quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A Menina da Notas

            Encontramos em toda empresa que se presta, possui uma gama de funcionários característicos, que se proliferam em qualquer canto do mundo, e não seria exagero se eles criassem uma associação própria do mundo corporativo. Ele é o boy malandro que vive com fones enfiados no ouvido enquanto faz “a correria”. Há também a tia do cafezinho que faz vezes de conselheira espiritual e vidente, o vigia que conhece a estória nebulosa de todo funcionário que cruza seu caminho, os fanáticos por futebol que perdem horas produtivas com suas teorias mirabolantes sobre novas táticas que levarão seu time ao topo máximo das conquistas intercontinentais. Como esquecer o bobo da corte, aquele sujeito que conta e faz piadas (nem sempre engraçadas) com todos e tudo e logicamente o bom e intragável “Fagundes”, o personagem eternizado por Laerte, tremendo bajulador com PHD em “capachice”.
              Agora, poucas empresas contam em suas fileiras com a menina das notas! Não meus amigos, não é constatação de um tolo! Talvez você diga que em sua empresa também existe uma menina que anda de um canto para outro com um maço de notas para serem entregues aos respectivos departamentos, ok, mas essa menina específica é capaz de mudar o ambiente astral de um departamento, uma área, de um andar e quiçá de um prédio inteiro ou de uma organização global. Ela leva suspiros aos quatro cantos, faz com que os olhos pálidos ganhem viço, é como se operasse milagres indizíveis. Essa menina possui algo! Este algo é o mesmo que Martha Medeiros já sabiamente explicou, é o que a faz diferente. Somos agraciados uma vez por mês com a sua visita. Traz entre suas mãos o caderno de protocolo recheado das mais diversas notas, despesas geradas por um período intenso de produção.  A menina invade o corredor com seus olhos castanhos e passos firmes; é neste momento que se observa a transformação, desencadeia-se o processo químico, uma espécie de atração magnética, porque todas as atenções acabam se concentrando na sua direção.
          Finalmente ela se dirige para a primeira sala; o ambiente torna-se tomado por um silêncio tão profundo que juram ser possível escutar o bater de asas de mosquitos a metros dali; o suspense toma conta daqueles instantes. A menina da nota está ali, estendendo o caderno de protocolo e suas notas. Os mais experimentados recebedores de nota já ficaram sem saber o que fazer: se as recebem de cabeça baixa mostrando respeitosa reverência ou se encaram aqueles olhos redondos e expressivos e correm o risco de esquecer onde estão e se perdem em devaneios.
       Geralmente eles optam pela alternativa mais plausível, recebem o protocolo, o analisa e devolve rubricado. Ela agrade e parte para a próxima sala, não sem antes deixar a todos desorientados, passos firmes, certo e rápidos, no processo contínuo de despertar fascínio não apenas por sua beleza, mas pelo fato de sua presença possuir algo a mais!


Stelle

No firmamento desta noite há apenas uma!
Solitária, perdida sobre o manto negro que desce a Terra.
Contrasta com os milhares de pontos de luz
A iluminar a passagem apressada;
O andar constante e finito das horas.
Apenas uma – estrela perdida – luz intensa,
Restará ainda ou será apenas reflexo,
Côncavo e desconexo de uma vida,
Iludida a esperar na eterna observação,
A companhia da amante, que roga chegar!

Seletividade

              Nosso cérebro deveria ter a capacidade de ser plenamente seletivo. O Engenheiro que o projetou, esqueceu de incluir no projeto esta opção. As memórias deveriam ser classificadas, e dependendo de nosso interesse, armazenadas em um arquivo morto ou mesmo incineradas.
                Todo aquele que em um único momento da vida desejou desfazer um negócio malfadado, de alguém que magoou, de amores desfeitos, se pronuncie agora ou assine sua declaração de inocência.

VIII

Alguns sonhos escorrem pelos dedos,
Mas quando se sabe aonde chegar,
Nada importa e tão pouco existe sacrifício,
Apenas cerra-se os olhos e segue a voz,
Permita-se alçar vôo.

