sábado, 2 de junho de 2018

O sucesso não cabe em uma carteira!

Tentarei ser o mais sucinto possível, embora creia que isso seja impossível quando começo a transcrever os pensamentos para o papel. Não que me perca entre eles ou dispense a capacidade de síntese, mas penso que quanto mais esmiuçada uma idéia, maiores são suas chances de serem assimiladas e multiplicadas. Portanto, vamos do inicio. Acredito que todos os compatriotas não alienados que ainda fixam residência neste País, de terra que plantando tudo dá, percebem e sintam os efeitos da imensa crise institucional e financeira que assola estas fronteiras nos últimos anos. Os dias são compostos da mais profunda incerteza e insegurança. 

Conversando com amigos mais vividos, a maioria disse que o Brasil vive de ciclos de pequena melhoria nas condições gerais de vida para mergulhar novamente na escuridão da crise. Terei que concordar com estas vozes. Nasci na metade da década de setenta do século vinte e, portanto, passei inconscientemente a margem dos acontecimentos do milagre econômico que o País vivia. A década seguinte já foi mais real, as mudanças constantes de moeda, o racionamento e os “ranchos” para abastecer a casa por um mês eram a realidade nacional. Começava-se a pagar a conta do milagre! 

O personagem comum dos dois ciclos é o pagador da conta. Sim, nunca há almoço gratuito, embora queiram te fazer acreditar do contrário. A classe média é sempre chamada para meter a mão no bolso e puxar a carteira. Aquela robusta carteira de couro despeja as folhas de cheque, o dinheiro de plástico, o famoso din-din de papel e assume o papel de salvador da Pátria. Durante o primeiro ciclo eu era uma criança e como disse o Tremendão em uma de suas canções, eu era uma criança e não sabia nada. Agora, entro no rateio da despesa. 

O Administrador precisa ter seu radar sempre aferido, perceber os rumos que o mercado toma e começar a planejar as ações que possibilitem a Empresa percorrer esse caminho com a menor turbulência possível. Tenho um discurso franco com a gerente financeira sobre quais movimentos devemos executar. Ela me disse que a situação não é das mais cômodas, o fluxo de caixa apresenta descompasso e o capital de giro está se mostrando insuficiente. Nossos fornecedores também sentem os efeitos da crise, diminuíram a produção, reduziram as importações e o efeito é visível, menos oferta, consequentemente, menos vendas e faturamento igualmente menor. 

Para completar o quadro da dor com a moldura da desgraça, naquela semana o País acompanhava apreensivo o desenrolar da greve nacional dos caminhoneiros, que parados nas rodovias federais. O protesto trouxe como conseqüência imediata a ausência de combustível nos postos de todo território. O bólido vermelho Ferrari, nestas condições, com pouco combustível experimentava cruzar as ruas e avenidas a meros 40 km/h. Essa situação serviu para que tivesse mais tempo para pensar no que havia escutado. E pensei. Pensei muito. 

Imediatamente lembrei uma situação que havia presenciado quando a juventude dos meus dezenove anos me acompanhava. Trabalhava nessa época com um gerente financeiro, que infelizmente não recordo o nome, muito boa praça e que tinha seus quarenta e muitos anos. Acabou sendo demitido por não produzir o esperado pela alta gestão da Empresa. Nada demais não fosse ele ter continuado a levantar cedo toda manhã, pelos quinze dias posteriores ao seu desligamento e dizer para a família que ia trabalhar. Creio que foi desmascarado no dia que a esposa ligou para o escritório atrás dele. Não estranhem, há mais de vinte anos os celulares eram privilégio de poucos. Questionado porque havia agido daquela forma, disse que tentava nova colocação no mercado de trabalho antes de noticiar a saída da Empresa. Completou afirmando que tinha vergonha de dizer a sua família que havia fracassado. Tive sincera pena dele. 

Estava eu, de forma involuntária propenso a repetir o personagem do antigo gestor? Perguntei o que um quarentão desempregado em tempos de crise poderá fazer. Juntarei-me a marcha de treze milhões de irmãos brasileiros que estão impossibilitados de produzir riqueza nestes trópicos? Começarei a receber insistentes ligações cobrando meus débitos? Também nutriria o sentimento de fracasso? Como me encararia em frente ao espelho? 

Nestes momentos surgem os gurus motivacionais ou os mestres da ciência financeira com fórmulas mágicas para fazer que você levante da cadeira e caminhe por entre desempregados, famintos e desesperançosos em busca do El dorado. A mensagem é clara, igual à famigerada lei do impedimento que tanta discórdia proporciona nas rodadas de futebol. Eles esquecem apenas de um detalhe meramente “insignificante”. Somos indivíduos. Parece meio óbvio escrever isto, mas como tal, possuímos formas diferentes de motivação, de encarar os problemas diários e principalmente reagir quando somos confrontados com a verdade inapelável. Você sofrerá os efeitos da crise, poderá perder o emprego, levará tempo para encontrar uma saída fácil e confortável. Meus caros, isso é do jogo, portanto saiba as regras e reverta o quadro desfavorável. 

Não posso ser hipócrita. Conheço o significado da palavra derrota e sei o gosto amargo que ele causa. Porém nunca desisti de lutar, sempre encarei o desafio e estudei meu adversário. Saiba, há um preço por agir assim, alguns me consideram orgulhoso e teimoso por tentar a derradeira cartada. A verdade é que não me importo nem um pouco como me classificam. O destino está em minhas mãos. Ninguém definirá por mim se é o momento de desistir, de pular fora de La barca. 

Os médicos só permitiram que meus pais me vissem quase nove horas após meu nascimento. Neste tempo corria risco de morrer antes mesmo do primeiro abraço materno. Anos depois sofri uma tentativa de seqüestro que me deixou apenas traumas infantis, perdi pessoas especiais que só reencontrarei se existir vida após a morte, amores me devastaram e nada disso quebrou minha alma. 

Olhando por este prisma sou um homem de sucesso. Cheguei até aqui sabendo ler e escrever, sem conhecer os horrores de uma guerra, o verdugo da fome, sede e do frio, fui criado dentro de princípios éticos e morais. Por tudo isso, recusei o papel do gerente destroçado. Não será uma crise econômica que tirará minha paz de espírito, que dirá o que posso ou não fazer e que de forma insolente tentará me provar o contrário. 

Saibam amigos, não são apenas números que nos definem e o sucesso, ah o sucesso, ele não cabe em uma carteira!

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