quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Flor de algum jardim

Inegável, em algum momento da evolução deixamos de prestar a atenção nos detalhes importantes da criação humana. Sim, houve essa ruptura em um ponto da curva em que jogamos a percepção pela janela e ficamos atrelados a uma valorização rasa, criada principalmente nas definições geradas através das lentes enfumaçadas que ornam a visão.

Sendo assim, querendo sair do lugar comum ou como martelam alguns administradores, da zona de conforto. Ela me pede impositiva, do jeito que apenas uma canceriana seria capaz de fazer, entre um olhar furtivo e outro – “pega esta caneta e estas folhas e me descreve, diz o que vê o que tu acha de mim, agora, em forma de poesia!”.

Falar, ou melhor, descrever alguém é sempre uma tarefa delicada. Pense bem, as percepções que você tem ou o pré-julgamento idealizado, necessariamente não é a essência da pessoa analisada. As verdades que cada um carrega ou a intensidade das experiências vividas durante um processo de amadurecimento e crescimento gravam marcas indeléveis no HD individual e ao contrário do que acontece na informática, o acesso nem sempre é autorizado.

Criar uma poesia é sempre uma doação. É o momento em que o pequeno deus que reside dentro de cada um, é capaz de expandir seu pensamento e descrever de forma plena o que a razão e o sentimento produziram em dueto, e um deus não conhece limites. O problema, é que em mim, residem vários deuses imortais, que acordam da hibernação conforme a conveniência do momento.

O primeiro que surgiu a meu chamamento foi Luxurius e carregava pronto seu veredicto, carregado de palavras do desejo primitivo e animalesco, o mesmo que implora por nudes no meio da noite e imagina as curvas do corpo sendo descobertas a cada peça de roupa subtraída, o convite a devassidão desmedida na nudez sob um fino lençol de seda. Sabe combinar a lingerie quando esta mal intencionada ou que usa uma peça bege de algodão. Mulher tatuada é miragem, poema que desfila no balanço de seu quadril, convidando e avisando - não se aproxime se não quiser se queimar!

Entreguei a folha. Leu, enrubesceu e sorriu – Amei, estou lisonjeada, curti bastante, mas – estendendo a folha – não é isso que esperava. Eu queria que tu descrevesses a minha alma e não meu corpo, não com esse forte sentimento de “te desejo”. Tu me entendes?

Agora era o meu momento de sentir uma frustração crescente, não era aquilo que desejava ouvir o admirador secular. Ela queria ser desnudada, mas não a carne e sim a alma. Não estava interessada em saber que o All Star vermelho seria jogado para baixo da cama e outro pé seria perdido entre a blusa preta do Ramones e o jeans surrado. Isso não lhe interessava, ela queria que lesse a alma desperta, despida, entregue e liberta.

Encarei nova folha virgem enquanto esperava a manifestação de mais um deus que habita em mim. Veritas se aproximou e passou a ditar de forma atabalhoada que ali não se encontrava uma mulher madura, mas sim uma alma que jamais envelhecerá, uma moleca que não se importa com convenções, que anda de pés descalços e abraça a Terra. Igual a toda representante feminina de alta estirpe, é mãe, filha, parceira, companheira, doce e picante. Uma pimenta que deve ser apreciada com moderação, pois queima e refresca com a mesma intensidade. Nada é pela metade e somente lhe cabem inteiros.

Ela é capaz de carregar em sem íntimo, a intensidade e força dos furacões e tempestades tropicais ao mesmo tempo em que é brisa calma embalada por Camomila. Ela explode quando seus limites são testados, mas se reconstrói e sendo descendente da Fênix, não faz drama e tão pouco se martiriza, já possui sabedoria suficiente para saber que tudo acontece no momento certo, seguindo o cronograma do Tempo. Mesmo assim, é rebelde! Não deixa nada para depois, pois sabe que esse depois, dependendo do humor de Cronos, pode não ocorrer e assim aproveita cada segundo como fosse o último do relógio com uma velocidade, ferocidade e fome invejáveis. Arrependimentos são fardos desnecessários para acompanhar nessa viagem da existência.

Novo movimento de entrega e a receptividade é melhor, embora sentencie – ainda falta alguma coisa, sabe ler a alma feminina tão bem, porque não está conseguindo fazer isso comigo?