Direito de Resposta

                É engraçada a forma como surgem os textos, a expressão do pensamento individual que acaba muitas vezes tornando-se coletiva.    Quando escrevi que “Toda mulher é um poema, embora nem toda mereça um”, não poderia imaginar a imensidade e intensidade dos comentários.
            Sinceramente, faço coro com um meio-campista do Grêmio que sistematicamente é vaiado e criticado pela torcida – uma vaia a mais ou a menos, não me importa! Escutar e ler que a forma como escrevo ou o tema que comumente desenvolvo me transforma em um “galinha” soa tão estranho e destoante como afirmar que todos os autores que esmiuçaram sobre o regime da Alemanha no século passado são Nazi, que Dan Brown escreveu seus livros baseados em suas próprias experiências errantes e melhor ainda, que Júlio Verne perpetuou sua obra fictícia porque pôs no papel as viagens mais loucas a que se permitiu participar.
                A verdade está bem escancarada em uma frase tão batida – se você não consegue entender um sorriso, explicações de nada adiantarão. Sou quem sou; com falhas, acertos, certezas e dúvidas, me permito ser tão imperfeito que soa como uma declaração de perfeição. Escrevo o que sinto e o que invento, o que desejo e descubro aquilo que escuto e presencio, um lenitivo e combustível para os dias explosivos, mas principalmente, continuo crendo; “Toda mulher é um poema, embora nem toda mereça um”.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Henry e suas constatações!

               Henry se sentia cada vez mais desprezível. Era como se toda sua vida tivesse sido reescrita por um escritor recém saído das fraldas. Os lapsos eram tão grandes, que muitas vezes se questionava se não vivia em um eterno sonho, em que as provações eram o resultado do castigo a ele imposto. Na complexidade de seus pensamentos, ainda assim se julgava injustiçado, mesmo com todas as provas que insistia em produzir contra si! Um caso patológico é como ele poderia ser classificado.
              Nunca fora considerado incapaz mentalmente, possuía todas as condições de discernir entre o certo e o errado, mas mesmo assim, a força exercida sobre seus atos parecia de uma grandeza absurda, não havendo possibilidade alguma de resistência. Talvez você exatamente este ponto que lhe incomodava tanto; perceber o que deveria ser alterado de uma forma tão transparente, assemelhando-se a ingenuidade encontrada nas crianças.
              Lembrava toda noite dos escritos da bíblia, os livros que expressavam suas crenças mais profundas e de onde tentava encontrar os sinais suplicados nas orações direcionadas a Deus. Nestes mergulhos teológicos, descobriu as palavras do maior perseguidor de cristãos, Saulo de Tarso lhe escrevera milhares de anos antes; que tudo na vida lhe era permitido, embora nem tudo lhe fosse igualmente lícito.
           Toda vez que estas palavras ecoavam em sua mente, recordava do tempo perdido na desastrada tentativa de se transformar em quem não era. Tencionava passar a imagem de homem centrado, racional e acima de tudo extremamente sucedido, embora a verdade fosse totalmente contrária.  O melhor exemplo para ilustrar esta situação seria dizer que a teoria é fácil enquanto a prática é plenamente dolorosa e complicada.
            As lembranças insistiam em brotar em lufadas fortes, e o ar de Paris não lhe agradava mais, talvez fosse momento do peregrino seguir para Nice.  Apesar disso, de buscar culpados, tinha a certeza que o complicador não era físico, há muito não se encontrava contente, satisfeito e apenas protelava a oportunidade da limpeza. Rasgar as velhas cartas, deletar nomes e telefones, apagar memórias e voltar.  Sabia seu local, onde sua companhia era solicitada, quem se importava e lhe queria bem.
            Os olhos já ardentes pelo cansaço, percorreram a estante e encontraram o antigo bloco de notas. Suas paginas surradas guardavam exatamente o que desejava ler, naquela solidão louca e alucinada, percebeu que fugia dele mesmo, do personagem criado e decidiu, era hora de engolir a soberba, voltar, porque Anne não lhe esperaria  para sempre!

Tá combinado!

Vamos combinar, e se assim for feito, nada de quebrar o trato.
E se alguém, esquecer, não há problema, basta rever a folha,
Mas se assim mesmo, ainda for insuficiente, é muito simples,
Só precisa falar a palavra que abre todas as portas: por favor!

XXVII

E mesmo navegando em direção do desconhecido,
Sabendo suicidamente que o caminho está errado,
A insistência presente, espécie de verdade inabalável,
Na última tentativa de corrigir o percurso,
Levar as crianças para casa, tomar uma dose extra de juízo,
Encontrar de braços abertos o porto desejado,
Sem solidão, dor ou saudades, apenas o horizonte,
Emoldurando o sol que surge rubro,
Cor de sangue, prenúncio de dias quentes,
E dos amores eternos, onde não será preciso partir!

Pessoas


Simplesmente não adianta, por mais que venhas a fazer,
Em algum momento perceberá que as pessoas não se importam.
Pelo simples fato de ser exatamente isto: pessoas. 

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Toda mulher é um poema...

Um dia os homens compreenderão,
Toda mulher é um poema,
e assim deve ser desvendada,
lentamente, apreciada plenamente,
de forma dedicada e atemporal.
Porque os poemas, são as mais puras,
talvez as verdadeiras manifestações,
brotam inesperadamente da alma,
iguais às rajadas de vento,
provas da entrega do poeta.
Neste dia, e somente neste dia,
O homem perceberá :
Toda mulher é um poema,
embora nem toda mereça um!

