domingo, 24 de junho de 2018

O velho Julinho

O ser humano é uma máquina fantástica, repleta de possibilidades e entre elas, se destaca o poder de perceber os momentos transformadores de sua vida. É uma espécie de benção auto-imposta, constatar o exato instante que sua vida muda de direção e novas perspectivas surgem no horizonte. A experiência aprimora essa capacidade a cada instante. Somente isso explicaria o fato de demorar tanto para compreender e valorizar a mudança de ventos que experimentei no início da década de noventa do século XX. 

Naqueles anos concluíra meus estudos de primeiro grau em um tradicional colégio de padres Lasalistas, sob os mais intensos e dogmáticos princípios católicos e me preparava para continuar a vida escolar com o mesmo grupo de colegas e professores. Pelo menos pensava assim. Aqueles ainda eram anos estranhos, em que o brasileiro médio lutava bravamente contra o dragão da inflação que consumia o dinheiro e poder de compra de forma surpreendente e minha família enquanto representante da tradicional classe média sofria os impactos comuns àquela situação. Necessidade de vestuário, comida e moradia alugada impossibilitaram que a conta fechasse. Chegava ao fim minha história naquele colégio. Quis a ironia típica do destino, que agora adulto, comprasse um apartamento com vista ao apartado núcleo de saber. 

Havia apenas uma alternativa. Continuar minha formação acadêmica na rede pública estadual. O Colégio escolhido foi, a então jóia da coroa do ensino do Rio Grande do Sul, O Colégio Estadual Júlio de Castilhos, ou simplesmente Julinho, era o Colégio Padrão do Estado e para fazer parte de suas fileiras estudantis era necessário prestar uma prova de admissão, tamanha a sua procura. Uma Instituição que centenária na época, com uma história riquíssima, formadora de personagens importantes da política, jornalismo e cultura. Este seria o meu endereço pelos próximos três anos e ainda imerso na revolta por perder, o que vim saber anos depois se chamar zona de conforto, não compreendia o impacto que provocaria na forma de enxergar a vida, pelo menos até o primeiro dia de aula. 

O primeiro impacto pode parecer bobo, mas durante todos os oito anos anteriores fomos obrigados a utilizar uniforme. Calça e casacos pretos com listas amarelas compunham a vestimenta diária dos alunos e constatar que ali não havia uniforme foi um impacto. Assistir os colegas pilchados, outros com jeans rasgados, blusas e saias curtas, era um contraste e tanto. Outra recordação é a de um colega, Miguel, conhecido por ser repetente e ter uns quatro anos a mais, entrou na sala fumando. Não suficiente, durante a aula ele simplesmente levantou e saiu com a normalidade de quem respira. 

Naquele ano finalmente fui apresentado à verdadeira liberdade. Fazer o que desejasse na hora que se mostrasse mais conveniente e apesar dessa aparente anarquia reinante, o ensino era puxado. A nota média para aprovação eram impensáveis sete pontos, um a mais do que estava acostumado atingir no primeiro grau, fora as aulas em laboratório de física, química e biologia, além da educação física que ocorriam em turno inverso ao que estudávamos e faziam parte da avaliação bimestral. 

O resumo daquele primeiro ano foi de inúmeras descobertas e experiências, vivi o movimento dos caras-pintadas que protestavam contra Collor, foi o período que mais matei aula para comer pastéis no Centro Comercial em frente ao Colégio, o ano em que fiquei de exame em Física, na verdade eu e mais de trezentos alunos da mesma professora, de presenciar brigas que começaram dentro do Julinho e terminaram no meio da avenida, com muita cadeira atirada e sopapos trocados. Foi quando estudei com colegas que foram alunos de minha mãe em uma comunidade pobre da cidade e também de ser aluno de colegas dela, de conhecer professores e colegas que me inspiraram e instigaram a dar meu melhor. 

Enquanto vou acessando estes arquivos mentais, novas estórias vão brotando. Havia aquele professor de matemática que possuía uma triste historia de vida, a professora de inglês que apesar de dedicada não conseguia fazer com que eu aprendesse a língua bretã e que proporcionou que quebrasse uma caneta BIC em sua prova por não saber patavina da matéria, da professora de Física que quase descobriu minha cola no verso da calculadora solar. Foi no Julinho que criamos um método infalível de cola que funcionou até a professora perceber que eram muitos alunos com tosse e com mãos descansadas em partes específicas das mesas. Foram naqueles corredores que descobri que a lealdade e camaradagem existentes na lendária turma 83 nem sempre estariam presentes nas relações que estabeleceria durante minha vida. 