Agora Eros se manifestaria com toda sua sapiência nas questões mais sentimentais. Explanaria que para ela o amor é assunto sério, aquele que se negocia olho no olho, com entrega total, mãos entrelaçadas, encaixe de corpos no sofá enquanto assiste filme, série ou simplesmente olha para o infinito. Ela não espera um príncipe romantizado, ela quer um parceiro que não lhe corte as asas, lhe permita voar e voltar por vontade e não obrigação. Ela entrega colo, abraço, ombros e ouvidos quando solicitada e nada pede em troca, só espera atenção, carinho e amor.

Lê e repete – me descreve, diz o que vê em mim! Finalmente nesse momento a ficha caiu. Percebi que não estava sendo convidado a descrevê-la por simples curiosidade, pois realmente não se importa com o que as pessoas pensam dela e posso jurar por tudo o que é mais profano. Era algo mais sublime, o convite para zingar o mar revolto de sua essência que deseja apenas paz e encarar o outro sem as amarras de convenções. Quem mergulha nela, tem como recompensa um baú, que contrariando a pieguice, não guarda moedas de ouro, jóias ou a chave do coração da mocinha, que nessa história, se salva sozinha.

Guardado nele está sua alma, aguardando ser conquistada por alguém de verdade e não por estes aventureiros desavisados e inconsequentes que se encontram em todas as esquinas e acordes. Ela deseja mais que um pedaço de chocolate, buques de rosas e cafés da manhã. Deseja ser descoberta, conquistada, entendida e compreendida com todas as suas imperfeições e contradições, gritando, berrando e se entregando à vida, de uma forma que até mesmo os anjos e demônios do céu teriam inveja.

Uma vez mais sentencia – vamos lá, agora é a hora de ver se é bom mesmo, diz o que vê em mim! E por mais uma vez, encaro a vastidão de seu olhar, os lábios que amaria beijar e enquanto suspiro fundo e me desarmo, aceito o desafio e antes que o silêncio roube as palavras, impedindo que descreva exatamente o que és – êxtase – te respondo audaciosamente. Não! Agora é a tua vez!

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Recado do Além

Sonhei com meu avô e neste sonho ele trazia uma mensagem de incentivo, um recado enviado por um antigo amigo.

_ Sabe meu filho, encontrei o Mário e ele 
pediu para te dizer que esses que estão atravancando teu caminho, eles passarão e tu...

_ Eu passarinho! Emendei , concluindo o célebre poema de Quintana.

_ Não, caspita! Mania de atalhar o que se vai dizer! Tu vai mandá-los às favas, cazzo!

_ Mas assim vô? Sem mais e nem menos?

_ Pois olha sangue do meu sangue, podes também mandar flores ou um cartão em papel bonito. Ainda existe a possibilidade de ser, como dizem? Politicamente correto e explicar que o problema não é.o saca a que tenta levar vantagem em tudo ou ainda a infantil criatura que se julga mais importante que o mundo e está sempre sem tempo ou atarefada. Ah e não esqueça, em nossa família temos tendência a desenvolver diabetes, portanto, não aceite orifício corrugado inferior glicosado.

Rimos bastante enquanto ele baforava um cigarro atrás do outro e eu tentava escapar da fumaça sufocante do pito. No fim, ele olhou para o horizonte como se contemplasse pela última vez o sol ou estivesse se conectando a espíritos evoluídos de luz, tirou o cigarro dos lábios, franziu o cenho e proferiu.

_ Filho, já sabe, esses que estão atravancando teu caminho eles passarão e - ficamos em silêncio por poucos segundos até que completou - descobrirão que caganeira não dá uma vez só na vida do homem.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Curiosa

Doravante baixarei a guarda
Esperarei com garbo e galhardia teu sinal,
Se ele não surgir no azul do firmamento,
Deixarei escondidas no meio do caminho
Estas ou aquelas palavras rimadas e cifradas

Quando encontrá-las escritas entre folhas de bordô
Ungidas pelo sumo sagrado de lágrimas
Estará em conexão com uma alma liberta.

