A estrada parece mais longa, talvez nestes caminhos de entradas e retornos, um casal tenha redesenhado o trajeto. Seriam apenas boas recordações o querer misterioso, as músicas cantadas em tom baixo, que fazem moradia em lugares que nunca poderá se explicar. Você ainda estaria retratada na melodia mais suave e mesmo sem poder acompanhar, um pedaço do sol mostraria nosso destino.
Seja bem vindo, aqui compartilho um pouco de "minha Obra", meus pensamentos, os personagens reais e imaginários tomados de dúvidas, crônicas, poemas banais e a forma como enxergo o mundo.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Reter
Ela chegou e retirou um pedaço do coração do pobre infeliz, agora na despedida, levará de soslaio um caminhão de paixão e a eterna fotografia, enraizada no fértil terreno da saudade.
Mare del Nord
Os olhos brilham, enquanto surge, vagarosamente a vida sobre os campos.
Milagre da eternidade, é só observar a face complacente para tudo compreender.
Antigas casas, milhares de estórias determinando que os sonhos voem.
É a verdade perturbadora, retira tudo dos bolsos e atira homens ao mar do Norte.
Noites Infinitas
Quando conheci o livro dourado do saber, não me interessei pelo conteúdo. Acreditava não existirem mudanças profundas dentro do ser, que todas as estradas poderiam ser de sonhos, e em cada pegada deixada pelo caminho construíamos um pouco de nosso legado.
E se assim fosse, qual a vantagem de possuir o conhecimento contido em páginas emboloradas? Esqueci que ao meu lado só contaria com o gelado coração; em lutas maiores onde a lua escondia-se por entre nuvens escuras, fazia-me falta.
As escolhas forjadas pelo aço quente da espada pesam tanto, são companhia nestes tempos de viagens longas, onde o bater de palmas e a perturbadora unanimidade que flui de lábios pelo caminho são cantos líricos que não cesso de escutar.
Uma travessa qualquer
Estes lugares tão semelhantes entre si, com flores caídas e portas desenhadas, lembram um tanto do lugar de onde vim. As venezianas abertas, com matronas debruçadas que com olhar opaco observam tudo a sua volta, parecem tiradas das telas daquele pintor desconhecido.
Leningrado
Sem vingança, atravessa o mar de lama, pergunta-se o que faz ali. As sensações desaparecem com a mesma intensidade que surgem, idênticas as canções entoadas no meio da madrugada, salões vermelhos, intensidade única, ecos profundos vindos dos vales, consumindo os sonhos livres que encontram sempre iguais, na pequena prece erguida por entre tanques e metal.
Pedaços no Jardim
As mesmas árvores estão sob o céu azul e dia após dia nada adianta, as lágrimas não molham mais a terra seca. O mundo gira em sua mão e por mais esperto, sempre comete os mesmos equívocos. Bate nas mesmas portas, buscando a carta encerrada na garrafa.
Imagina como uma sentença de prisão pode livrar uma vida, se as danças e os sorrisos são vistos através da cortina do tempo, sem pressa, sem vida, sem morte!
segunda-feira, 24 de maio de 2010
3x4
Chega mais perto, não tenha medo. Há tanto pra falar e nem sei por onde começar. Em que estação do trem meu caminho foi desviado. No piscar dos olhos, podemos conduzir uma cadeira de rodas em outro deitar na varanda da casa de praia. É tão rápido; o tempo corre deixando extremamente sem graça, sem ter as respostas certas, para as perguntas erradas, enquanto o amor dá seus últimos suspiros noturnos.
E apesar da polca que toca no radio, não movo os pés nos salões da vida; o soluço abafado entre os arfares é a segunda voz da canção triste, enquanto o frio bate na porta pesada. Subir rápido os degraus não me impede de continuar escutando a sinfonia estranha, metal contra o chão, sonhos deixados no balanço do jardim.
Gira a cabeça e as memórias já não se restringem aos espaços apertados, trancafiadas em jarros de ouro espalhados pela cidade que insistem em não dormir. Esticam-se com seus braços repletos de ventosas, instalando em cada poro um pouco de si, vírus que invade, percorre cada lembrança tua em mim.
Vidros quebrados, espelhos partidos, reflexos invertidos nas fronteiras de teus braços, por mais que viaje pelos campos infinitos, sempre é em ti que me encontro, nos “recuerdos” e na contagem dos anos que insistem em voar rumo ao infinito.
Tão pequeno, repleto d’alegria juvenil, independente do sol que se esconde por entre morros, beijando cada veio, esculturando as fontes límpidas que correm para desaguar no mar. Navego sem medo, sem compassos ou bussolas, sem partilhas, sem batidas soltas nas viagens do passado, sinais de tempo bom, gaivotas no horizonte, pedidos de beijos e sonhos perdidos nas primeiras manhãs de abril.