domingo, 22 de abril de 2018

Pasmem, já fui Padre!

A República Tupiniquim é prodigiosa em dois aspectos. O primeiro é a capacidade inigualável de criar casos de corrupção e a segunda na religiosidade de seu povo. Minha família materna é a típica família brasileira, miscigenada e extremamente religiosa. Acreditam piamente nas coisas do invisível independente da corrente de fé que professam. Porém entre as mulheres de fé de meu clã familiar, havia uma tia que se sobressaia na dedicação as obras do Ômega. 

Ela era uma pessoa realmente empenhada em levar a palavra da salvação aos corações e almas mais empedernidos, uma ativa participante das obras de Jesus, prestativa e disponível para ajudar amigos, familiares e desconhecidos. Quando em um momento bem conturbado de nossa vida em que, pequeno precisava ficar em casa, ela antecipou sua aposentadoria para cuidar de mim durante o período da tarde. São gestos como estes que fazem com que nos tornemos imortais dentro do coração daqueles que nos sucedem. Apesar disto e deste reconhecimento tardio, penso jamais ter falado pessoalmente a ela o meu agradecimento. 

Certa vez ela me olhou com toda a complacência possível e tascou direta e reta – meu querido, tu não sabe a alegria que daria para esta tua tia se decidisse ser padre. Sim, exatamente assim! O problema é que nesta época o turbilhão hormonal já havia se manifestado em mim e o apreço e gosto pelo sexo oposto haviam chegado para ficar. Dentro do que é possível para a idade juvenil, expliquei da impossibilidade de realizar seu sonho. 

Acontece que o mundo é um local muito estranho para se viver. Sério, não é uma frase batida. O mundo é um lugar deveras estranho para se viver ou sobreviver, como desejem. E o sonho de minha tia se realizou como por encanto! Queridos e distintos leitores, eu fui padre por um dia e não foi no quadro do Fantástico e sim em um dia treze de Junho, dedicado ao Santo casamenteiro, o discípulo de Francisco, o não menos conhecido Antônio de Pádua. 

Vocês leram que minha família é religiosa – o que não implique que eu o seja atualmente – portanto auxiliava nas festas do padroeiro de nosso Bairro e da Paróquia dedicada ao Santo. Naquele dia fui auxiliar no dia de festejo, que proporciona o fluxo de uma infinidade de pessoas por sua dependência. Acabei sendo direcionado para atender ao telefone da sacristia e ali teria a simples tarefa de informar os meios de transporte que levariam até a Igreja, bem como o horário das cerimônias. Simples e direto. 

Os outros membros mais experientes auxiliavam na venda de lembranças do Santo, marcação de missas, venda de velas, enfim, realizavam o atendimento olho no olho. Tudo corria bem até que o “tonhofone” trinou. Atendi e do outro lado surgiu uma voz trêmula, uma senhora chorando pedia para ser atendida por um padre, precisava pedir uma bênção para seu animalzinho de estimação que se encontrava enfermo. Expliquei que não seria possível proporcionar tal ação. A fiel insistiu tanto que perguntei para uma colaboradora mais experiente o que fazer. Ela deu de ombros. 

E foi neste exato momento que as nuvens do céu se abriram e um raio de luz iluminou minha tão pecadora mente, carimbando minha passagem direta para os mais profundos domínios do rubro. Disse a ela que aguardasse um instante, que chamaria um padre para lhe escutar. Ali realizei o sonho de minha tia ao trazer a vida o padre Leonardo, que com o sotaque carregado dos gringos italianos se apresentou para escutar as lamúrias daquela irmã. Sob o olhar incrédulo das colegas de seara festiva, abençoei o totó e a ela. Padre Leonardo passou a tarde aconselhando as fiéis e rezando o Pai Nosso pelo telefone. 

Naquele dia percebi que as pessoas antes de tudo, desejam o conforto de suas dores e receber a atenção que julgam ser merecedoras. Cometi para os olhos e mentes julgadoras dos bons costumes, uma falta de respeito passível de arder em uma fogueira da Inquisição, porém em meu íntimo foi a primeira vez que compreendi as palavras de Cristo contidas no Evangelho de Mateus, 18:20 “Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles”.

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