Vibrando com a sintonia novamente estabelecida,
Ouvirá ao longe os versos da canção
Cantarolada de forma brejeira e desafinada
Em que o mais importante será a mensagem

Mesmo que a razão contrarie a emoção
Eu sempre lembrarei de nós daquele jeito,

Trazendo as nuvens para perto,
Imaginando cavalos alados, flores brancas,
Rostos iluminados e corpos jogados na grama
Onde o tempo, este verdugo inclemente
Unindo norte e sul, luz e escuridão

Ostenta sem cerimônia, crueldade e regras

Sua marca milenar de cicatrizes cinzas
Explicitando que a luta não se encerra
Unicamente pelo gosto doce do beijo!

Assim, quando as palavras calarem
Me prometa, na próxima vida não demorar e
Onde estiver vai me encontrar novamente,
Rápida, santa e pecadora para um café!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A Casa de Noel

Entre todas as datas comemorativas, existentes no calendário ocidental, nenhuma é mais apreciada por mim que o Natal. Muito além que a comemoração cristã que reverencia a data como a do nascimento de Cristo, ela é uma data mística. O período em que as pessoas, de um modo geral, se tornam mais receptivas às boas vibrações que emanam por todos os cantos, acabam sendo ungidas pelo espírito de renovação e do amor desinteressado ao próximo. 

O aniversariante do dia é altruísta e permitiu que uma figura ocupasse mais espaço nas comemorações, e esta posição ficou cada vez mais marcante a partir da ação de uma grande corporação de bebidas gasosas, que lançou a imagem do Papai Noel, criado pelo artista Fred Miren em 1930 em seus reclames. A figura do bom velhinho bonachão começou a invadir o imaginário coletivo de todas as crianças ao redor do mundo, geração após geração, mantendo firme e viva essa tradição. Era fato, na noite de Natal ele visitaria a casa das crianças comportadas e bem educadas. 

Recordo como eram alegres e tomadas de ansiedade as noites em que esperava a chegada do Bom Velhinho, trazendo os presentes pedidos. Incrível como ele conseguia entregar as encomendas e visitar todas as casas, sem fazer confusão alguma. Ele sempre trazia os mimos que foram pedidos através das cartas escritas com a letra infantil, alicerçada pela inocência própria da idade. Realizando uma rápida e imparcial retrospectiva, chego à conclusão que fui uma criança comportada, um privilegiado garoto de classe média brasileira dos anos 80. 

Sinceramente, desconheço a data ou circunstância que me fez descobrir que a história possuía duas versões. Isso nunca me importou, pois sempre acreditei que existem, convivendo harmoniosamente em nosso íntimo, deuses, demônios, seres místicos, o passado, presente, futuro e lógico o Papai Noel. 

Versões afirmam que o personagem em questão foi inspirado em São Nicolau, santo da igreja católica que viveu por volta de 300 d.C. Filho de pais nobres e ricos acabou doando sua grande herança para os pobres, sendo reconhecido pelas gerações futuras como a personificação do homem bondoso. Extra oficialmente preciso confessar a vocês, a identidade secreta de Noel é outra. Não se espante, afinal, no dia a dia, todo heróis se preserva de alguma maneira. Batman era Bruce Wayne, Superman era Clark Kent. O Papai Noel que conheci, atendia pelo singelo nome de “seu” Orlando. Pasmem, ele pisou neste solo sagrado de Porto Alegre por muitos anos! 

Simples assim! “Seu” Orlando levava uma vida discreta fora da época natalina. Encontrava-o toda manhã quando saia para meu lavoro, estava ele se colocando em forma, passeando na rua do condomínio em que éramos vizinhos, conversando com os vizinhos, mantendo insuspeita sua identidade secreta. Os distraídos não conseguiam perceber o quanto de magia, ilusão e encantamento ele distribuía ao vestir seu uniforme rubro! Os bons, sempre fazem diferença no mundo e a vida continuou assim, até um dia em que Noel alçou novos mundos, sendo visto, agora, com os olhos da alma. 

Passaram alguns anos e numa noite próxima do Natal de um ano esquecido, falava com uma amiga que é Belly Dancer no Oriente Médio sobre a importância e influência dos avós na infância. Comentei que não saberia dimensionar esta herança, pois não tive a oportunidade de conviver com os meus, falecidos anos antes de meus nascimento. Após dizer isto, ela comentou que era uma garota de muita sorte, grata por ter dito um avô fabuloso e que ele era ninguém mais, ninguém menos que o Papai Noel. O Noel, o bondoso “seu” Orlando de Porto Alegre! Acreditem, esse mundo é pequeno, e como sentenciou Stephen Hawking, o universo cabe em uma casca de noz. 

