos julga merecedores de tal distinção.
Impressionava o fato de Henry saber e principalmente ser consciente no escroque em que havia se transformado, é como ele estivesse de alguma forma provocando a si mesmo, desafiando a si mesmo em descer um pouco mais fundo a cada dia. Nessa luta auto-infligida, lembrou de uma antiga história contada pelo mestre Takashi, em uma de suas sessões de judô.
Lembre-se que dentro de cada um, vivem dois cães em eterna luta. Um simboliza o bem, as boas vibrações e todas as virtudes que possui, o outro é exatamente o contrário, é a antítese do primeiro. O aprendiz não refletiu no ensinamento e perguntou qual dos dois cães vencia a luta, a resposta desconcertante na época, até hoje possui o mesmo efeito – Vence caro aluno, aquele a quem decidires alimentar mais!
Henry suspirou fundo e lembrou, devia urgentemente parar de alimentar o segundo cão e voltar seus cuidados ao parceiro de outros tempos. O mal já estava feito, vergonha sentia, mas só podia observar e colher os ensinamentos escancarados. Estava na hora de crescer e voltar a ser adulto.
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