quinta-feira, 30 de julho de 2020

A casa vermelha e o homem azul - David Coimbra

Esta crônica foi escrita pelo jornalista David Coimbra e publicada na página 43 da Zero Hora no dia 25/07/2008. O dono da Casa Vermelha, descrita com a licença poética permitida a todo escritor, é meu tio-avô Iodolino José Machado, colorado roxo, dono de cadeira no já desaparecido Estádio dos Eucaliptos e no Beira-Rio.

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Na Aparício Borges, mais ou menos à altura do número 1.200, havia uma casa vermelha.

Toda vermelha.

Vermelhas eram as janelas e as portas, vermelhas eram as paredes e as telhas do telhado, vermelhas eram as cortinas que vedavam a luz, o soalho onde se pisava e o teto sobre as cabeças. A casa era vermelha por dentro e por fora.

Era a casa de um colorado.

No jardim da casa vermelha, o proprietário colorado mandou plantar um imponente mastro, e neste mastro, todos os dias, ele hasteava a rubra bandeira do Inter. Quando saía, o colorado ia lá e arriava a bandeira, a bandeira servia como referência para quem o conhecia e pretendia visitá-lo. A pessoa chegava e olhava para o mastro. Se houvesse bandeira, o colorado estava em casa; se não houvesse, ele tinha saído. Hoje em dia o mastro serviria como aviso para arrombadores e ladrões, mas estamos falando dos anos 60, década dos Beatles, do DKW, das Calças Topeka e das cidades seguras.

A casa vermelha era famosa na capital de todos os gaúchos.

Só que um dia tornou-se verde.

O proprietário, ele mesmo, tomou um galão de tinta, vários galões de tinta, e foi lá e pintou as paredes, o telhado, os quartos, tudo, de verde.

Por quê? Por causa do Foguinho.

É que Foguinho, o Oswaldo Rolla, havia sido contratado pelo Inter. Foi um abalo para as duas torcidas do Rio Grande. Os gremistas, chocados: Foguinho no Inter??? Não podia, Foguinho era como se fosse o próprio Grêmio. Entrou no clube nos anos 20. Vestia a camisa listrada número 10, e o fazia por amor: jamais aceitou receber um vintém, um cruzeiro, nada.

— Não jogo no Grêmio por dinheiro — dizia, o queixo de John Wayne erguido bem alto.

Mesmo assim, trabalhava como um profissional. Ao contrário dos outros jogadores da época, Foguinho treinava todos os dias. Como precisava exercer a profissão de alfaiate para se sustentar, treinava à noite, às vezes sozinho, às vezes com seu velho amigo Eurico Lara, o goleiro que Lupicínio Rodrigues incrustou na letra do Hino do Grêmio. A fim de permitir que Foguinho treinasse, o Grêmio instalou no Fortim da Baixada uma novidade: um conjunto de refletores. Assim, a Baixada foi o primeiro estádio do Rio Grande do Sul com sistema de iluminação. Graças a Foguinho.

Foguinho jogou a vida inteira no Grêmio e foi herói de um dos mais importantes Gre-Nais da história, o Gre-Nal Farroupilha, em comemoração ao centenário da Revolução Farrapa, em 1935. Era um homem de lealdades eternas. Uma manhã, enquanto o entrevistava em seu apartamento na Senhor dos Passos, ele puxou de um armário algumas caixas de papelão. Estavam cheias até a boca de fotos e recortes de jornal. Uma das fotos era do ex-deputado e ex-presidente do Cruzeiro, Antônio Pinheiro Machado, pai dos meus amigos Ivan e José Antônio. Foguinho segurou a pequena foto com a mão direita e, sem tirar os olhos dela, sentenciou:

— Este foi o maior homem que já conheci.

Silenciei, em respeito. Foguinho havia conhecido muitos grandes homens, em sua longa vida.

Outro dia, ele pescou das mesmas caixas de papelão uma foto de Luiz Carvalho, ex-presidente do Grêmio e centroavante do time em que Foguinho brilhava na meia-esquerda.

— Luiz Carvalho foi um grande amigo meu — disse. E concluiu, num suspiro:

— Todos os dias eu penso no Luiz Carvalho.

Foguinho estava entranhado no Grêmio, fazia parte das vísceras do Grêmio. Nos anos 50, consagrou-se como o maior técnico da história do clube e, mais, como o fundador da escola gaúcha de jogar futebol. Com ele, o Grêmio só ganhava. O ciclo de vitórias só foi interrompido quando Foguinho brigou com um dirigente e acabou saindo do clube para treinar, justamente, o time do seu grande amigo Pinheiro Machado, o Cruzeiro. Isso se deu em 1961. Quando o Cruzeiro derrotou o Grêmio, permitindo ao Inter a retomada da hegemonia, Foguinho, sentado no banco do adversário do time do seu coração, chorou.