Porém nenhuma outra lembrança é tão viva quanto a que me fez descobri escritor pela primeira vez e a incrível e incomparável sensação de ser aplaudido por meus colegas. O nome da professora se perdeu no tempo, a redação foi para a reciclagem e dela me recordo de apenas um trecho. A tarefa consistia em observar de qualquer canto do Colégio, qualquer situação e descrevê-la. Sentei na sacada que fica para a Avenida João Pessoa, enxergava o prédio derrubado da concessionária Volkswagen e também o Monumento a Bento Gonçalves. 

Escrevi um belo texto, mas que recordo somente deste trecho – “Bento, o herói Farroupilha, montado em seu cavalo observa o horizonte, onde relembra a batalha pela tomada de Porto Alegre pelos farrapos, sem perceber que a velinha cansada puxa seu carrinho de feira, tentando chegar do outro lado da rua, fugindo dos modernos cavalos de aço enquanto os pardais voam fugindo do barulho da cidade”. 

Exatamente assim, o Julinho me apresentou o mundo moderno de antigamente e plantou a semente da educação transformadora e da responsabilidade social em uma época em que poucos falavam sobre ela. Moldou ainda mais minha personalidade, fornecendo as ferramentas necessárias para discernir entre o que vale e não a pena. Foram estes três anos que me prepararam para a guerra da vida e hoje é possível encontrar em seu site, sua filosofia: 

“O Colégio Júlio de Castilhos, na sua perspectiva filosófica, concebe o ser humano como parte da natureza, capaz de transcendê-la pela sua consciência e capacidade de pensar. Em conseqüência disso, pode conhecer interpretar e transformar o mundo natural. Ao expor tal vivência, cria o seu habitat, que é o mundo cultural. Neste contexto, o Colégio defende uma sociedade plural, democrática, solidária e justa, na qual todos têm direito e oportunidade de participação efetiva nos bens necessários à vida, ao conhecimento científico, ao trabalho, à cultura, à justiça e à igualdade”.

sábado, 23 de junho de 2018

A Copa do Mundo e eu


O Brasil, este País continental que escolhi para viver essa encarnação de choro e ranger de dentes é um gigante que enfrenta um terrível momento em que todo o brasileiro, seja nativo ou não, precisa escolher entre duas alternativas completamente antagônicas. Gostar ou não. Ser favorável ou não. Amar ou não. Chegamos ao ponto de haver somente estas duas alternativas, pelo menos, assim pensam os extremistas de plantão. Os fiscais do traseiro alheio trabalham arduamente para que não haja a alternativa do meio. 

E agora que boa parte do Globo acompanha com real interesse as partidas mais eletrizantes do ano, não falta traseiro para ser fiscalizado. Para estes nobres funcionários comprometidos com não sei o que, você é um alienado, trouxa e burro que está sendo ludibriado pelo sistema que desejar perpetuar a venda dos ativos nacionais, perseguir figuras políticas de história ilibada ou um asqueroso ser rubro que luta com foice e martelo pela instalação de uma republica bolivariana em solo verde-amarelo. Não há escapatória para tão triste paradigma que nos prende. 

Como me classifico como um hibrido em meio a estes irmãos amantes do extremo, não tenho constrangimento algum em afirmar que espero com real interesse por este período que ocorre a cada quatro anos em que o ópio do povo é ofertado pelos meios de comunicação em sua maior expressão e acompanho os confrontos de noventa minutos, fora os acréscimos e prorrogações. A Copa do Mundo! São apenas trinta dias em que o seleto das melhores seleções de cada continente se reúnem para confrontos que transcendem as marcas de cal. Elas se enfrentam nas modernas arenas para demonstrar que não somente de técnica e bom futebol uma conquista é feita. É muito mais que um simples jogo de futebol, onde onze atletas de cada lado correm atrás de uma bola. 

Nossa Pátria recebeu a alcunha de Pátria de Chuteiras, talvez por ser o único a bater presença em todas as edições do torneio iniciado em 1930, aqui do lado, na terra dos Charruas ou ainda por ser o berço de tantas figuras colecionáveis e admiráveis nos quatro cantos desta esfera azul chamada Terra. E não é exagero afirmar que os atletas daqui, conseguem o que os atletas de lá nem sonham. Acaso mais alguém além de Pelé seria capaz de parar uma guerra para a disputa de uma partida de futebol? 