Percebi naquele exato momento a importância do exemplo deixado, a inspiração indireta que ecoa mesmo depois de findar a contagem de tempo terrena. Hoje, “seu” Orlando continua levando alegria na época de Natal para milhares de crianças que vivem em um céu azul de nuvens feitas de algodão doce, agradecendo com palmas, abraços e beijos os presentes recebidos, enquanto sua chama vive no coração e alma da neta, impulsionando-a seguir em frente, servindo de combustível para que ela nos encante com sua arte milenar tão bem executada, algo que somente os descendentes da casa de Noel são capazes de fazer.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Moça bonita

Ela é moça bonita
Daquelas que se encontram
Se procurar bem e sem preguiça
Somente nos sonhos pesados,
Do tipo que surgem na madrugada

Ela é moça bonita
E de tão bela percebe,
Se parecer com o mar revolto,
Que a onda quebra na areia
A beijar seus pés inteiros

Ela é moça bonita
Que não faz a mínima ideia,
Do meu (en)canto e admiração
Daquele desejo e da vontade
De escrever e cantar em versos...

Ela é moça bonita
Aquela que não beijarei,
Tão pouco pegarei na mão,
Pois atrasado cheguei,
Enquanto ela partia do sonho meu.

Sonho meu

Inegavelmente ela era o que os bagaceiros de plantão chamariam de “falsa magra”. Era a atenção de olhos treinados que a miravam enquanto mexia os quadris indo de um lado para o outro na repartição. O velho olhou aquele monumento e o corpo desenhado lhe fez estremecer, se havia algo que ele tinha certeza é que havia muito a descobrir por baixo daqueles tecidos e assim começou a esboçar seu plano pecaminoso. 

A todo instante passava por sua mesa e pedia mirabolantes e estapafúrdias tarefas. Tudo para marcar sua presença, se tornar presente e se fazer lembrar. Cada pedido vinha acompanhado de um galanteio canalha e convite para o happy hour com a turma. 

O único inconveniente é que ela parecia um atacante atrevido escapando da marcação dos zagueiros toscos do interior. Escapava sempre pela tangente, largava uma desculpa aqui e outra ali. Sempre aparecia um compromisso inadiável, uma reunião extra ou qualquer outra ação que exigia sua atenção. Apesar de todos estes sinais, ele ainda se mantinha esperançoso. Afinal, era brasileiro e não desistia jamais! 

Sempre a mesma rotina, até a manhã de uma quinta-feira qualquer, quando ela lhe chamou para perto com um aceno de mão. Aceitaria, após o milésimo convite, sair com a turma. Combinaram de se encontrarem perto do bar. Canalha que era não perderia a oportunidade de chegar junto com aquele troféu e causar inveja aos outros mequetrefes da repartição. 

Exatamente no horário combinado ela surgiu linda e sexy como sempre. A blusa justa deixava à mostra a barriga chapada e acentuava o contorno dos seios, a calça preta de cintura alta e fechecler frontal, tudo prometia sem nada entregar, além da perfeição das nádegas voluptuosas. Ele babou, saiu do ar por segundos, a quis em seus braços naquele exato momento. Transportá-la para onde pudesse jogar aquelas roupas em um canto qualquer e descobrir cada sinal seu. Massageá-la com óleo de amêndoas, beijar muito e amar ainda mais. Porém era paciente, não queimaria nenhuma etapa naquela noite. 

A turma recebeu a nova participante muito bem, afinal, sempre era gentil e graciosa e não havia quem não apreciasse sua companhia. Conquistava rapidamente a atenção de todos com sua desenvoltura, sempre participando com coerência das conversas nascidas na mesa. 

Porém, passada as dez badaladas noturnas, seu comportamento se alterou. Começou a ficar agressiva igual às tormentas tropicais. Uma fera selvagem! Cada frase que o velho dizia, ela contrariava; uma palavra mal colocada era contestada e corrigida sem nenhuma cerimônia. O clima ficou pesado e havia apenas uma solução aparente, um único expediente a ser tomado. 

