quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A Casa de Noel

Entre todas as datas comemorativas, existentes no calendário ocidental, nenhuma é mais apreciada por mim que o Natal. Muito além que a comemoração cristã que reverencia a data como a do nascimento de Cristo, ela é uma data mística. O período em que as pessoas, de um modo geral, se tornam mais receptivas às boas vibrações que emanam por todos os cantos, acabam sendo ungidas pelo espírito de renovação e do amor desinteressado ao próximo. 

O aniversariante do dia é altruísta e permitiu que uma figura ocupasse mais espaço nas comemorações, e esta posição ficou cada vez mais marcante a partir da ação de uma grande corporação de bebidas gasosas, que lançou a imagem do Papai Noel, criado pelo artista Fred Miren em 1930 em seus reclames. A figura do bom velhinho bonachão começou a invadir o imaginário coletivo de todas as crianças ao redor do mundo, geração após geração, mantendo firme e viva essa tradição. Era fato, na noite de Natal ele visitaria a casa das crianças comportadas e bem educadas. 

Recordo como eram alegres e tomadas de ansiedade as noites em que esperava a chegada do Bom Velhinho, trazendo os presentes pedidos. Incrível como ele conseguia entregar as encomendas e visitar todas as casas, sem fazer confusão alguma. Ele sempre trazia os mimos que foram pedidos através das cartas escritas com a letra infantil, alicerçada pela inocência própria da idade. Realizando uma rápida e imparcial retrospectiva, chego à conclusão que fui uma criança comportada, um privilegiado garoto de classe média brasileira dos anos 80. 

Sinceramente, desconheço a data ou circunstância que me fez descobrir que a história possuía duas versões. Isso nunca me importou, pois sempre acreditei que existem, convivendo harmoniosamente em nosso íntimo, deuses, demônios, seres místicos, o passado, presente, futuro e lógico o Papai Noel. 

Versões afirmam que o personagem em questão foi inspirado em São Nicolau, santo da igreja católica que viveu por volta de 300 d.C. Filho de pais nobres e ricos acabou doando sua grande herança para os pobres, sendo reconhecido pelas gerações futuras como a personificação do homem bondoso. Extra oficialmente preciso confessar a vocês, a identidade secreta de Noel é outra. Não se espante, afinal, no dia a dia, todo heróis se preserva de alguma maneira. Batman era Bruce Wayne, Superman era Clark Kent. O Papai Noel que conheci, atendia pelo singelo nome de “seu” Orlando. Pasmem, ele pisou neste solo sagrado de Porto Alegre por muitos anos! 

Simples assim! “Seu” Orlando levava uma vida discreta fora da época natalina. Encontrava-o toda manhã quando saia para meu lavoro, estava ele se colocando em forma, passeando na rua do condomínio em que éramos vizinhos, conversando com os vizinhos, mantendo insuspeita sua identidade secreta. Os distraídos não conseguiam perceber o quanto de magia, ilusão e encantamento ele distribuía ao vestir seu uniforme rubro! Os bons, sempre fazem diferença no mundo e a vida continuou assim, até um dia em que Noel alçou novos mundos, sendo visto, agora, com os olhos da alma. 

Passaram alguns anos e numa noite próxima do Natal de um ano esquecido, falava com uma amiga que é Belly Dancer no Oriente Médio sobre a importância e influência dos avós na infância. Comentei que não saberia dimensionar esta herança, pois não tive a oportunidade de conviver com os meus, falecidos anos antes de meus nascimento. Após dizer isto, ela comentou que era uma garota de muita sorte, grata por ter dito um avô fabuloso e que ele era ninguém mais, ninguém menos que o Papai Noel. O Noel, o bondoso “seu” Orlando de Porto Alegre! Acreditem, esse mundo é pequeno, e como sentenciou Stephen Hawking, o universo cabe em uma casca de noz. 

Percebi naquele exato momento a importância do exemplo deixado, a inspiração indireta que ecoa mesmo depois de findar a contagem de tempo terrena. Hoje, “seu” Orlando continua levando alegria na época de Natal para milhares de crianças que vivem em um céu azul de nuvens feitas de algodão doce, agradecendo com palmas, abraços e beijos os presentes recebidos, enquanto sua chama vive no coração e alma da neta, impulsionando-a seguir em frente, servindo de combustível para que ela nos encante com sua arte milenar tão bem executada, algo que somente os descendentes da casa de Noel são capazes de fazer.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Moça bonita

Ela é moça bonita
Daquelas que se encontram
Se procurar bem e sem preguiça
Somente nos sonhos pesados,
Do tipo que surgem na madrugada

Ela é moça bonita
E de tão bela percebe,
Se parecer com o mar revolto,
Que a onda quebra na areia
A beijar seus pés inteiros

Ela é moça bonita
Que não faz a mínima ideia,
Do meu (en)canto e admiração
Daquele desejo e da vontade
De escrever e cantar em versos...

Ela é moça bonita
Aquela que não beijarei,
Tão pouco pegarei na mão,
Pois atrasado cheguei,
Enquanto ela partia do sonho meu.

Sonho meu

Inegavelmente ela era o que os bagaceiros de plantão chamariam de “falsa magra”. Era a atenção de olhos treinados que a miravam enquanto mexia os quadris indo de um lado para o outro na repartição. O velho olhou aquele monumento e o corpo desenhado lhe fez estremecer, se havia algo que ele tinha certeza é que havia muito a descobrir por baixo daqueles tecidos e assim começou a esboçar seu plano pecaminoso. 