O certo é que ao longo destes anos todos, formamos cinco esquadrões que ergueram as Taças Julio Rimet e FIFA, os inesquecíveis selecionados de cinqüenta e oito, sessenta e dois, setenta, noventa e quatro e dois mil e dois, além dos dois vices de cinqüenta e noventa e oito, além do inspirador esquadrão de oitenta e dois. Todos auxiliaram a formar o senso comum que afirmava que todo brasileiro era um técnico do nobre esporte bretão e como tal, desde que a luz, as discussões em torno das convocações se fazem presentes com algum injustiçado não convocado ou que carimbou seu passaporte sem a unanimidade nacional. 

Nasci em 1976, dois anos antes da disputa em terras Argentinas em que los hermanos levantaram pela primeira vez a FIFA, sendo assim a primeira lembrança visual que guardo é do torneio da Itália em oitenta e dois, mais especificamente das figuras dos atletas participantes da Copa, que circulavam junto de uma goma de mascar. Em jogos o primeiro é de oitenta e seis, mais precisamente do petardo e da comemoração do lateral direito Josimar. Lembro que estava no sentado na cama dos meus pais acompanhando o jogo e não acreditei quando ele desferiu aquele chute contra o gol da Irlanda do Norte, em que o selecionado venceu por três tentos a zero. Também recordo de ter ficado muito frustrado e ter xingado bastante o “galinho de Quintino” pelo pênalti desperdiçado e que nos custou a classificação contra a França, que voltaria a ser nossa algoz em noventa e oito e dois mil e seis. 

Assim foram acontecendo os torneios, tomados de ansiedade e fazendo nascer em mim, que não sou supersticioso, uma série de ritos renovados a cada quatro anos. A edição de noventa e quatro assisti sozinho, com exceção do grande jogo da final, aquele sufoco decidido nos pênaltis que antes de significar a retomada de uma conquista distante vinte e quatro anos, determinaria contra a poderosa Itália, quem seria o primeiro tetracampeão da História. Para os gringos era a revanche da final de setenta em que perderam para o “Esquadrão”, para nós, a redenção em um ano marcado pela tragédia do Senna. Durante a Copa seguinte, tentei acompanhar os jogos no mesmo local, o que não foi possível. O torneio da Família Felipão foi acompanhado repetindo uma mesma peça de roupa em todos os jogos, deu certo. E assim se faz a minha história nas Copas e não pense não que neste ano o ritual não está em ação, resolvi repetir a receita que deu certo no Japão, repetir uma peça de roupa. A final da Copa dirá se deu certo ou não.


Canção da Redescoberta

Entre tantas manias e rotinas que desenvolvi nestas décadas de vida, nenhuma é tão observada e seguida quanto o ritual criado para escrever. Ligo o notebook e apago as luzes da sala, deixo apenas a luminosidade da tela iluminar o ambiente, não preciso olhar para o teclado, uma vez que, os dedos já estão acostumados a encontrar as teclas corretas. Insiro os fones de ouvido na saída de som, escolho uma trilha sonora inicial e deixo a imaginação fluir. Escrevi inspirado por Queen, Metallica, Elton John, Rod Stewart, Legião Urbana entre tantos outros. Nesta noite não foi diferente. 

A primeira música começou a ser reproduzida e fechei os olhos na tentativa de encontrar as tão sonhadas e necessárias concentração e inspiração. Cada melodia criava uma reação e o convite para mergulhar na viagem já conhecida e as palavras arranjadas por terceiros se apresentavam como a chave mestra que abriria todas as portas. O site estava programado para aleatoriamente buscar as canções e assim o fez uma, duas, três, quatro vezes até que aconteceu o impensável. Nossa música tocou! 

A introdução instrumental começou e naquela fração de tempo percebi que a noite seria de recordações. A primeira reação do corpo foi acusar o arrepio que lhe invadiu, os cabelos do braço eriçados e o nó na garganta eram a prova que havia sido atingido. Fui transportado de minha sala com vista para boa parte da cidade ao meu quarto juvenil em que tomei ciência de sua existência pela primeira vez. 

