Henry se sentia cada vez mais desprezível. Era como se toda sua vida tivesse sido reescrita por um escritor recém saído das fraldas. Os lapsos eram tão grandes, que muitas vezes se questionava se não vivia em um eterno sonho, em que as provações eram o resultado do castigo a ele imposto. Na complexidade de seus pensamentos, ainda assim se julgava injustiçado, mesmo com todas as provas que insistia em produzir contra si! Um caso patológico é como ele poderia ser classificado.
Nunca fora considerado incapaz mentalmente, possuía todas as condições de discernir entre o certo e o errado, mas mesmo assim, a força exercida sobre seus atos parecia de uma grandeza absurda, não havendo possibilidade alguma de resistência. Talvez você exatamente este ponto que lhe incomodava tanto; perceber o que deveria ser alterado de uma forma tão transparente, assemelhando-se a ingenuidade encontrada nas crianças.
Lembrava toda noite dos escritos da bíblia, os livros que expressavam suas crenças mais profundas e de onde tentava encontrar os sinais suplicados nas orações direcionadas a Deus. Nestes mergulhos teológicos, descobriu as palavras do maior perseguidor de cristãos, Saulo de Tarso lhe escrevera milhares de anos antes; que tudo na vida lhe era permitido, embora nem tudo lhe fosse igualmente lícito.
Toda vez que estas palavras ecoavam em sua mente, recordava do tempo perdido na desastrada tentativa de se transformar em quem não era. Tencionava passar a imagem de homem centrado, racional e acima de tudo extremamente sucedido, embora a verdade fosse totalmente contrária. O melhor exemplo para ilustrar esta situação seria dizer que a teoria é fácil enquanto a prática é plenamente dolorosa e complicada.
As lembranças insistiam em brotar em lufadas fortes, e o ar de Paris não lhe agradava mais, talvez fosse momento do peregrino seguir para Nice. Apesar disso, de buscar culpados, tinha a certeza que o complicador não era físico, há muito não se encontrava contente, satisfeito e apenas protelava a oportunidade da limpeza. Rasgar as velhas cartas, deletar nomes e telefones, apagar memórias e voltar. Sabia seu local, onde sua companhia era solicitada, quem se importava e lhe queria bem.
Os olhos já ardentes pelo cansaço, percorreram a estante e encontraram o antigo bloco de notas. Suas paginas surradas guardavam exatamente o que desejava ler, naquela solidão louca e alucinada, percebeu que fugia dele mesmo, do personagem criado e decidiu, era hora de engolir a soberba, voltar, porque Anne não lhe esperaria para sempre!
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