O ser humano é uma máquina fantástica, repleta de possibilidades e entre elas, se destaca o poder de perceber os momentos transformadores de sua vida. É uma espécie de benção auto-imposta, constatar o exato instante que sua vida muda de direção e novas perspectivas surgem no horizonte. A experiência aprimora essa capacidade a cada instante. Somente isso explicaria o fato de demorar tanto para compreender e valorizar a mudança de ventos que experimentei no início da década de noventa do século XX.
Naqueles anos concluíra meus estudos de primeiro grau em um tradicional colégio de padres Lasalistas, sob os mais intensos e dogmáticos princípios católicos e me preparava para continuar a vida escolar com o mesmo grupo de colegas e professores. Pelo menos pensava assim. Aqueles ainda eram anos estranhos, em que o brasileiro médio lutava bravamente contra o dragão da inflação que consumia o dinheiro e poder de compra de forma surpreendente e minha família enquanto representante da tradicional classe média sofria os impactos comuns àquela situação. Necessidade de vestuário, comida e moradia alugada impossibilitaram que a conta fechasse. Chegava ao fim minha história naquele colégio. Quis a ironia típica do destino, que agora adulto, comprasse um apartamento com vista ao apartado núcleo de saber.
Havia apenas uma alternativa. Continuar minha formação acadêmica na rede pública estadual. O Colégio escolhido foi, a então jóia da coroa do ensino do Rio Grande do Sul, O Colégio Estadual Júlio de Castilhos, ou simplesmente Julinho, era o Colégio Padrão do Estado e para fazer parte de suas fileiras estudantis era necessário prestar uma prova de admissão, tamanha a sua procura. Uma Instituição que centenária na época, com uma história riquíssima, formadora de personagens importantes da política, jornalismo e cultura. Este seria o meu endereço pelos próximos três anos e ainda imerso na revolta por perder, o que vim saber anos depois se chamar zona de conforto, não compreendia o impacto que provocaria na forma de enxergar a vida, pelo menos até o primeiro dia de aula.
O primeiro impacto pode parecer bobo, mas durante todos os oito anos anteriores fomos obrigados a utilizar uniforme. Calça e casacos pretos com listas amarelas compunham a vestimenta diária dos alunos e constatar que ali não havia uniforme foi um impacto. Assistir os colegas pilchados, outros com jeans rasgados, blusas e saias curtas, era um contraste e tanto. Outra recordação é a de um colega, Miguel, conhecido por ser repetente e ter uns quatro anos a mais, entrou na sala fumando. Não suficiente, durante a aula ele simplesmente levantou e saiu com a normalidade de quem respira.
Naquele ano finalmente fui apresentado à verdadeira liberdade. Fazer o que desejasse na hora que se mostrasse mais conveniente e apesar dessa aparente anarquia reinante, o ensino era puxado. A nota média para aprovação eram impensáveis sete pontos, um a mais do que estava acostumado atingir no primeiro grau, fora as aulas em laboratório de física, química e biologia, além da educação física que ocorriam em turno inverso ao que estudávamos e faziam parte da avaliação bimestral.
O resumo daquele primeiro ano foi de inúmeras descobertas e experiências, vivi o movimento dos caras-pintadas que protestavam contra Collor, foi o período que mais matei aula para comer pastéis no Centro Comercial em frente ao Colégio, o ano em que fiquei de exame em Física, na verdade eu e mais de trezentos alunos da mesma professora, de presenciar brigas que começaram dentro do Julinho e terminaram no meio da avenida, com muita cadeira atirada e sopapos trocados. Foi quando estudei com colegas que foram alunos de minha mãe em uma comunidade pobre da cidade e também de ser aluno de colegas dela, de conhecer professores e colegas que me inspiraram e instigaram a dar meu melhor.
Enquanto vou acessando estes arquivos mentais, novas estórias vão brotando. Havia aquele professor de matemática que possuía uma triste historia de vida, a professora de inglês que apesar de dedicada não conseguia fazer com que eu aprendesse a língua bretã e que proporcionou que quebrasse uma caneta BIC em sua prova por não saber patavina da matéria, da professora de Física que quase descobriu minha cola no verso da calculadora solar. Foi no Julinho que criamos um método infalível de cola que funcionou até a professora perceber que eram muitos alunos com tosse e com mãos descansadas em partes específicas das mesas. Foram naqueles corredores que descobri que a lealdade e camaradagem existentes na lendária turma 83 nem sempre estariam presentes nas relações que estabeleceria durante minha vida.
Porém nenhuma outra lembrança é tão viva quanto a que me fez descobri escritor pela primeira vez e a incrível e incomparável sensação de ser aplaudido por meus colegas. O nome da professora se perdeu no tempo, a redação foi para a reciclagem e dela me recordo de apenas um trecho. A tarefa consistia em observar de qualquer canto do Colégio, qualquer situação e descrevê-la. Sentei na sacada que fica para a Avenida João Pessoa, enxergava o prédio derrubado da concessionária Volkswagen e também o Monumento a Bento Gonçalves.
Escrevi um belo texto, mas que recordo somente deste trecho – “Bento, o herói Farroupilha, montado em seu cavalo observa o horizonte, onde relembra a batalha pela tomada de Porto Alegre pelos farrapos, sem perceber que a velinha cansada puxa seu carrinho de feira, tentando chegar do outro lado da rua, fugindo dos modernos cavalos de aço enquanto os pardais voam fugindo do barulho da cidade”.
Exatamente assim, o Julinho me apresentou o mundo moderno de antigamente e plantou a semente da educação transformadora e da responsabilidade social em uma época em que poucos falavam sobre ela. Moldou ainda mais minha personalidade, fornecendo as ferramentas necessárias para discernir entre o que vale e não a pena. Foram estes três anos que me prepararam para a guerra da vida e hoje é possível encontrar em seu site, sua filosofia:
“O Colégio Júlio de Castilhos, na sua perspectiva filosófica, concebe o ser humano como parte da natureza, capaz de transcendê-la pela sua consciência e capacidade de pensar. Em conseqüência disso, pode conhecer interpretar e transformar o mundo natural. Ao expor tal vivência, cria o seu habitat, que é o mundo cultural. Neste contexto, o Colégio defende uma sociedade plural, democrática, solidária e justa, na qual todos têm direito e oportunidade de participação efetiva nos bens necessários à vida, ao conhecimento científico, ao trabalho, à cultura, à justiça e à igualdade”.