"Nossa infância esquecida"

A melhor maneira de compreender o que nos dizem, é enfrentar semelhante situação. Tantas vezes ficava imaginando o porque as pessoas mais velhas falavam com uma nostalgia totalmente percebida sobre suas infâncias. Era algo inconcebível a quem na época estava lutando incessantemente para deixar de ser visto como criança.
Passadas algumas décadas, compreendi exatamente o que diziam. Quando vejo as crianças brincando despreocupadamente, criando heróis e amigos imaginários ou reais, sem ter nenhuma preocupação mais latente; quando as crianças tomadas de sua ingenuidade lançam pérolas que nos conduzem ao riso frouxo, sei o porque os adultos diziam: "Que tempo bom esse!"
Nestes dias, praticamente fui atropelado por um menino de no máximo seis anos que se dirigia apressado à tabacaria do Shopping. Levava apertada na mão, uma nota de R$ 10 que mostrou ao atendente com a pergunta que todos fizeram em algum momento - "moço com esse dinheiro eu consigo comprar quantos pacotes de figurinhas?"
Ah! Naquele momento viajei no tempo e me vi fazendo o mesmo, e tive saudades daquele moleque que ainda guardava a ingenuidade dentro de si, e retornando para quem ele se transformou, lembrei de Casemiro de Abreu que brilhantemente, no poema << Meus Oito Anos >>, presenteou-nos com os seguintes versos: "Oh que saudades eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais..."

San Francisco

O grande enigma da vida;
não é o momento de passagem
tão desconhecido e temido,
O verdadeiro questionamento,
deveria ser a insistência em viver,
de forma que ao final,
Assemelhe-se como não ter vivido!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Coração Partido

Não esmague entre teus dedos,
o coração que ainda pulsa tomado de amor,
Ele poderá ficar de um tamanho tão diminuto, 
passível de ser guardado na niqueleira,
assim, para nada servirá, 
a não ser como um peso de papel, 
atirado sobre uma mesa empoeirada!

Vozinha

                Dona Mafalda andava apressada, tirava as fornadas de empadas,
                Recheadas não apenas com frango ou presunto,
                Traziam misturadas, a dedicação própria das avós afortunadas,
                Preocupadas em deseducar, de forma responsável,
                As meninas de seus olhos, os diamantes mais preciosos,
                Deixados em suas mãos em uma noite qualquer de Outono.

Próximo Sábado

Já que não sei a resposta para tua pergunta, 
deixa apenas olhar as páginas desenhadas, 
talvez encontre nelas, entre um rabisco e outro
 o mapa que conduza àquela estrada perdida, 
capaz de fazer os sonhos acontecerem!

Jogo

Um jogo de tolerância, em que a paz caía de joelhos a cada batalha tenebrosa, com os efeitos da guerra interna, percebidos em instantes de humanidade.  

Carta ao Mar

Decidi escrever esta carta e lançá-la ao mar, 
na esperança torta que em algum momento, 
ela chegue às mãos que mais precisam 
de conselhos sem sentido. 
Nestas caminhadas incessantes 
pelos percursos da vida,
 tive em minha frente os mais breves ensinamentos 
e talvez as mais permanentes visões. 
Partindo dos grandes beijos ou das solidões lacerantes 
enfrentadas em terrenos distantes, 
me ergui na esperança de encontrar um ar mais puro, 
capaz de transformar o mar em terra e a terra em céu, 
onde o tempo não existisse.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Volta

Só quero minha vida de volta;
Voltar para casa e acreditar no sol de todo amanhecer,
Que os milagres estão espalhados nos exemplos,
Que papéis podem significar menos que sentimentos,

Podemos seguir as flores pelo caminho,
Desenhadas em tardes de abril,
Sem ter muito para dizer, apenas colher,
Os sinais que pedimos a cada minuto,

Só quero minha vida de volta;
Voltar para casa e acreditar no sol de todo amanhecer,
Que os milagres estão espalhados nos exemplos,
Que papéis podem significar menos que sentimentos,

Chamar seu nome sem aflição e percorrer,
O corpo todo em perdição, tendo a alma entregue,
Sem olhar para relógios e nem inventar desculpas,
Apenas com a intensidade de testemunha.

Só quero minha vida de volta;
Voltar para casa e acreditar no sol de todo amanhecer,
Que os milagres estão espalhados nos exemplos,
Que papéis podem significar menos que sentimentos,

Acordar deste torpor, deixar as lembranças retornarem,
E a razão tomar as rédeas do jogo possibilita
Flertar com os sonhos, e talvez seja a única,
A mais lúcida forma de descobrir o que se deseja!