quinta-feira, 24 de maio de 2012

Um Beijo


O relógio desperta, mesmo horário durante seis dias na semana. Automaticamente o corpo começa a se mover; primeiro a mão direita que trava o despertador, a mão esquerda levanta as cobertas, os pés tocam o piso ao mesmo tempo. Levanta, sai do quarto, segue direto para o banho, precisa realizar o último movimento daquele ritual. Sempre fora assim.

Estranhamente, nos últimos meses existia um novo ingrediente na receita. Sabia que havia mais um corpo repousando sobre a cama, quente, cheio de vida e de curvas generosas.  A cabeça doía, ainda estava cansado – desejava dormir mais umas quatro horas, mas não podia – reunião de projetos logo no inicio da manhã é sempre um porre – pensou.

Charlotte dormia profundamente seu sono santo. Nua sob os lençóis brancos, lhe causava um misto de contentamento e certeza. Há muito não conseguia ser quem desejava, passou noites em claro aprisionado às lembranças maldosas, buscando nas canções e nos livros de análise as explicações para sua atitude dependente de um tempo extinto.

Agora tinha certeza que no quarto repousava a resposta de suas angústias. Devia a ela toda a sorte, a possibilidade de viver em plenitude, sabendo-se ainda capaz de amar, de cultivar algo mais importante que cactos nas janelas do banheiro. Fazia mais de ano que decidira deixar Monique seguir seu caminho e desde então desejava viver exatamente daquela forma.

Conhecera-a casualmente; designado a palestrar na Universidade de Berlin a respeito do projeto de preservação da fauna do Delta do Nilo; se encantara com a estudante loira de olhos azuis da primeira fila que lhe dispensava sorrisos espontâneos. Confessou-lhe mais tarde, enquanto tomavam um café no centro da cidade que fora mais difícil concentrar-se no que havia programado expor, depois que seus olhos se encontraram. Daquele encontro até morarem juntos passaram-se dois meses.

Apenas um detalhe impedia sua total dedicação, as lembranças de Monique. Ele não queria esquecer, embora soubesse da urgência de fazê-lo. Dentro dele não havia espaço para duas pessoas. Nunca confessara essa divisão consciente que trazia em si e embora as lembranças ainda fossem vivas, a cada novo dia elas ficavam mais distantes e dolorosas, sabia que não poderia e nem devia se apegar a elas se desejasse seguir em frente.

Começou a preparar o café, três conchas de café colombiano, a quantidade exata de água para que ele não ficasse fraco assemelhando-se a água suja e nem forte tal tintura; enquanto isso abria a janela e via os raios do sol beijar os prédios, aquecendo o dia. Contemplou aquele pequeno espetáculo e deixou a mente vagar. Neste vagar tentou se castigar, buscando no recôndito de si as ferinas lembranças, quis reviver o gosto da boca de Monique, a forma como beijava, como suas línguas se encontravam e a maciez de seus lábios, porém nada encontrava nenhuma referência. Lembrava apenas destes detalhes com Charlotte.

Arregalou os olhos, compreendia bem o que estava acontecendo.  Correu em direção ao quarto, saltou sobre a cama acordando sua parceira sem nenhuma cerimônia. A olhava como os desbravadores de um novo mundo, não surgiam palavras e nem eram necessárias. Apenas um beijo – a salvação de um condenado, a chance de recomeçar, sempre e sempre, quantas vezes forem necessárias.

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