Entre todas as datas comemorativas, existentes no calendário ocidental, nenhuma é mais apreciada por mim que o Natal. Muito além que a comemoração cristã que reverencia a data como a do nascimento de Cristo, ela é uma data mística. O período em que as pessoas, de um modo geral, se tornam mais receptivas às boas vibrações que emanam por todos os cantos, acabam sendo ungidas pelo espírito de renovação e do amor desinteressado ao próximo.
O aniversariante do dia é altruísta e permitiu que uma figura ocupasse mais espaço nas comemorações, e esta posição ficou cada vez mais marcante a partir da ação de uma grande corporação de bebidas gasosas, que lançou a imagem do Papai Noel, criado pelo artista Fred Miren em 1930 em seus reclames. A figura do bom velhinho bonachão começou a invadir o imaginário coletivo de todas as crianças ao redor do mundo, geração após geração, mantendo firme e viva essa tradição. Era fato, na noite de Natal ele visitaria a casa das crianças comportadas e bem educadas.
Recordo como eram alegres e tomadas de ansiedade as noites em que esperava a chegada do Bom Velhinho, trazendo os presentes pedidos. Incrível como ele conseguia entregar as encomendas e visitar todas as casas, sem fazer confusão alguma. Ele sempre trazia os mimos que foram pedidos através das cartas escritas com a letra infantil, alicerçada pela inocência própria da idade. Realizando uma rápida e imparcial retrospectiva, chego à conclusão que fui uma criança comportada, um privilegiado garoto de classe média brasileira dos anos 80.
Sinceramente, desconheço a data ou circunstância que me fez descobrir que a história possuía duas versões. Isso nunca me importou, pois sempre acreditei que existem, convivendo harmoniosamente em nosso íntimo, deuses, demônios, seres místicos, o passado, presente, futuro e lógico o Papai Noel.
Versões afirmam que o personagem em questão foi inspirado em São Nicolau, santo da igreja católica que viveu por volta de 300 d.C. Filho de pais nobres e ricos acabou doando sua grande herança para os pobres, sendo reconhecido pelas gerações futuras como a personificação do homem bondoso. Extra oficialmente preciso confessar a vocês, a identidade secreta de Noel é outra. Não se espante, afinal, no dia a dia, todo heróis se preserva de alguma maneira. Batman era Bruce Wayne, Superman era Clark Kent. O Papai Noel que conheci, atendia pelo singelo nome de “seu” Orlando. Pasmem, ele pisou neste solo sagrado de Porto Alegre por muitos anos!
Simples assim! “Seu” Orlando levava uma vida discreta fora da época natalina. Encontrava-o toda manhã quando saia para meu lavoro, estava ele se colocando em forma, passeando na rua do condomínio em que éramos vizinhos, conversando com os vizinhos, mantendo insuspeita sua identidade secreta. Os distraídos não conseguiam perceber o quanto de magia, ilusão e encantamento ele distribuía ao vestir seu uniforme rubro! Os bons, sempre fazem diferença no mundo e a vida continuou assim, até um dia em que Noel alçou novos mundos, sendo visto, agora, com os olhos da alma.
Passaram alguns anos e numa noite próxima do Natal de um ano esquecido, falava com uma amiga que é Belly Dancer no Oriente Médio sobre a importância e influência dos avós na infância. Comentei que não saberia dimensionar esta herança, pois não tive a oportunidade de conviver com os meus, falecidos anos antes de meus nascimento. Após dizer isto, ela comentou que era uma garota de muita sorte, grata por ter dito um avô fabuloso e que ele era ninguém mais, ninguém menos que o Papai Noel. O Noel, o bondoso “seu” Orlando de Porto Alegre! Acreditem, esse mundo é pequeno, e como sentenciou Stephen Hawking, o universo cabe em uma casca de noz.
Percebi naquele exato momento a importância do exemplo deixado, a inspiração indireta que ecoa mesmo depois de findar a contagem de tempo terrena. Hoje, “seu” Orlando continua levando alegria na época de Natal para milhares de crianças que vivem em um céu azul de nuvens feitas de algodão doce, agradecendo com palmas, abraços e beijos os presentes recebidos, enquanto sua chama vive no coração e alma da neta, impulsionando-a seguir em frente, servindo de combustível para que ela nos encante com sua arte milenar tão bem executada, algo que somente os descendentes da casa de Noel são capazes de fazer.