Foi esse homem que o Inter contratou em 1968. Donde, compreende-se a revolta do colorado da Aparício Borges. A curta passagem de Foguinho pelo Inter encerrou-se, claro, num Gre-Nal. O Grêmio goleou por 4 a 0, com atuações de luxo de Alcindo e Volmir. No dia seguinte, os jornais publicaram uma foto desoladora de Foguinho: ele sentado só no banco de reservas, o olhar perdido dos vencidos, o chão coberto de laranjas que lhe tinham sido atiradas pelos colorados.

É óbvio que Tite não tem com o Grêmio a mesma identificação que tinha Foguinho. Mas sua contratação pelo Inter foi polêmica exatamente porque muitos colorados, inclusive alguns dirigentes, o consideram gremista. É este o grande obstáculo a ser superado por Tite no Inter: a desconfiança da torcida. Ter um Gre-Nal já na sua terceira partida pelo clube é uma espada e lhe pende sobre a cabeça. Mas, ora, também pode ser sua redenção. Ou dos que o criticam. Aliás, o colorado da Aparício, depois que Foguinho saiu do Inter, voltou a pintar a casa de vermelho.


* Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Croniqueta do Mercado III

Escolhia os pêssegos mais maduros quando foi interrompido com um puxão no braço, seguido da ordem de parar tudo e prestar a atenção no que acontecia ao seu redor.

"Euclides, olha aqueles melões!" - determinou Clarice, a esposa a quem nada escapava.

"Melões, que melões? Onde?" - perguntou enquanto girava a cabeça de um lado para o outro na tentativa de localizar a fruta amarela - "Está louca Clarice? Não há melões a venda no mercado".

"Ah pois bem Euclides, vai me dizer que não repaste nos peitos daquelazinha ali!"

O santo procurou no horizonte o motivo de indignação da esposa e descobriu uma jovem, não mais de 25 anos, blusa curta de alça estreita e uma barriga desenhada pelo capeta em pleno dia de inspiração Divina, conduzindo orgulhosamente um par de seios siliconados, semelhantes as obras de Michelangelo .

"Olha o desfrute dela, um afronte vir ao mercado com os peitos saindo da blusa. Me diz Euclides, pra que tudo aquilo? E ainda mais, não está usando sutiã. Não se dão mais o respeito, esperam que os homens não fiquem olhando? Que absurdo! Tu não fala nada?"

Euclides estava acompanhando a moça se esgueirar por entre as mesas das frutas e leguminosas, o jeito que escolhia os tomates como se fosse a mais pura e delicada tarefa. Enquanto as palavras da mulher ecoavam em sua caixa craniana, seus olhos focaram no decote generoso e apenas respondeu - "mas qual o problema?"

"Qual o problema? Eu te digo qual é o problema. Aqui é um ambiente familiar,  as crianças vendo essa pouca vergonha, as mães sendo afrontadas com esses peitos siliconados. Não gosto, decididamente de silicone.Tu sabe disso Euclides".

"Então é simples, não coloca silicone".

"Ah claro, agora está insinuando o que? Que sou uma recalcada? Sério isso? Tu perdeu a noção do perigo, né?"

"Não, só estou dizendo que se não gosta de silicone em ti, deixa em paz quem tem".

"Euclides, não tenta encontrar desculpa para justificar o injustificável"

"Clarice, justificar o que? Deixa a menina em paz. É jovem e bonita. Não está fazendo nada além de desfilar a sua juventude!"

Irritada, a esposa se deu por vencida e foi buscar abobrinhas para combinar com seu discurso. A jovem já tinha pego os tomates e agora separava pimentões enquanto Euclides ainda admirava um pouco mais aquela exuberância e fartura, quando sentiu escorrer por entre os dedos um liquido de cheiro adocicado.

Acabara de esmagar o pêssego que tanto escolhera.

Croniqueta do Mercado II

Escolhia as carnes para o churrasco, iniciara com as tradicionais e já estava nas alternativas, não que desejasse fazer algo fora dos padrões gaudérios, o que levava a essa pesquisa e escolhas mais detalhadas era o preço do quilo do boi ou seria da vaca?

Alaor, representante da tradicional família brasileira, tinha um plano para aquela tarde. Fazer as compras em ritmo frenético, gastando o mínimo possível e de lambuja não estressar Matilde.

Matilde era a síntese perfeita da mulher injustamente casada. Reclamava primeiro para perguntar depois, mandava ao invés de pedir, criticava cada escolha do pobre Alaor. O que fazia os dias do coitado serem suportáveis era a filha do casal, loirinha, cabelos encaracolados, viva que só ela, a companheira ideal para as fugas da realidade.

