segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Nem tudo é o que parece ser.

Reencontrei a velha paixão. E paixão meus caros amigos é um fogo que arde de maneira intempestiva, animalesca e intuitiva. Fazia por minhas contas esparsas, uns treze anos, talvez um pouco mais ou menos, que não nos encontrávamos. 

Foi instantâneo, todas as aventuras, decepções de juventude e conquistas de causar inveja aos garotos da rua, voltaram, igual um cruzado no queixo. Me vi arrebatado. Aquela antiga paixão, de dias longos, vividos despreocupadamente em cada encontro estava de volta. 


Não tive, fraco que sou, como resistir. Passei sobre meus princípios e a meia idade que insistem em colocar freios aos instintos mais primitivos e voltei a ser um destemido apaixonado.

A primeira vez depois de tantos anos foi um fiasco total. Minhas mãos tremiam, não conseguia imprimir o ritmo certo, errava a intensidade das penetrações e a força empregada no ato. Foi realmente um fracasso, vergonha alheia e mesmo sem pedir, me deu novas chances.

Entendeu que longos anos de ausência e a falta de prática, deixam marcas no homem. Ela continuava martelando, provocando e me fez insistir e como consequência, não esmoreci mais. Foquei no que era importante, voltei a ler os sinais deixados sobre a mesa e compreendi que aquilo tudo estava adormecido, escondido em uma prateleira de armário. Eu sabia exatamente o que fazer e como executar os movimentos perfeitos.

Por ela, esta paixão louca e até desenfreada, igual a cantada por Cazuza, encontrei confrades que também a viviam. Compartilhavam do mesmo sentimento, de entrega sem pudor e vergonha àqueles prazeres momentâneos de puro êxtase e satisfação. Ela seduziu a todos, sem se importar, um minuto com a idade, experiência e aparências.

Assim como toda a paixão que se preza, me fez gastar os minguados trocados não consumidos pela inflação. Nosso encontro era quinzenal, depois passou a ser semanal e por fim, quase diário. Sempre regado com uma novidade de cor e tamanho satisfatório.

E sim, é verdade aquilo que diz o senso comum, homens não conseguem viver uma paixão sem serem descobertos. Minha mulher me descobriu em flagrante delito.

Para minha surpresa não fez escândalo, não gritou e tão pouco esperneou. Deixou de lado as perguntas clichês. Olhou com ternura e entendimento, da forma que somente seres evoluídos são capazes. Foi compreensiva ao afirmar - quem sou eu para te impor algo. Ela chegou antes de mim. Vai viver estes momentos e volta para casa!

E assim, dessa forma tempestuosa, com mil lembranças explodindo na memória e no peito, que repouso, por vez, sobre a mesa, dez objetos, distintos com o brasão e minhas cores.

Naquele momento conectam o presente com a adolescência já distante e afloram em mim o personagem escondido, o professor, o estrategista, o cérebro por trás da ficha, o comandante do esquadrão e torna-se inegável ainda mais a paixão pelo futebol de mesa, onde a camaradagem sobrevive apesar das peleias detalhadamente estudadas e disputadas.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Sobre Aniversários


Sou um sujeito que prefere delegar a um segundo plano a própria contagem de tempo. Deixei de me importar com esta convenção social, principalmente depois que rompi a barreira dos trinta anos. Tudo muito simples e prático. Talvez por isso esqueça aniversários com uma facilidade insuperável. Sério. Preciso fazer ligações entre pessoas e suas datas comemorativas, sejam de chegada ou partida. Meu cérebro realiza um esforço hercúleo para me lembrar de enviar uma mensagem, telefonar ou comprar um presente. 

Juro que tentei vários recursos para não parecer um frio e insensível ser humano, afinal, as demais pessoas que convivem comigo, necessariamente não comungam do mesmo pensamento e deficiência. Anotei as datas em agendas repousadas e perdidas em gavetas mil. Inseri os dados na agenda eletrônica, mas não a consultava e quando a buscava, estava sem bateria. Uma rede social parecia ser a solução, mas se tornou tão cansativa que pouco a utilizo. E assim vamos indo, um pouco a cada dia. 

Pode parecer incrível, mas me interesso tanto pelo assunto que fui pesquisar na rede mundial de computadores a origem etimológica de aniversário e descobri que surge da expressão latina anniversarius, formada a partir da junção de annus, que significa “ano” e versus ou vertere, traduzida por “voltar”, “regressar” e quer dizer “o que volta anualmente”. Alguns etimologistas defendem outra versão, em que a verdadeira origem estaria no latim anno conversus, que também expressa “o que volta todo ano”. E mesmo assim, com essa repetição esqueço. 

