sábado, 23 de junho de 2018

A Copa do Mundo e eu


O Brasil, este País continental que escolhi para viver essa encarnação de choro e ranger de dentes é um gigante que enfrenta um terrível momento em que todo o brasileiro, seja nativo ou não, precisa escolher entre duas alternativas completamente antagônicas. Gostar ou não. Ser favorável ou não. Amar ou não. Chegamos ao ponto de haver somente estas duas alternativas, pelo menos, assim pensam os extremistas de plantão. Os fiscais do traseiro alheio trabalham arduamente para que não haja a alternativa do meio. 

E agora que boa parte do Globo acompanha com real interesse as partidas mais eletrizantes do ano, não falta traseiro para ser fiscalizado. Para estes nobres funcionários comprometidos com não sei o que, você é um alienado, trouxa e burro que está sendo ludibriado pelo sistema que desejar perpetuar a venda dos ativos nacionais, perseguir figuras políticas de história ilibada ou um asqueroso ser rubro que luta com foice e martelo pela instalação de uma republica bolivariana em solo verde-amarelo. Não há escapatória para tão triste paradigma que nos prende. 

Como me classifico como um hibrido em meio a estes irmãos amantes do extremo, não tenho constrangimento algum em afirmar que espero com real interesse por este período que ocorre a cada quatro anos em que o ópio do povo é ofertado pelos meios de comunicação em sua maior expressão e acompanho os confrontos de noventa minutos, fora os acréscimos e prorrogações. A Copa do Mundo! São apenas trinta dias em que o seleto das melhores seleções de cada continente se reúnem para confrontos que transcendem as marcas de cal. Elas se enfrentam nas modernas arenas para demonstrar que não somente de técnica e bom futebol uma conquista é feita. É muito mais que um simples jogo de futebol, onde onze atletas de cada lado correm atrás de uma bola. 

Nossa Pátria recebeu a alcunha de Pátria de Chuteiras, talvez por ser o único a bater presença em todas as edições do torneio iniciado em 1930, aqui do lado, na terra dos Charruas ou ainda por ser o berço de tantas figuras colecionáveis e admiráveis nos quatro cantos desta esfera azul chamada Terra. E não é exagero afirmar que os atletas daqui, conseguem o que os atletas de lá nem sonham. Acaso mais alguém além de Pelé seria capaz de parar uma guerra para a disputa de uma partida de futebol? 

O certo é que ao longo destes anos todos, formamos cinco esquadrões que ergueram as Taças Julio Rimet e FIFA, os inesquecíveis selecionados de cinqüenta e oito, sessenta e dois, setenta, noventa e quatro e dois mil e dois, além dos dois vices de cinqüenta e noventa e oito, além do inspirador esquadrão de oitenta e dois. Todos auxiliaram a formar o senso comum que afirmava que todo brasileiro era um técnico do nobre esporte bretão e como tal, desde que a luz, as discussões em torno das convocações se fazem presentes com algum injustiçado não convocado ou que carimbou seu passaporte sem a unanimidade nacional. 

Nasci em 1976, dois anos antes da disputa em terras Argentinas em que los hermanos levantaram pela primeira vez a FIFA, sendo assim a primeira lembrança visual que guardo é do torneio da Itália em oitenta e dois, mais especificamente das figuras dos atletas participantes da Copa, que circulavam junto de uma goma de mascar. Em jogos o primeiro é de oitenta e seis, mais precisamente do petardo e da comemoração do lateral direito Josimar. Lembro que estava no sentado na cama dos meus pais acompanhando o jogo e não acreditei quando ele desferiu aquele chute contra o gol da Irlanda do Norte, em que o selecionado venceu por três tentos a zero. Também recordo de ter ficado muito frustrado e ter xingado bastante o “galinho de Quintino” pelo pênalti desperdiçado e que nos custou a classificação contra a França, que voltaria a ser nossa algoz em noventa e oito e dois mil e seis. 

Assim foram acontecendo os torneios, tomados de ansiedade e fazendo nascer em mim, que não sou supersticioso, uma série de ritos renovados a cada quatro anos. A edição de noventa e quatro assisti sozinho, com exceção do grande jogo da final, aquele sufoco decidido nos pênaltis que antes de significar a retomada de uma conquista distante vinte e quatro anos, determinaria contra a poderosa Itália, quem seria o primeiro tetracampeão da História. Para os gringos era a revanche da final de setenta em que perderam para o “Esquadrão”, para nós, a redenção em um ano marcado pela tragédia do Senna. Durante a Copa seguinte, tentei acompanhar os jogos no mesmo local, o que não foi possível. O torneio da Família Felipão foi acompanhado repetindo uma mesma peça de roupa em todos os jogos, deu certo. E assim se faz a minha história nas Copas e não pense não que neste ano o ritual não está em ação, resolvi repetir a receita que deu certo no Japão, repetir uma peça de roupa. A final da Copa dirá se deu certo ou não.


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