Continuava Alaor debruçado sobre os freezers dos cortes quando escutou seu nome sendo cantado de forma espaçada.

"A-L-A-O-R eu não acredito!" - exclamava a morena de top e calça mais justa que a justiça divina - "tu continua o mesmo dos tempos de faculdade!"

Ele sorriu sem graça. Sabia que seu pitbull ciumento surgiria a qualquer momento. Ela conseguia identificar a aproximação de outra mulher em seus domínios a quilômetros de distância. Um dom, a pequena tortura que aplicava em Alaor. Nem tivera tempo de responder para a ex-colegam quando sentiu suas pernas abraçadas. 

A filhota que no arrombo infantil perguntou - "quem é papai?" o que foi completado com um - "sim, quem é papai?" Matilde não se furtava de ser contundente quando desejava.

Alaor arranhou apenas a resposta padrão "É uma ex-colega da faculdade".

"E por acaso a colega não tem nome?"

A morena percebeu o terreno instável, se agachou para falar com a menina, que tímida enterrou o rosto no pai.

"Você é muito lindinha, sabia? É tão tímida quanto lembro que era seu pai. Tu deve estar realizado, não é?" Perguntou ao enrascado Alaor, que suava em bicas, apesar de estar quase dentro da refrigeração.

"É sim" - limitou-se a responder.

"Lembro que falávamos sobre filhos na faculdade, louco isso né?"

"Muito" - atravessou Matilde.

"Até falei para a mãe quando vi o Alaor de longe que ele continuava o mesmo de antes".

"O mesmo como?" - quis saber a enciumada.

"O homem lindo que nos fazia suspirar quando entrava na sala de aula".

Matilde pareceu se transformar no capeta, o rosto ficou vermelho, os braços se fecharam, o cenho embruteceu e de seus olhos saíam labaredas! A morena se despediu, afirmando que tinha sido fantástico, um sinal do universo aquele reencontro e que seus contatos não haviam mudado.

"Me liga Alaor" - disse antes dos três beijinhos, o afago na cabeça da pequena e o tradicional "um prazer te conhecer Matilde".

E lá se foi a linda morena de top e calça justa, mostrando com o seu "um pra mim, um pra ti", como há injustiça no açougue da vida, enquanto um tapa forte no braço o chamava a realidade, o preço das carnes está nas alturas!

* escrito antes da Pandemia que deixou o mundo de cabeça pra baixo

Croniqueta do Mercado I

O ambiente do mercado, não o de trabalho, é uma fonte de gostos, estresse e logicamente inspiração para mentes atentas. Não é necessário cometer nenhuma indiscrição para escutar o argumento do próximo para sua bucólica experiência consumista. Algumas comunicações são cifradas, permitindo interpretações mil nos corredores do Brasil. "Não esqueça de pegar aquele negócio que usa na sopa"; "pegou o líquido do banheiro"; "o corredor do perfuminho das roupas é onde?". Há também umas mais explícitas do tipo "quantos limpa trilhos vamos levar?"

Neste final de semana, no corredor das guloseimas, presenciei um trecho de conversa que permite muito para a imaginação. Vinha o rapaz conduzindo seu bólido prateado no melhor estilo pimpão quando sentencia para a morena flor ao seu lado.

"A gente que é do interior sempre ouve falar de lá, que é um ambiente de descontração, mas muito caro. Te confesso, fiquei curioso e fui lá, mas não fiz nada não. Pode acreditar" - exclamava com veemência presenciada apenas em juris populares, para completar em tom descendente "ai eu só comprei uma camisa lá".

Minha mente criada e treinada nos mais mundanos momentos, levou-me a crer que o singelo rapaz interiorano falava de alguma famosa casa de tolerância ou sauna, em que as meninas aproveitam para trocar favores sexuais por algumas onças de papel. Ao afirmar categoricamente que não fizera nada, o nobre incauto praticamente assinava a confissão para ser elevado a um outro patamar da existência, juntar-se a imensa legião de homens e mulheres que não se  interessam em elogios sinceros por sua performance de alcova.

Não, ele guardou o balde de gelo para o final - "eu só comprei uma camisa lá".  Qual, me digam amigos meus, qual lugar sofisticadamente luxurioso vende camisas? Alguém já viu alguma com a estampa "lembrança das gurias"; "estive na tia e lembrei de você" ou "aqui se faz, ali tu paga".

E assim foram ao longe, me deixando a curiosidade como companheira enquanto decidia se comprava um pacote de balas de caramelo ou fruta, permitindo imaginar que mundo é este em que os corredores do mercado nos oferecem mais que produtos de consumo, um bilhete para divagar sem pressa e exatidão.


* escrito antes da Pandemia que deixou o mundo de cabeça pra baixo