Pessoal, estamos indo embora. Nossa amiga está ficando cansada. Obrigado pela excelente noite! Não se preocupem a deixarei em casa. Largou a decisão e o convite indireto, acreditando que ela não aceitaria, mas para sua surpresa, aceitou. 

Entraram no carro dele e sem rodeios, perguntou o que tinha acontecido para ela mudar da água para o vinho. Não houve resposta. Ela olhava fixamente dentro de seus olhos, conseguindo lhe deixar desconfortável. Pensou rápido e conclui que aquele era o momento de mandar a paciência da noite se danar. 

Puxou-a para perto dele, escorregou a mão pela barriga lisa, abriu o fechecler e deslizou para dentro dela, não encontrando no tato nada que o detivesse ou raspasse os dedos. Ela continuava com o olhar desafiador. O pobre velho não aguentou mais, cerrou os olhos e buscou aquela boca desenhada, a língua a invadiu pela primeira vez, porém encontrou aspereza e imobilidade. Abriu os olhos e não acreditou, ainda estava deitado em seu quarto, enroscado e beijando babados travesseiros de sua cama.

Apenas palavras

Não entenda mal, em alguns casos as palavras simplesmente nascem atravessadas, um sinal que foram paridas com uma velocidade absurda, sem terem passado pelo crivo ou orientação da razão. 

Palavras soltas desta maneira possuem uma forte possibilidade de criar uma atmosfera única de prazer e constrangimento, amor e rancor, admiração e frustração. Trazem em sua gestação espontânea um misticismo inexplicável, principalmente quando são analisadas à luz dos sinais corpóreos. 

São o fogo escondido dos Deuses, a filosofia dos comuns, uma espécie de senha que conduz do nada para o lugar nenhum. Uma blusa vermelha jogada no canto do quarto, sapatos esquecidos na sala e largados despretensiosamente em perfeita harmonia com a lingerie no corredor. 

Palavras refletidas, pensadas com exaustão são o combustível necessário para viagens mais intensas e profundas. Conduzem os desavisados aos confins do paraíso, com as bênçãos dos antigos que caminharam entre nós. Podem ser o amontoado de pensamentos ágeis ou lerdos, fazer sentido igual às antigas escrituras ou nada dizer, tal estas linhas.

Reflexão

Ontem a tarde, despretensiosamente me deparei com um pensamento simples e de tão simplório se tornou incrivelmente necessário - nunca desista de algo que você não consegue passar um dia sem pensar. Pergunto ingenuamente, em quantos deverei me dividir para conquistar tantas almas espalhadas?

Lembrança

"Tua presença se tornou lembrança
um foto jogada no fundo da gaveta,
amarelada pelo inclemente tempo e
manchada com o sal de lágrimas
que brotam dos olhos meus".

Solo

"Pisei no solo sagrado de teus sonhos e mudei.
Transformei aquela ilusão infantil
em certeza inconstante,
talvez por ter descoberto,
a quintessência do que são feitas
as nuvens de teu céu".

Reclame

Reclame e reclame um pouco mais,
nada alegra tanto o ser humano médio,
que perceber o quanto existe
de números piores que ele.

Pobre rima

Não sei rimar,
desaprendi na escola,
como banhar-me no mar,
e nela, nas provas, colar.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Nem tudo é o que parece ser.

Reencontrei a velha paixão. E paixão meus caros amigos é um fogo que arde de maneira intempestiva, animalesca e intuitiva. Fazia por minhas contas esparsas, uns treze anos, talvez um pouco mais ou menos, que não nos encontrávamos. 

Foi instantâneo, todas as aventuras, decepções de juventude e conquistas de causar inveja aos garotos da rua, voltaram, igual um cruzado no queixo. Me vi arrebatado. Aquela antiga paixão, de dias longos, vividos despreocupadamente em cada encontro estava de volta. 


Não tive, fraco que sou, como resistir. Passei sobre meus princípios e a meia idade que insistem em colocar freios aos instintos mais primitivos e voltei a ser um destemido apaixonado.

A primeira vez depois de tantos anos foi um fiasco total. Minhas mãos tremiam, não conseguia imprimir o ritmo certo, errava a intensidade das penetrações e a força empregada no ato. Foi realmente um fracasso, vergonha alheia e mesmo sem pedir, me deu novas chances.

