quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Aquilo que deveria ser falado e se fez silêncio.

Poderia ser mais uma daquelas estórias perdidas de amor impossível, no melhor estilo Paulo que ama Mariana, que ama Luiz, que ama José, que ama Ana, que se entrega toda noite para Sandra, porém era muito mais do mesmo.

Luigi sempre teve uma mente prodigiosa para guardar aqueles pequenos e imponderáveis detalhes, recorda com maestria a primeira vez que falou com Monique, como se apresentaram e o que ela desejava. Existe um ditado popular sobre a impressão inicial que se tem de alguém, a dele foi que ela era mistério e estes sempre o fascinaram.

Passaram a falar todo dia, manhã, tarde, noite e madrugada, se apaixonaram sem pressa alguma dos amores juvenis, até o dia que o inevitável aconteceu. Era uma tarde quente e o telefone tocou, do outro lado Monique com sua voz inconfundível lhe deu boa tarde e sem nenhuma cerimônia foi direta – preciso saber e me diz agora, tu largarias tudo para ficar comigo?

Seu coração disparou, ele sabia a resposta que queria e deveria conceder, a razão lhe dizia que não havia motivo algum para sofrimento, somente era necessário dizer sim. Ele hesitou, pensou mais do que deveria e sem compreender, contrariando seu desejo, disse não. Ali, naquele instante, sem perceber ou dimensionar, começou a percorrer um caminho sem volta, sua covardia, assim escancarada selou seus destinos. Sem ter noção ele abdicou do direito de escrever novos e intensos capítulos daquela história.

Ele queria tanto dizer que ela era o melhor que acontecera na sua modesta e vazia vida, a paixão mais ardente, o sexo mais intenso, um encontro de almas com prazo indeterminado para voltarem a se separar. Não conseguiu. Um dia simples, daqueles que inicia com o nascer do sol e finaliza com o surgimento da lua, Monique novamente ligou – assim não dá mais para mim, eu quero, preciso e mereço ser cuidada, me entende, me deixa ir.

Luigi não teve tempo de dizer que sentia não ter beijado Monique na ponte de pedras coloniais, que se arrependia de não ter pedido para que ela ficasse aquela noite de verão em sua casa, negou que somente ela lhe despertara a vontade de ser pai, se arrependia de não ter subido a serra para uma fugida providencial da loucura da cidade grande. Luigi percebeu que deveria tê-la abraçado mais, ter caminhado de mãos dadas na orla de Ipanema com vento contrário e água nos pés. E ela partiu, voou alto, chegou onde ninguém havia ousado ir.

Passados alguns anos, tardiamente captou toda a coragem que existia nele e a procurou. Pediu desculpa pelas vezes que foi rude e grosseiro, estava sendo sincero e desnudo como não era há tempos. Ela estava feliz, muito feliz, realizada, amada, vivendo como sempre sonhou. Ele ficara feliz, afinal quem não torce e se compraz com a realização da pessoa amada? Apesar de amá-la, ela já não caberia mais em seus braços, talvez alguma brasa voltasse a causar um incêndio e ele não suportaria decepcioná-la uma vez mais.

Naquele justo momento Luigi aprender que amar é perceber que a outra pessoa está infinitamente melhor longe que junto, e em um paradoxo, faz com que o amor não seja justo, mas esta seria apenas mais uma injustiça solta nestes caminhos da Terra de Vera Cruz.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Conexões

Hoje a noite foi quebrada,
Uma série de idas e vindas,
Adormecer e despertar,
Entre eles, sonhava com ela,
Mordia e sorvia sua lingua,
Sentia a maciez do seio alvo,
E assim com estes anseios
Acordava com o calor nababesco,
Solapado pelo concreto armado,
Olhava as paredes e nada via,
Apenas sombras disformes
Nascidas da luz que invadia o quarto,

Voltei esperançoso ao mundo de Morfeu,
A despia sem pressa alguma,
Pois a mão que acena também acaricia,
Explora, percorre caminhos e cabelos,
Beijo da boca a ponta do pé,
Sem nenhum tipo de pudor.
Ouço os pedidos sussurrados e os realizo,
Novo despertar acompanhado de estampidos,
Ah essa vida moderna e insegura.

Não passam das três da manhã e ela dorme,
Alguma outra cama lhe recebe,
Martelo a ideia, chamo pelo pensamento
Venha até aqui, pense que tudo vale a pena,
Outro adormecer e o que esperar agora?
Meias 7/8 brancas, pulseira e brincos,
Vestida assim, abre a porta e me recebe,
Sem pressa e angústia, a verdade surge,
Mesmo em noites longas e quentes,
Onde existe nos sonhos o explícito,
E só há uma forma de despertar,
Cansado!