A todo instante passava por sua mesa e pedia mirabolantes e estapafúrdias tarefas. Tudo para marcar sua presença, se tornar presente e se fazer lembrar. Cada pedido vinha acompanhado de um galanteio canalha e convite para o happy hour com a turma. 

O único inconveniente é que ela parecia um atacante atrevido escapando da marcação dos zagueiros toscos do interior. Escapava sempre pela tangente, largava uma desculpa aqui e outra ali. Sempre aparecia um compromisso inadiável, uma reunião extra ou qualquer outra ação que exigia sua atenção. Apesar de todos estes sinais, ele ainda se mantinha esperançoso. Afinal, era brasileiro e não desistia jamais! 

Sempre a mesma rotina, até a manhã de uma quinta-feira qualquer, quando ela lhe chamou para perto com um aceno de mão. Aceitaria, após o milésimo convite, sair com a turma. Combinaram de se encontrarem perto do bar. Canalha que era não perderia a oportunidade de chegar junto com aquele troféu e causar inveja aos outros mequetrefes da repartição. 

Exatamente no horário combinado ela surgiu linda e sexy como sempre. A blusa justa deixava à mostra a barriga chapada e acentuava o contorno dos seios, a calça preta de cintura alta e fechecler frontal, tudo prometia sem nada entregar, além da perfeição das nádegas voluptuosas. Ele babou, saiu do ar por segundos, a quis em seus braços naquele exato momento. Transportá-la para onde pudesse jogar aquelas roupas em um canto qualquer e descobrir cada sinal seu. Massageá-la com óleo de amêndoas, beijar muito e amar ainda mais. Porém era paciente, não queimaria nenhuma etapa naquela noite. 

A turma recebeu a nova participante muito bem, afinal, sempre era gentil e graciosa e não havia quem não apreciasse sua companhia. Conquistava rapidamente a atenção de todos com sua desenvoltura, sempre participando com coerência das conversas nascidas na mesa. 

Porém, passada as dez badaladas noturnas, seu comportamento se alterou. Começou a ficar agressiva igual às tormentas tropicais. Uma fera selvagem! Cada frase que o velho dizia, ela contrariava; uma palavra mal colocada era contestada e corrigida sem nenhuma cerimônia. O clima ficou pesado e havia apenas uma solução aparente, um único expediente a ser tomado. 

Pessoal, estamos indo embora. Nossa amiga está ficando cansada. Obrigado pela excelente noite! Não se preocupem a deixarei em casa. Largou a decisão e o convite indireto, acreditando que ela não aceitaria, mas para sua surpresa, aceitou. 

Entraram no carro dele e sem rodeios, perguntou o que tinha acontecido para ela mudar da água para o vinho. Não houve resposta. Ela olhava fixamente dentro de seus olhos, conseguindo lhe deixar desconfortável. Pensou rápido e conclui que aquele era o momento de mandar a paciência da noite se danar. 

Puxou-a para perto dele, escorregou a mão pela barriga lisa, abriu o fechecler e deslizou para dentro dela, não encontrando no tato nada que o detivesse ou raspasse os dedos. Ela continuava com o olhar desafiador. O pobre velho não aguentou mais, cerrou os olhos e buscou aquela boca desenhada, a língua a invadiu pela primeira vez, porém encontrou aspereza e imobilidade. Abriu os olhos e não acreditou, ainda estava deitado em seu quarto, enroscado e beijando babados travesseiros de sua cama.

Apenas palavras

Não entenda mal, em alguns casos as palavras simplesmente nascem atravessadas, um sinal que foram paridas com uma velocidade absurda, sem terem passado pelo crivo ou orientação da razão. 

Palavras soltas desta maneira possuem uma forte possibilidade de criar uma atmosfera única de prazer e constrangimento, amor e rancor, admiração e frustração. Trazem em sua gestação espontânea um misticismo inexplicável, principalmente quando são analisadas à luz dos sinais corpóreos. 

São o fogo escondido dos Deuses, a filosofia dos comuns, uma espécie de senha que conduz do nada para o lugar nenhum. Uma blusa vermelha jogada no canto do quarto, sapatos esquecidos na sala e largados despretensiosamente em perfeita harmonia com a lingerie no corredor. 

Palavras refletidas, pensadas com exaustão são o combustível necessário para viagens mais intensas e profundas. Conduzem os desavisados aos confins do paraíso, com as bênçãos dos antigos que caminharam entre nós. Podem ser o amontoado de pensamentos ágeis ou lerdos, fazer sentido igual às antigas escrituras ou nada dizer, tal estas linhas.

Reflexão

Ontem a tarde, despretensiosamente me deparei com um pensamento simples e de tão simplório se tornou incrivelmente necessário - nunca desista de algo que você não consegue passar um dia sem pensar. Pergunto ingenuamente, em quantos deverei me dividir para conquistar tantas almas espalhadas?

Lembrança

"Tua presença se tornou lembrança
um foto jogada no fundo da gaveta,
amarelada pelo inclemente tempo e
manchada com o sal de lágrimas
que brotam dos olhos meus".

Solo

"Pisei no solo sagrado de teus sonhos e mudei.
Transformei aquela ilusão infantil
em certeza inconstante,
talvez por ter descoberto,
a quintessência do que são feitas
as nuvens de teu céu".

Reclame

Reclame e reclame um pouco mais,
nada alegra tanto o ser humano médio,
que perceber o quanto existe
de números piores que ele.

Pobre rima

Não sei rimar,
desaprendi na escola,
como banhar-me no mar,
e nela, nas provas, colar.