Existia algo a lhe importunar o pensamento, o livro de ilusões não possuía mais as páginas encardidas pintadas com tinta tão fraca que mal se podiam distinguir os tipos impressos. As letras embaralhadas lembravam cartas repousadas nas mesas de crupiês bem treinados. Olhava com suas esmeraldas para o telefone repousado na cama; sabia sim a procedência de sua inquietude. Não saia do quarto a dois dias, mantendo-se em profunda e comovente vigília; a esperança de escutar a campainha do aparelho soar parecia ser a última tábua disponível naqueles árduos tempos. Por mais que tentasse desviar sua atenção, o fato mostrava-se inegável, vivia uma época de tortura comparável a da Santa inquisição.
Almejava apenas escutar um alô desinteressado em suas manhãs de segunda. Fazia-lhe tanta falta um entendimento pleno das intenções dele. Chorava de saudade como de vergonha. Aquele amor que ela conduzira como precioso estandarte havia reduzido-se a pó; uma pequena e quase imperceptível lembrança trazia os momentos plenos e jaziam todos os desacertos. Mesmo insistindo, eles assemelhavam-se a mentiras espalhadas pelo vento. Desejava apenas um pouco de atenção. Queria sentir uma força a lhe impulsionar, esquecer que um dia seu coração fora solo fértil, servira de abrigo a quem nunca o merecera.
Tomou coragem; sentou-se, olhando friamente para o espelho não reconhecia seu reflexo, sua essência desaparecera. Apaixonada por línguas gritou: enought, è finito! Enxugou suas lágrimas. Respirou fundo e antes de tomar qualquer decisão, cerrou as pálpebras, lembrava das palavras ecoadas em seu pensamento: “encontrarás alguém que te ame com uma plenitude única, ele será capaz de transformar teus mais nublosos dias em tardes de primavera, te levará aos céus com um simples toque de lábios e assim, serás livre dessa criminosa paixão”.
Forçou o cenho, uma careta se fez notar; porque ao tentar trazê-lo para o papel deste homem, percebeu o quanto a resposta de suas inquietantes indagações estava a sua frente. Ele não se enquadrava mais naquele cenário; era um fantasma a atormentar sua existência, chegara o momento do exorcismo. Não podia mais recusar! Abriu os olhos e finalmente saiu do quarto, caminhou apressada pelo corredor ganhando o jardim. A pulsação traduzia o estado de seu coração, e tal ano atrás, encarou aquele paciente conquistador e sem perder tempo o flecha com seu sonho real: “onde você estava? Há um mundo inteiro para descobrirmos!”
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