terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O Mar de Alícia



Alícia, sempre ela! Descobriu não sei como uma fórmula de surpreender-me quando mais preciso. Ela simplesmente pousa sua presença, sem importar-se com a turbulência de uma manhã, a intensidade de uma tarde ou a calma da madruga. Esta sua capacidade de inspirar de forma peculiar o meu vírus incubado da escrita é única. O faz sem palavras, apenas com a letra A de seu nome ou com seus Olhos e agora com costas desnudas e coração ao mar!

Intensidade. Este seria o substantivo que define perfeitamente a ela e o mar a quem se declara. Assim como um paciente montador que dá forma a complexos quebra-cabeças, observá-los com toda grandiosidade não é tarefa para afoitos. Este é um privilégio que compete somente aos experimentados e treinados seres que desconhecem a celeridade do tempo.

Observá-los assim, lembra que sempre fui fascinado, talvez seja uma das minhas marcantes características – fascinar-me com uma facilidade voluptuosa, pelo mar. Este mesmo que Alícia nos convida a observar. O horizonte alcançado pelo limite ocular proporciona o aparecimento da linha tênue que divide e funde a água e o firmamento, impossibilitando distinguir onde é o começo de um e o fim do outro, grandioso! E Alícia? Creiam, confiem você jamais a esquece!

Nunca me importei com a ditadura de cozinhar minha pele alva de garoto de apartamento sob o sol escaldante do litoral. Jamais! Até porque o resultado nunca variava da coloração vermelho –camarão. Gosto realmente de observar a água sob efeito do vento, transforma o movimento das ondas em uma dança sedutora sem tempo e hora de acabar.

Presente da criação a todo aquele que se esquece dos ponteiros do tempo a beira da praia. Você necessariamente não precisa ficar olhando perdidamente a este espetáculo, pode desviá-lo para o lado e constatar que modernamente, sereias possuem pernas e estão junto a nós. Elas deixaram aquela vida monótona de cantar, encantar e afogar, preferem agora é torturar os pobres mortais com seu desfile incessante sobre a areia fofa.

Retorno ao mar, sem pressa alguma, apenas exercitando o sagrado direito de autorizar a imaginação que alce vôo e trace paralelos onde poucos conseguem. Posso compará-lo totalmente a Alícia, e o faço em pormenores que guardo para mim de um jeito imperfeitamente perfeito de egoísta.

Observá-lo é mais que teorizar, permite perceber que Posseidon ao contrário do que ocorria na Grécia 
Antiga é quem nos reverencia beijando nossos pés, é a oportunidade de viajar no tempo, imaginar os navegadores chegando àquele mesmo litoral tão diverso de hoje. O impacto da primeira vista jamais é superado por nada, talvez por isso, e somente por isto, exista ainda tanta paixão à primeira vista nestes tempos de pixels e dpis.

Poetas não cansam de se declarar a ele e a sua grandiosidade. Inclusive eu, no início de minha amadora e audaciosa carreira poética, como bom canastrão, escrevi algumas linhas em que comparava os olhos de alguma musa já perdida no tempo e espaço, a um mar de águas profundas, que guardava neles os mais profundos segredos e como os inexperientes exploradores não obtiveram êxito ao resgatá-los e os tornarem possíveis e reais. Sim, uma obra de discutível qualidade.

Logicamente, que outros Poetas alcançaram seus objetivos, criaram paralelos e estabeleceram conexões profundas. Assim como o Mestre Fernando Pessoa, conseguiu sabiamente em Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passa além da dor
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Sim Alícia, tudo sempre vale a pena se a alma não é pequena, e para a tua, tudo vale a pena ser vivido, pois este ímpar jeito de ser, aparentando tanta tranqüilidade e sendo tão gigante quanto às águas do Pacífico te convida a aproveitar O mar, amar, rearmar, o ar, o mar,amar e assim recomeçar.

Diga, existe melhor definição a uma alma que esta?

domingo, 29 de janeiro de 2017

Te Amo

"Te amo – assim, declaração despretensiosa, dita por antigo amor causa o efeito esperado ou não; um sentimento que mesmo forçosamente inspira poucas linhas". 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Juliana Paes e o salvo conduto

O que um homem cumpridor de seus compromissos sociais mais deseja em um domingo de sol a pino? Exato! Ficar atirado no sofá da sala, cerveja na mão e os controles remotos como seus fies escudeiros. Principalmente quando na tarde, há aquela final da Série C-2 tão esperada pelos apaixonados pelo esporte bretão.

Após anos de espera, o time onde dei os primeiros chutes, onde marcava o Alam... brado, a Associação São Carlense enfrentaria pelo inédito título o Atleticano de Regatas e Futebol. Um clássico do futebol estadual, TV no mudo, rádio a todo volume. O jogo está tenso, Betão, narrador oficial da XYKWXM vai gritando no microfone o ataque do São Carlense, uma troca intensa de passes com origem na falha do meia-esquerda do Atleticano. Tensão no ar, eis que ela surge e desliga tudo.  Como assim? É a final!