Entendeu que longos anos de ausência e a falta de prática, deixam marcas no homem. Ela continuava martelando, provocando e me fez insistir e como consequência, não esmoreci mais. Foquei no que era importante, voltei a ler os sinais deixados sobre a mesa e compreendi que aquilo tudo estava adormecido, escondido em uma prateleira de armário. Eu sabia exatamente o que fazer e como executar os movimentos perfeitos.

Por ela, esta paixão louca e até desenfreada, igual a cantada por Cazuza, encontrei confrades que também a viviam. Compartilhavam do mesmo sentimento, de entrega sem pudor e vergonha àqueles prazeres momentâneos de puro êxtase e satisfação. Ela seduziu a todos, sem se importar, um minuto com a idade, experiência e aparências.

Assim como toda a paixão que se preza, me fez gastar os minguados trocados não consumidos pela inflação. Nosso encontro era quinzenal, depois passou a ser semanal e por fim, quase diário. Sempre regado com uma novidade de cor e tamanho satisfatório.

E sim, é verdade aquilo que diz o senso comum, homens não conseguem viver uma paixão sem serem descobertos. Minha mulher me descobriu em flagrante delito.

Para minha surpresa não fez escândalo, não gritou e tão pouco esperneou. Deixou de lado as perguntas clichês. Olhou com ternura e entendimento, da forma que somente seres evoluídos são capazes. Foi compreensiva ao afirmar - quem sou eu para te impor algo. Ela chegou antes de mim. Vai viver estes momentos e volta para casa!

E assim, dessa forma tempestuosa, com mil lembranças explodindo na memória e no peito, que repouso, por vez, sobre a mesa, dez objetos, distintos com o brasão e minhas cores.

Naquele momento conectam o presente com a adolescência já distante e afloram em mim o personagem escondido, o professor, o estrategista, o cérebro por trás da ficha, o comandante do esquadrão e torna-se inegável ainda mais a paixão pelo futebol de mesa, onde a camaradagem sobrevive apesar das peleias detalhadamente estudadas e disputadas.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Sobre Aniversários


Sou um sujeito que prefere delegar a um segundo plano a própria contagem de tempo. Deixei de me importar com esta convenção social, principalmente depois que rompi a barreira dos trinta anos. Tudo muito simples e prático. Talvez por isso esqueça aniversários com uma facilidade insuperável. Sério. Preciso fazer ligações entre pessoas e suas datas comemorativas, sejam de chegada ou partida. Meu cérebro realiza um esforço hercúleo para me lembrar de enviar uma mensagem, telefonar ou comprar um presente. 

Juro que tentei vários recursos para não parecer um frio e insensível ser humano, afinal, as demais pessoas que convivem comigo, necessariamente não comungam do mesmo pensamento e deficiência. Anotei as datas em agendas repousadas e perdidas em gavetas mil. Inseri os dados na agenda eletrônica, mas não a consultava e quando a buscava, estava sem bateria. Uma rede social parecia ser a solução, mas se tornou tão cansativa que pouco a utilizo. E assim vamos indo, um pouco a cada dia. 

Pode parecer incrível, mas me interesso tanto pelo assunto que fui pesquisar na rede mundial de computadores a origem etimológica de aniversário e descobri que surge da expressão latina anniversarius, formada a partir da junção de annus, que significa “ano” e versus ou vertere, traduzida por “voltar”, “regressar” e quer dizer “o que volta anualmente”. Alguns etimologistas defendem outra versão, em que a verdadeira origem estaria no latim anno conversus, que também expressa “o que volta todo ano”. E mesmo assim, com essa repetição esqueço. 

Durante o sagrado ano de 2018 ao felicitar uma das raras pessoas que não precisei inserir no intrincado sistema de recordação “aniversarial”, questionei como ela se sentia abrindo a contagem para a chegada de uma idade cheia, inauguração de nova década. Ficou surpresa por eu saber exatamente a idade que faria, afirmando que nem o próprio pai sabia com exatidão sua idade. Simples e elementar meu caro Watson, sem delongas e rodeios. 