O ano não importa, essa contagem de tempo é mera convenção que não se segue quando falamos de amor, paixão e entrega. Lembrei das vezes em que deitado criava planos mirabolantes para viver ao seu lado e dos exemplos que me presenteava, sem necessariamente serem bons ou ruins, eram apenas e por isso significativos exemplos do que ocorrera com outros antes de mim que devotaram amor a ela. Apresentava de forma fria e cirúrgica quais eram minhas reais oportunidades e eu, cego no auge da ingenuidade que acompanha os jovens não podia e nem queria abandoná-la. Ela era tudo em que acreditava. 

O tempo inclemente vai mostrando quais as cartas que podemos utilizar no jogo da vida e assim, imersos em uma relação desgastada e rotineira, tivemos o fim escrito nos melhores folhetins dramáticos. A traição se fez presente. Ela mostrou não ser exatamente quem se apresentava, era explorada por homens poderosos e permanecia impassível, como se fosse seu destino existir para sempre daquela forma. Por minha vez, conheci outras paixões e segui caminhos sempre paralelos aos seus. 

Mesmo assim, nunca deixei de acompanhar seus passos e vibrar por suas conquistas e reconhecimentos. Ela é extremamente esforçada, capaz de se reinventar tantas vezes quantas forem necessárias. Quando me questionam sobre ela, respondo com desdém e indiferença, tentando convencer aos meus interlocutores, que não me importa seu futuro. Quanta hipocrisia a minha! A verdade é que me envergonho de ter permanecido calado quando me pediu ajuda e de ter cerrado os olhos nas vezes em que ela foi violentada, roubada e humilhada por seres inescrupulosos. 

Percebi que as lágrimas começaram a brotar timidamente e logo passaram a escorrer pelo rosto até que o choro copioso se adonou de mim e da sala silenciosa, ao escutar as frases finais da canção: 

“Mas, se ergues da justiça a clava forte 
Verás que um filho teu não foge à luta 
Nem teme quem te adora, a própria morte 
Terra adorada, 
Entre outras mil 
És tu, Brasil 
Ó Pátria amada! 
Dos filhos deste solo és mãe gentil 
Pátria amada 
Brasil!”

sábado, 2 de junho de 2018

O sucesso não cabe em uma carteira!

Tentarei ser o mais sucinto possível, embora creia que isso seja impossível quando começo a transcrever os pensamentos para o papel. Não que me perca entre eles ou dispense a capacidade de síntese, mas penso que quanto mais esmiuçada uma idéia, maiores são suas chances de serem assimiladas e multiplicadas. Portanto, vamos do inicio. Acredito que todos os compatriotas não alienados que ainda fixam residência neste País, de terra que plantando tudo dá, percebem e sintam os efeitos da imensa crise institucional e financeira que assola estas fronteiras nos últimos anos. Os dias são compostos da mais profunda incerteza e insegurança. 

Conversando com amigos mais vividos, a maioria disse que o Brasil vive de ciclos de pequena melhoria nas condições gerais de vida para mergulhar novamente na escuridão da crise. Terei que concordar com estas vozes. Nasci na metade da década de setenta do século vinte e, portanto, passei inconscientemente a margem dos acontecimentos do milagre econômico que o País vivia. A década seguinte já foi mais real, as mudanças constantes de moeda, o racionamento e os “ranchos” para abastecer a casa por um mês eram a realidade nacional. Começava-se a pagar a conta do milagre! 

O personagem comum dos dois ciclos é o pagador da conta. Sim, nunca há almoço gratuito, embora queiram te fazer acreditar do contrário. A classe média é sempre chamada para meter a mão no bolso e puxar a carteira. Aquela robusta carteira de couro despeja as folhas de cheque, o dinheiro de plástico, o famoso din-din de papel e assume o papel de salvador da Pátria. Durante o primeiro ciclo eu era uma criança e como disse o Tremendão em uma de suas canções, eu era uma criança e não sabia nada. Agora, entro no rateio da despesa. 

O Administrador precisa ter seu radar sempre aferido, perceber os rumos que o mercado toma e começar a planejar as ações que possibilitem a Empresa percorrer esse caminho com a menor turbulência possível. Tenho um discurso franco com a gerente financeira sobre quais movimentos devemos executar. Ela me disse que a situação não é das mais cômodas, o fluxo de caixa apresenta descompasso e o capital de giro está se mostrando insuficiente. Nossos fornecedores também sentem os efeitos da crise, diminuíram a produção, reduziram as importações e o efeito é visível, menos oferta, consequentemente, menos vendas e faturamento igualmente menor. 