Ela, para situar os amigos, é Solange, aquela a quem jurei meu amor e minha servidão eterna.

_Luis, precisamos conversar.

O mundo parou. Seria aquela a senha para a hecatombe nuclear? Estaria ela em conluio com os ianques ou com os cossacos? Não, deve ser algo que fiz, só pode. Ligo meu 386-XT e começo a escanear, buscar em algum canto perdido de meu HD o que seria capaz de gerar uma onda de tal magnitude, também conhecida como d.r. bem no meio da final da C-2. Nada, nenhuma idéia. Estava limpo, era inocente, realmente inocente.

_ Agora? – balbuciei com toda a coragem que me restava.

_Não Luis, pode ser no Natal.

Entendi a fina ironia e achei melhor não contrariar, afinal, algo de ruim estava prestes a acontecer. Ninguém usa um “precisamos conversar” do nada. Algo de muito grave se avizinhava. Solange nunca teve uma paciência primorosa, na verdade, quando distribuíam esta qualidade, ela devia estar em outra fila do céu, só isso explicaria o pavio curtíssimo, quase inexistente.

_Olha só Luis, andei pensando, acho que nosso casamento tem que evoluir. Afinal são mais de quinze anos juntos, desde a faculdade. Precisamos ter uma mente mais aberta, mais européia, somos muito conservadores, apegados a preceitos tradicionais dessa sociedade retrógrada e opressora.

_ Sei – foi o máximo que consegui articular, aquilo era muito surreal. Havia um golpe, uma câmera escondida, uma pegadinha. Pensei que invadiriam a sala com um bolo cantando parabéns, mas depois lembrei que ninguém estava aniversariando, então...

_ Pois então, a partir de hoje tu tem a minha autorização pra me trair com outra mulher, e mais, pra tu não perder tempo, já escolhi a minha sócia nesse corpinho decrépito, é a Juliana...

A interrompi.

_ A Juliana? – My Lord, a Juliana, colega do tempo de faculdade da Solange, vem em casa direto, janta aos sábados, churrasco aos domingos, sempre solteira, uma loira que só podia ter pacto com o capiroto de tão linda que é, aquela que faz padre abandonar a batina, neguinho tomar cerveja quente e queimar a carne.  E completei – A Juliana Silva?

_ O Luis, tu me acha besta? Sério,tu me acha idiota ao ponto de permitir que tu me traísse com a Ju Silva? Alôooo, eu te capo antes de tu pensar em encostar nela. Tu pode me trair é com a Juliana Paes! Se ela aparecer na tua frente e quiser sair contigo, ta liberado, não precisa nem te preocupar.
_Espera ai. Quem é a Juliana Paes?

_Sério, tu ta brincando comigo, só pode. Como assim quem é a Juliana Paes.  A da televisão!

_ A Juliana Paes, atriz, deusa de ébano, aquela musa da TV?

Saiu um – arrã contrariado.

_Aquela do bocão, dos zoião, dos “peitão”, dos...

_ Essa mesma!

_ Mas ela ta no Rio de Janeiro!!!! Eu to a centenas de quilômetros, isso não ta me parecendo muito justo, não.

_Ah, não? O bonitão esta se achando injustiçado? Luis como não é justo? Eu estou te liberando do juramento do altar, farei o papel de “cornélia” e tu vem me dizer com essa cara amarrotada que eu não estou sendo justa?

Senti que havia adentrado em terreno perigoso. A proposta não teria brecha para acordo e se tentasse forçar algo, o salvo conduto seria picotado em milhões de pedaços. Tudo podia ser perdido no mais rápido piscar de olhos. Tentei um último e tolo argumento, mas negociações com mulheres maquiavélicas não são para inexperientes.

_ Tá, mas digamos, eu encontrei uma mulher muito parecida com a Juliana Paes, não serve? Por exemplo, a sobrinha da Dona Matilda é muito parecida com ela. Ela só tão tem o bocão, o cabelo, o zoião, mas no mais, passa batido.

_ Qual o nome da menina e o sobrenome?

_ O nome eu não sei minha paixão, mas o sobrenome deve ser o mesmo da Dona Matilda, Gonçalves.

_ Pois então Luis! Gonçalves é igual a Paes?  E eu não sei é o mesmo que Juliana?Eu te respondo sumidade intelectual, não, não são a mesma coisa! Quer saber? Cansei, tu não valoriza o que eu faço por ti, chega de ser boazinha. Não tem mais acordo, acabou! Quero ser “pra frentex”, mas não, o bonito não pode ficar só com a mão, quer o braço todo!

Eis que surge a real essência da proposta,  nada é gratuito e como diz um político da cidade, não existe almoço de graça, alguém pagará a conta.