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O Chamado

Tempos modernos trazem em sua concepção uma tediosa repetição de tarefas e, por favor, não me digam que vivo em uma sugestiva auto-sabotagem. Confesso meu desconforto com a sequência de reuniões que precisamos encarar em um dia. Precisamente hoje, neste santo dia de Agosto, em função de algumas mudanças organizacionais, foram três! A sorte é que todo ônus anda entrelaçado com o bônus e recebi em uma delas o amigo João Francisco. O Chico é um cara bem articulado, torcedor alvirrubro, apreciador de jogos da série B do campeonato nacional de futebol e jogador amador, que em sua juventude chegou a jogar com meu ex-sogro. Um bom praça com quem você fica horas conversando. 

Antes de iniciarmos a reunião ele comentou que havia lido a crônica que escrevi sobre a noite que passei com Anne Hathaway. Sim meus amiguinhos e amiguinhas, o titio já teve esta fantástica companhia. Não sabe quem ela é? Joga no Google ou dê um clique no link e saiba mais (minha-noite-com-anne). Enfim, passei a responder as curiosidades dele sobre em que momento comecei a escrever se há algum padrão de criação, enfim, no melhor sentido foi uma entrevista, a primeira e provavelmente a  única que concedi a respeito desta minha faceta.

Isso me fez pensar, colocar a massa cinzenta a trabalhar, porém não me recordei qual foi o primeiro texto guardado, mas a idade aproximada deve ter gravitado entre meus quinze ou dezesseis anos. Eram produtos infinitamente inferiores aos que hoje você tem acesso, não que tenham melhorado muito, que fique claro. Ainda produzo algumas linhas que só podem ser destinadas a gaveta do esquecimento e lá se juntam com estes primeiros trabalhos. Imagino que as palavras em conluio arquitetam a vingança diabólica, definindo o exato momento que deixarão de me auxiliar neste processo de descobertas e partilhas. Talvez seja a futura mãe de todas as batalhas, dependerá da belicosidade das palavras generais, da trilha sonora que era executada no momento em que foram concebidas e ganharam vida. Algumas nasceram do silêncio ensurdecedor das madrugadas, outras acompanhadas de clássicos e estas, agora, por exemplo, nascem abençoadas por um Jota Quest.

E para quem escrevi? O fiz para meus amores, que não foram poucos e nem tantos e sim na quantidade exata para se tornarem inesquecíveis, indeléveis e transformadores. Pode-se desejar ser mais para alguém do que esta tríade? Pode? Logicamente que falar somente de sentimentos te torna um piegas insuportável, é necessário equilibrar a dose, nem tanto ao céu e nem a terra. Para tudo nesta existência há de buscar o bom senso e este é de uma complexidade incomparável. Já produzi igual Zé Ramalho, devaneios tolos, percepções aguçadas pelo olhar do tempo, sacanagem pesada e leve, poemas pueris, desejos explícitos, a nudez e decrepitude da alma e o grito sufocado em gargantas e peitos perdidos na multidão.

Chegadas na estação mental em minutos, às vezes horas, dias, meses e anos. Não há como mensurar o tempo necessário para concatenar ideais e montar as peças. Pareço o Dr. Frankstein, na busca de vida para seu monstro, verificando que palavra melhor se encaixa na outra, se haverá ritmo ou se a narrativa se tornará enfadonha. E sim amiguinha do meu coração, não existe uma regra de bolo a ser seguida no melhor estilo – escreva com caneta preta, sobre folhas azuis, influenciado pela nesga de luz que invade teu quarto. Acredite, no exato momento em que começar a criar gatilhos produtivos, estará na hora de abandonar este ofício.

Talvez seja um autodidata que aprendeu equivocadamente a arte da escrita. Aquele que causa uma revolta no Panteão dos Mestres Escritores no momento que empunha a caneta ou dedilha apressadamente as teclas do computador do mesmo jeito desengonçado que fazia naquela Remington portátil dos anos 90. Agora a deslumbrante verdade, a claridade e salvação para os problemas da humanidade, a confissão esperada por anos – isso pode ser nada mais, nada menos que as conseqüências nefastas de um quase jornalista e sim, também já escrevi sobre isto (clique para saber mais jornalista-eu.html). Para toda ação existe uma conseqüência, as redações perderam um foca, a Administração ganhou mais um maestro e o mundo digital outro escritor da aldeia! Não consigo imaginar quem perdeu ou ganhou mais com estes tortuosos caminhos profissionais.


E isso pra dizer, que tudo vale à pena quando a alma não é pequena. Opa, Fernando Pessoa já nos presenteou com este mantra, cheguei atrasado! Bom, então o problema maior que se encontra em um momento crucial igual a este é definir a forma como encerrar um monólogo que conta com mais de 800 palavras com o mesmo clímax encontrado em seu desenvolvimento e principalmente mostrar ao Chico que tudo pode se transformar na criação de uma croniqueta, de uma pequena entrevista até uma proposta comercial, basta apenas querer e ter tempo para revisitar a oficina de criação chamada imaginação!