Para completar o quadro da dor com a moldura da desgraça, naquela semana o País acompanhava apreensivo o desenrolar da greve nacional dos caminhoneiros, que parados nas rodovias federais. O protesto trouxe como conseqüência imediata a ausência de combustível nos postos de todo território. O bólido vermelho Ferrari, nestas condições, com pouco combustível experimentava cruzar as ruas e avenidas a meros 40 km/h. Essa situação serviu para que tivesse mais tempo para pensar no que havia escutado. E pensei. Pensei muito. 

Imediatamente lembrei uma situação que havia presenciado quando a juventude dos meus dezenove anos me acompanhava. Trabalhava nessa época com um gerente financeiro, que infelizmente não recordo o nome, muito boa praça e que tinha seus quarenta e muitos anos. Acabou sendo demitido por não produzir o esperado pela alta gestão da Empresa. Nada demais não fosse ele ter continuado a levantar cedo toda manhã, pelos quinze dias posteriores ao seu desligamento e dizer para a família que ia trabalhar. Creio que foi desmascarado no dia que a esposa ligou para o escritório atrás dele. Não estranhem, há mais de vinte anos os celulares eram privilégio de poucos. Questionado porque havia agido daquela forma, disse que tentava nova colocação no mercado de trabalho antes de noticiar a saída da Empresa. Completou afirmando que tinha vergonha de dizer a sua família que havia fracassado. Tive sincera pena dele. 

Estava eu, de forma involuntária propenso a repetir o personagem do antigo gestor? Perguntei o que um quarentão desempregado em tempos de crise poderá fazer. Juntarei-me a marcha de treze milhões de irmãos brasileiros que estão impossibilitados de produzir riqueza nestes trópicos? Começarei a receber insistentes ligações cobrando meus débitos? Também nutriria o sentimento de fracasso? Como me encararia em frente ao espelho? 

Nestes momentos surgem os gurus motivacionais ou os mestres da ciência financeira com fórmulas mágicas para fazer que você levante da cadeira e caminhe por entre desempregados, famintos e desesperançosos em busca do El dorado. A mensagem é clara, igual à famigerada lei do impedimento que tanta discórdia proporciona nas rodadas de futebol. Eles esquecem apenas de um detalhe meramente “insignificante”. Somos indivíduos. Parece meio óbvio escrever isto, mas como tal, possuímos formas diferentes de motivação, de encarar os problemas diários e principalmente reagir quando somos confrontados com a verdade inapelável. Você sofrerá os efeitos da crise, poderá perder o emprego, levará tempo para encontrar uma saída fácil e confortável. Meus caros, isso é do jogo, portanto saiba as regras e reverta o quadro desfavorável. 

Não posso ser hipócrita. Conheço o significado da palavra derrota e sei o gosto amargo que ele causa. Porém nunca desisti de lutar, sempre encarei o desafio e estudei meu adversário. Saiba, há um preço por agir assim, alguns me consideram orgulhoso e teimoso por tentar a derradeira cartada. A verdade é que não me importo nem um pouco como me classificam. O destino está em minhas mãos. Ninguém definirá por mim se é o momento de desistir, de pular fora de La barca. 

Os médicos só permitiram que meus pais me vissem quase nove horas após meu nascimento. Neste tempo corria risco de morrer antes mesmo do primeiro abraço materno. Anos depois sofri uma tentativa de seqüestro que me deixou apenas traumas infantis, perdi pessoas especiais que só reencontrarei se existir vida após a morte, amores me devastaram e nada disso quebrou minha alma. 

Olhando por este prisma sou um homem de sucesso. Cheguei até aqui sabendo ler e escrever, sem conhecer os horrores de uma guerra, o verdugo da fome, sede e do frio, fui criado dentro de princípios éticos e morais. Por tudo isso, recusei o papel do gerente destroçado. Não será uma crise econômica que tirará minha paz de espírito, que dirá o que posso ou não fazer e que de forma insolente tentará me provar o contrário. 

Saibam amigos, não são apenas números que nos definem e o sucesso, ah o sucesso, ele não cabe em uma carteira!