sábado, 23 de junho de 2018

Canção da Redescoberta

Entre tantas manias e rotinas que desenvolvi nestas décadas de vida, nenhuma é tão observada e seguida quanto o ritual criado para escrever. Ligo o notebook e apago as luzes da sala, deixo apenas a luminosidade da tela iluminar o ambiente, não preciso olhar para o teclado, uma vez que, os dedos já estão acostumados a encontrar as teclas corretas. Insiro os fones de ouvido na saída de som, escolho uma trilha sonora inicial e deixo a imaginação fluir. Escrevi inspirado por Queen, Metallica, Elton John, Rod Stewart, Legião Urbana entre tantos outros. Nesta noite não foi diferente. 

A primeira música começou a ser reproduzida e fechei os olhos na tentativa de encontrar as tão sonhadas e necessárias concentração e inspiração. Cada melodia criava uma reação e o convite para mergulhar na viagem já conhecida e as palavras arranjadas por terceiros se apresentavam como a chave mestra que abriria todas as portas. O site estava programado para aleatoriamente buscar as canções e assim o fez uma, duas, três, quatro vezes até que aconteceu o impensável. Nossa música tocou! 

A introdução instrumental começou e naquela fração de tempo percebi que a noite seria de recordações. A primeira reação do corpo foi acusar o arrepio que lhe invadiu, os cabelos do braço eriçados e o nó na garganta eram a prova que havia sido atingido. Fui transportado de minha sala com vista para boa parte da cidade ao meu quarto juvenil em que tomei ciência de sua existência pela primeira vez. 

O ano não importa, essa contagem de tempo é mera convenção que não se segue quando falamos de amor, paixão e entrega. Lembrei das vezes em que deitado criava planos mirabolantes para viver ao seu lado e dos exemplos que me presenteava, sem necessariamente serem bons ou ruins, eram apenas e por isso significativos exemplos do que ocorrera com outros antes de mim que devotaram amor a ela. Apresentava de forma fria e cirúrgica quais eram minhas reais oportunidades e eu, cego no auge da ingenuidade que acompanha os jovens não podia e nem queria abandoná-la. Ela era tudo em que acreditava. 

O tempo inclemente vai mostrando quais as cartas que podemos utilizar no jogo da vida e assim, imersos em uma relação desgastada e rotineira, tivemos o fim escrito nos melhores folhetins dramáticos. A traição se fez presente. Ela mostrou não ser exatamente quem se apresentava, era explorada por homens poderosos e permanecia impassível, como se fosse seu destino existir para sempre daquela forma. Por minha vez, conheci outras paixões e segui caminhos sempre paralelos aos seus. 

Mesmo assim, nunca deixei de acompanhar seus passos e vibrar por suas conquistas e reconhecimentos. Ela é extremamente esforçada, capaz de se reinventar tantas vezes quantas forem necessárias. Quando me questionam sobre ela, respondo com desdém e indiferença, tentando convencer aos meus interlocutores, que não me importa seu futuro. Quanta hipocrisia a minha! A verdade é que me envergonho de ter permanecido calado quando me pediu ajuda e de ter cerrado os olhos nas vezes em que ela foi violentada, roubada e humilhada por seres inescrupulosos. 

Percebi que as lágrimas começaram a brotar timidamente e logo passaram a escorrer pelo rosto até que o choro copioso se adonou de mim e da sala silenciosa, ao escutar as frases finais da canção: 

“Mas, se ergues da justiça a clava forte 
Verás que um filho teu não foge à luta 
Nem teme quem te adora, a própria morte 
Terra adorada, 
Entre outras mil 
És tu, Brasil 
Ó Pátria amada! 
Dos filhos deste solo és mãe gentil 
Pátria amada 
Brasil!”

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