Durante o sagrado ano de 2018 ao felicitar uma das raras pessoas que não precisei inserir no intrincado sistema de recordação “aniversarial”, questionei como ela se sentia abrindo a contagem para a chegada de uma idade cheia, inauguração de nova década. Ficou surpresa por eu saber exatamente a idade que faria, afirmando que nem o próprio pai sabia com exatidão sua idade. Simples e elementar meu caro Watson, sem delongas e rodeios. 

Naquele mesmo dia acessei uma memória arquivada há muito tempo, em que escutei, de uma jovem em busca da iluminação espiritual, que o ano inicial de cada década serve como uma tela em branco em que você vai planejando os passos que serão executados nos próximos nove anos. Penso ser um projeto ambicioso demais, porém alguns conseguem com precisão cirúrgica. 

Pois então, essa criatura que felicitei é uma delas e iniciará um novo caminho com mais sabedoria do que quando a conheci, capaz de se reinventar inúmeras vezes, queimar e renascer como a Fênix, planejar os próximos passos com esmero, ser atenta aos detalhes de seu mundo mesmo estando ausente dele, tocar almas, liderar pelo exemplo, ser companhia distante, ensinar e aprender com o mesmo entusiasmo e ainda trazer o melhor e o pior de si, ser brisa e tempestade, vidraça e pedra, assim como todos nós, imperfeitos deuses. Sendo assim, só me resta pedir que Hator sempre lhe acompanhe, Cronos seja generoso, Bragi lhe ilumine e Frey não lhe abandone. Que seja assim, como era no principio, agora e para toda a eternidade.


Estrelinhas na praia

A vida é roleta, roda gigante e montanha russa. 
Muda, gira, transpira e pira, 
de forma consciente ou inconsciente, 
a vida é piração.
Pira quem fica parado, 
não transforma vinho em água, 
aquele que não suspira pela alma 
e nem toma café pela manhã.
A vida é transformar, virar de ponta cabeça 
a forma de enxergar o sol a beijar as ondas do mar. 
É fazer traquinagem, molecagem as onze pra qualquer hora, 
é conectar os fios da memória 
e traçar o caminho seguro para qualquer lugar

Pequenos desejos

Te observo assim, sem nenhum pudor, pois quem deseja, deve lhe dispensar.

E sem nada a temer, pego no teu pé, pequeno e magro, olhando para a unha cortada, quadrada e cuidada do dedo maior.

Abraçam-lhe minhas mãos que percorrem sua extensão, chegando ao calcanhar hidratado.

Beijo a parte baixa de tua perna, enquanto sem pudor mas com devassidão, encaro teus olhos entregues ao mesmo desejo.

As mãos sobem, passam pelo joelho, meio caminho do paraíso e percorrem um pouco mais a maratona que percorre tua coxa, desenhada, macia, desejada, amada.

Chega - diz sem convicção, puxando a mão para descobrir teus climas e temperaturas. Fica aí, mais rápido, menos pressão, saia e entre, nesse ritmo de noite enluarada.

Mão teimosa, não para quieta, sem merecer castigo, transpassa hemisférios, trópicos e afins, repousa na maciez destas nádegas tão minhas, tão suas, tão nossas.

Me prendo, não solto. Se largo não retorno, se retorno me estanco e há muito a que desbravar.

A boca beija a barriga, lambe o umbigo e chega aos seios que se apresentam, como a fonte do mel, do néctar da perdição e origem dos suspiros mais lânguidos do quarto.

Beijo a boca, mergulho nela como se o fundo não pudesse ser atingido, línguas que se tocam, corpos que já se misturam e se fundem, sem pressa e nem tempo.

Melhor parar de ler Vinícius, o poetinha da paixão, que me faz querer escrever de tudo e mais um pouco, para que leia depois do adormecer.

O amor é chama

O amor é chama,
Contentamento descontente,
E tantas outras definições,
Ditas por inúmeros enamorados,
Desiludidos ou iludidos,
Estes que vieram antes de ti e de mim,
Que transgrediram e arriscaram,
Respiraram e consumiram,
O amor da noite, sacro e pago,
Amor em essência, falta.
Amor em profusão é quimera,
E pior do que ter amado,
Sem receber de volta,
É nunca ter amado e ter sido amado,
Amor, quatro letras,
Duas vogais e duas consoantes,
Intercaladas e agrupadas,
Para definir aquele vazio do peito,
E a ausência da alma.

Forma Poética

O que seria uma forma poética? 
Diria eu, que a poesia vive em tudo, 
basta termos olhos de enxergar! 
O bom dia dado com interesse,é poesia. 
Uma foto nua, tem poesia. 
Mandar uma mensagem deitada na cama 
é repleta de poesia,
banhar-se usando uma fruta 
é poesia, poema e prosa. 
Viver é poesia e és um poema inteiro 
que chega até mim, todo o glorioso e santo dia!