Naquele mesmo dia acessei uma memória arquivada há muito tempo, em que escutei, de uma jovem em busca da iluminação espiritual, que o ano inicial de cada década serve como uma tela em branco em que você vai planejando os passos que serão executados nos próximos nove anos. Penso ser um projeto ambicioso demais, porém alguns conseguem com precisão cirúrgica. 

Pois então, essa criatura que felicitei é uma delas e iniciará um novo caminho com mais sabedoria do que quando a conheci, capaz de se reinventar inúmeras vezes, queimar e renascer como a Fênix, planejar os próximos passos com esmero, ser atenta aos detalhes de seu mundo mesmo estando ausente dele, tocar almas, liderar pelo exemplo, ser companhia distante, ensinar e aprender com o mesmo entusiasmo e ainda trazer o melhor e o pior de si, ser brisa e tempestade, vidraça e pedra, assim como todos nós, imperfeitos deuses. Sendo assim, só me resta pedir que Hator sempre lhe acompanhe, Cronos seja generoso, Bragi lhe ilumine e Frey não lhe abandone. Que seja assim, como era no principio, agora e para toda a eternidade.


Estrelinhas na praia

A vida é roleta, roda gigante e montanha russa. 
Muda, gira, transpira e pira, 
de forma consciente ou inconsciente, 
a vida é piração.
Pira quem fica parado, 
não transforma vinho em água, 
aquele que não suspira pela alma 
e nem toma café pela manhã.
A vida é transformar, virar de ponta cabeça 
a forma de enxergar o sol a beijar as ondas do mar. 
É fazer traquinagem, molecagem as onze pra qualquer hora, 
é conectar os fios da memória 
e traçar o caminho seguro para qualquer lugar

Pequenos desejos

Te observo assim, sem nenhum pudor, pois quem deseja, deve lhe dispensar.

E sem nada a temer, pego no teu pé, pequeno e magro, olhando para a unha cortada, quadrada e cuidada do dedo maior.

Abraçam-lhe minhas mãos que percorrem sua extensão, chegando ao calcanhar hidratado.

Beijo a parte baixa de tua perna, enquanto sem pudor mas com devassidão, encaro teus olhos entregues ao mesmo desejo.

As mãos sobem, passam pelo joelho, meio caminho do paraíso e percorrem um pouco mais a maratona que percorre tua coxa, desenhada, macia, desejada, amada.

Chega - diz sem convicção, puxando a mão para descobrir teus climas e temperaturas. Fica aí, mais rápido, menos pressão, saia e entre, nesse ritmo de noite enluarada.

Mão teimosa, não para quieta, sem merecer castigo, transpassa hemisférios, trópicos e afins, repousa na maciez destas nádegas tão minhas, tão suas, tão nossas.

Me prendo, não solto. Se largo não retorno, se retorno me estanco e há muito a que desbravar.

A boca beija a barriga, lambe o umbigo e chega aos seios que se apresentam, como a fonte do mel, do néctar da perdição e origem dos suspiros mais lânguidos do quarto.

Beijo a boca, mergulho nela como se o fundo não pudesse ser atingido, línguas que se tocam, corpos que já se misturam e se fundem, sem pressa e nem tempo.

Melhor parar de ler Vinícius, o poetinha da paixão, que me faz querer escrever de tudo e mais um pouco, para que leia depois do adormecer.

O amor é chama

O amor é chama,
Contentamento descontente,
E tantas outras definições,
Ditas por inúmeros enamorados,
Desiludidos ou iludidos,
Estes que vieram antes de ti e de mim,
Que transgrediram e arriscaram,
Respiraram e consumiram,
O amor da noite, sacro e pago,
Amor em essência, falta.
Amor em profusão é quimera,
E pior do que ter amado,
Sem receber de volta,
É nunca ter amado e ter sido amado,
Amor, quatro letras,
Duas vogais e duas consoantes,
Intercaladas e agrupadas,
Para definir aquele vazio do peito,
E a ausência da alma.

Forma Poética

O que seria uma forma poética? 
Diria eu, que a poesia vive em tudo, 
basta termos olhos de enxergar! 
O bom dia dado com interesse,é poesia. 
Uma foto nua, tem poesia. 
Mandar uma mensagem deitada na cama 
é repleta de poesia,
banhar-se usando uma fruta 
é poesia, poema e prosa. 
Viver é poesia e és um poema inteiro 
que chega até mim, todo o glorioso e santo dia!