sexta-feira, 15 de abril de 2011

A Sutil Diferença

Noite passada estava escutando a tradução do poema Filtro Solar, escrito por Tim Cox e Nigel Swanston, narrado brilhantemente pela inconfundível voz de Pedro Bial e uma parte dele me chamou a atenção – “aceite certas verdades inescapáveis: os preços vão subir. Os políticos vão saracotear. Você, também vai envelhecer. E quando isso acontecer, você vai fantasiar que quando era jovem, os preços eram razoáveis, os políticos eram decentes, e as crianças respeitavam os mais velhos”.
Minha infância e adolescência foram vividas em um País que lutava ferozmente contra o dragão da inflação, portanto não existiam preços razoáveis naquela época e os políticos continuam saracoteando cada vez mais (salvo exceções), portanto não poderei fantasiar sobre eles, mas a questão do respeito das crianças, esta é diferente.
Acredito que não há necessidade de ministrar uma aula de História para lembrar que durante 21 anos o Brasil viveu sob um regime militar, nostalgicamente imensurável para alguns e de uma aversão bíblica a outros, explicação mais do que plausível para que as pessoas se policiassem. A educação nas escolas era mais rígida, o controle do Estado e o gerenciamento da Igreja nas famílias Cristãs eram uma constante nos lares espalhados pelo território nacional. O surgimento do Movimento Diretas Já quebrou este paradigma, aliado ao fato dos militares desde o governo Geisel acenarem com o processo de abertura, inclusive, com o retorno de políticos, artistas e intelectuais enviados ao exílio.
E ao lembrar como éramos naqueles anos juvenis, realizei uma comparação com os jovens de agora. Conclui que existe um hiato comportamental enorme entre eles. Está havendo um equivoco enorme, porque, confunde-se sistematicamente liberdade com libertinagem. Liberdade é um substantivo feminino, que expressa à faculdade de cada um decidir ou agir segundo a própria determinação, ou ainda, o estado ou condição do homem livre; enquanto o adjetivo libertinagem remete aquele que não se prende às convenções sociais ou da moral, especialmente em relação ao comportamento sexual.
Meu ensino fundamental foi em um Colégio de padres. As turmas eram mistas e no aflorar da adolescência, resolvi convidar uma colega para matar aula, falta grave para os padrões dos religiosos, que se transformou em gravíssima ao levá-la para um canto bem escondido do ginásio esportivo. Lógico que a lei de Murphy entrou em ação e fomos descobertos por um dos funcionários do Colégio. O Morcegão – era assim que o chamávamos – nos pegou pelos braços e sem esboço de reação ou reclamação fomos conduzidos a sala da Coordenação, onde recebemos um “pito” de mais de meia hora. Os colegas da turma me acharam o “tal”, matar a aula e ainda por cima levar uma das meninas mais bonitas junto era o auge para nós, mesmo que nossa infantilidade não permitisse que nada acontecesse a não ser viajar nas bobagens adolescentes, porém a chamada de atenção por parte do Coordenador marcou indelevelmente. Ficou latente que tinha ultrapassado os limites de minha liberdade dentro daquela sociedade e que não seria mais permitida tal atitude.
Nestes dias, me dirigindo para o trabalho, passei por um casal de estudantes que se enroscavam com línguas, braços e pernas na parada de ônibus frente à porta de sua escola. Não se importavam com as outras pessoas que dividiam aquele espaço público com eles, azar se haviam pessoas com idade para serem seus avós ao lado, se pais conduziam crianças pequenas para a creche antes de começarem a trabalhar. Parecia que estavam protegidos por alguma espécie de campo que os tornava invisíveis ou ainda, bem resguardados pelas paredes de um quarto. Creio que eles deviam ter a mesma idade que eu possuía quando fui pego em flagrante delito.
Sempre que me deparo com situações semelhantes as que vivi, teço um comparativo, e naquela noite o fiz vendo da janela de meu apartamento o mesmo ginásio de décadas atrás e imaginei a fisionomia estarrecida que o saudoso Morcegão faria se tivesse nos pego em situação semelhante ao casal da parada. Creio que minha foto estaria até hoje no saguão do colégio com a legenda de anti-Cristo, nossos pais seriam chamados e as conseqüências daquele ato, entre outras, seria um valente castigo e possível expulsão, que naquela época soava como convite para deixar a comunidade escolar. Enfim, hoje, situações como a dos jovens são mais constantes do que podemos conceber. Os casos de vídeos postados na internet com adolescentes mantendo relação sexual em sala de aula ou em banheiros de escolas se multiplicam em uma clara demonstração de que a liberdade conquistada com sangue e sofrimento entre os anos 60 e 90 está sendo constantemente confundida com a libertinagem escancarada e estimulada; as conseqüências deste erro influenciarão as decisões da geração que herdará o País.

Nenhum comentário:

Postar um comentário