O relógio desperta, mesmo horário
durante seis dias na semana. Automaticamente o corpo começa a se mover;
primeiro a mão direita que trava o despertador, a mão esquerda levanta as
cobertas, os pés tocam o piso ao mesmo tempo. Levanta, sai do quarto, segue
direto para o banho, precisa realizar o último movimento daquele ritual. Sempre
fora assim.
Estranhamente, nos últimos meses existia um novo ingrediente na receita. Sabia que havia mais um corpo repousando sobre a
cama, quente, cheio de vida e de curvas generosas. A cabeça doía, ainda estava cansado –
desejava dormir mais umas quatro horas, mas não podia – reunião de
projetos logo no inicio da manhã é sempre um porre – pensou.
Charlotte dormia profundamente
seu sono santo. Nua sob os lençóis brancos, lhe causava um misto de
contentamento e certeza. Há muito não conseguia ser quem desejava, passou
noites em claro aprisionado às lembranças maldosas, buscando nas canções e nos
livros de análise as explicações para sua atitude dependente de um tempo
extinto.
Agora tinha certeza que no quarto
repousava a resposta de suas angústias. Devia a ela toda a sorte, a possibilidade
de viver em plenitude, sabendo-se ainda capaz de amar, de cultivar algo mais
importante que cactos nas janelas do banheiro. Fazia mais de ano que
decidira deixar Monique seguir seu caminho e desde então desejava viver
exatamente daquela forma.
Conhecera-a casualmente; designado
a palestrar na Universidade de Berlin a respeito do projeto de preservação da
fauna do Delta do Nilo; se encantara com a estudante loira de olhos azuis da
primeira fila que lhe dispensava sorrisos espontâneos. Confessou-lhe mais
tarde, enquanto tomavam um café no centro da cidade que fora mais difícil
concentrar-se no que havia programado expor, depois que seus olhos se
encontraram. Daquele encontro até morarem juntos passaram-se dois meses.
Apenas um detalhe impedia sua
total dedicação, as lembranças de Monique. Ele não queria esquecer, embora
soubesse da urgência de fazê-lo. Dentro dele não havia espaço para duas
pessoas. Nunca confessara essa divisão consciente que trazia em si e embora as
lembranças ainda fossem vivas, a cada novo dia elas ficavam mais distantes e
dolorosas, sabia que não poderia e nem devia se apegar a elas se desejasse
seguir em frente.
Começou a preparar o café, três
conchas de café colombiano, a quantidade exata de água para que ele não ficasse
fraco assemelhando-se a água suja e nem forte tal tintura; enquanto isso abria
a janela e via os raios do sol beijar os prédios, aquecendo o dia. Contemplou
aquele pequeno espetáculo e deixou a mente vagar. Neste vagar tentou se
castigar, buscando no recôndito de si as ferinas lembranças, quis reviver o
gosto da boca de Monique, a forma como beijava, como suas línguas se
encontravam e a maciez de seus lábios, porém nada encontrava nenhuma referência.
Lembrava apenas destes detalhes com Charlotte.
Arregalou os olhos, compreendia bem
o que estava acontecendo. Correu em
direção ao quarto, saltou sobre a cama acordando sua parceira sem nenhuma
cerimônia. A olhava como os desbravadores de um novo mundo, não surgiam
palavras e nem eram necessárias. Apenas um beijo – a salvação de um condenado,
a chance de recomeçar, sempre e sempre, quantas vezes forem necessárias.
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