_Fica com teu futebol e me dá o cartão que vou pro shopping , preciso me desestressar, chega, além do mais tem uma liquidação de sapatos e bolsas. Viu? Eu estava calma, mas tu tem esse dom de estragar tudo o que eu penso em fazer por ti, me tira o sossego, me tira do sério. Agora, só comprando uns cinco pares de sapatos e umas dez bolsas pra me acalmar. É impressionante

E assim, intempestivamente, me deixando com uma cara de tacho, Solange virou e saiu batendo os tamancos, portas e o que mais encontrou pela frente. Por breves minutos tive o paraíso ofertado, me senti Adão nos primórdios da criação e quando menos percebi, já tinha mordido uma daquelas farinhentas maçãs argentinas, para que tudo me fosse retirado igual doce arrancado de criança.


Voltei para o futebol, já estava 3 a 1 para o Atleticano. Minha dor de cabeça na segunda seria enorme, título perdido, cartão estourado e a Juliana Paes nas nuvens.

Os Deuses Vendem quando Dão

Os deuses vendem quando dão melhor saber, e assim, o homem se torna prisioneiro, um eterno devedor das benesses divinas. Não adianta, por mais que o homem, este gênero cão tente não se entregar aos prazeres transitórios da carne, ele sucumbe à paixão. É fato!

Era noite, provavelmente fizesse frio, lembro vagamente que ela vestia um blusão nas cores azul e cinza. Aquela indumentária não fazia nem um pouco jus ao que escondia, calça jeans e tênis. Entrou na sala como se tivesse esperado o exato momento que meu olhar se direcionasse para a porta, desfilou, na verdade deslizou por entre as cadeiras, olhou para os lados e claro, não me notou. Quedou-se na cadeira , riu, riu muito, riu bonito e apenas riu.

 Desejei-a naquele instante de cores vivas e que hoje está perdido em uma ata, atirado em uma gaveta qualquer de meu arquivo semimorto. Uma noite qualquer, dessas que faz um frio razoável, aceitável, tolerável. Um curso, um aprendizado a mais, qual diferença pode fazer? Estratégia meu caro, do grego strateegia, do latim strategi, do francês stratégie, do inglês strategy, do alemão strategie, do italiano strategia, do espanhol estrategia, isso é o que precisaria encontrar para me fazer notar. Tão simples quanto resolver um problema proposto por um Mestre Jedi da Matemática.

Busquei em todo canto como chegar perto dela, observei-a como uma fera prestes a dar o bote na vítima indefesa, virou covardia. Estava pronto, calculei os ganhos e as perdas de minha ação. Não me importava se teria sucesso ou sucesso, se a teria em minha caminhada por toda existência como mulher, amante ou amiga. Um homem com medo, não conquista mulher bonita.

Nesse momento, confiando em mim da mesma maneira que uma equipe de futebol confia em uma defesa de juvenis, falei com os deuses. Eles se ofenderam, acaso não teriam nada mais importante para se preocupar do que com as investidas amorosas dos mortais? Confrontei, afinal, Zeus, quantas sementes plantou nos úteros humanos ao descer do Olimpo? Por esta tua afronta, terás sucesso, mas pagarás como pedágio a vergonha em vossa primeira noite.

Saímos. Fizemos o que tínhamos que fazer, sem pressa, sem rodeios, tudo aquilo que poderia acontecer com um casal jovem, desnudei o corpo moreno, encontrando simetria e proporcionalidade em cada curva e pedaço rabiscado no mais perfeito rascunho, o perfume daqueles cabelos encaracolados em meu nariz, as mãos rápidas que de bobas não possuíam sequer a mais pálida lembrança, a boca pequena, a língua ligeira e aquele par de olhos castanhos, que, por favor, tudo deram, sem nada pedir em troca.

Após o embate adormecemos. Morfeu nos conduziu em seu reino, gozamos do sono dos justos e nele os deuses me cobraram. Você terá que pagar o pedágio, lembre-se, a banca paga e cobra. Era uma manhã de domingo, qualquer dia de Setembro e devia saber que algo estava errado. Jamais, em instante algum, por motivo aparente ou sombrio, acordei às 7 da manhã. Despertei-a com um beijo. Espreguiçou na cama, me olhou de forma diferente. Como não percebi?

Somente o sopro de Sísifo em seu ouvido, conduzindo seus pensamentos seria capaz de tamanha desenvoltura ou desfaçatez. Respondeu a meu questionamento se desejava beber algo, com um simples, pode ser teu leite. Levantei e fui à cozinha, na geladeira peguei as misturas, do armário saiu a lata da bebida láctea em pó, preparei dois copos, bandeja, pães, demais apetrechos e fui ao quarto. Tomamos o desjejum. Havia sido sua primeira noite em minha casa, não teria como saber. Atormentava-me a dúvida, não a controlei mais.


Deixa te fazer uma pergunta, como, em que instante, de que forma descobriste que eu utilizo leite em pó para pedir dele? Ela sorriu maliciosamente e neste momento, aquele meu pacato e pueril mundo começou a desmoronar. Arregalei os olhos e ela riu ainda mais. Antes de proclamar a sentença – não era bem desse que eu falava – os deuses disseram, está pago o pedágio, tua vergonha é o preço justo e definido por nós. Lembre sempre inseto mortal, nós vendemos quando damos!