domingo, 27 de novembro de 2016

Um Poema para Helena

"Sou puta
Quando uso a boca vermelha
Meu salto agulha
E meu vestido preto.
Sou puta
Mordo no final do beijo
Não fico reprimindo desejo
E nem me escondo na aparência de menina.
Sou uma puta de primeira
Acordo às 6:30
Pego ônibus debaixo de chuva
Não dependo de salário de macho
E compro a pílula no final do mês.
Sou uma puta com P maiúsculo
Dispenso o compromisso
Opto pela independência
Não morro de amor
Acordo sozinha
Cresço sozinha
Vivo na minha
Bebo em um bar de esquina
Vomito no chão da cozinha.
Sou uma putinha
Passo a noite em seus braços
Mas não me prendo no laço
Que você quer me prender.
Sou puta
Você tem o meu corpo
Porque eu quis te dar
E quando essa noite acabar
Eu não vou te pertencer
E se de mim você falar
Eu não vou me importar
Porque um homem que não me faz gozar
Nunca terá meu endereço.
E não é gozo de boceta
É gozo de alma
É gozo de vida
É me fazer sentir amada
Valorizada
E merecida
E se de puta você me chamar
Eu vou agradecer.
Porque a puta aqui foi criada
Por uma puta brasileira
Que ralava pra sustentar os filhos
E sofria de racismo na feira
Foi espancada e desmerecida
E mesmo sofrida
Sorria o dia inteiro
Uma puta mulher ela foi
E puta também eu quero ser.
Porque ser mulher independente
Resolvida
Segura
Divertida
Colorida
E verdadeira
Assusta os homens
E os machos
Faz acontecer um alvoroço.
Onde já se viu mulher com voz?
Tem que ser prendada e educada
E se por acaso for "amada"
Tem direito de ser morta pelo parceiro
Cachorra adestrada pelo povo brasileiro
Sai pelada na revista
Excita
Dança
Bate uma
Cai de boca
Mama ele e os amigos
E depois vai ser encontrada num bueiro
Num beco
Estuprada
Porque tava de batom vermelho
Tava pedindo
Foi merecido
E se foi crime "passional"
Pobre do rapaz
Apaixonado estragou a própria vida.
Por isso que eu sou puta
Porque sou forte
Sou guerreira
Não sou reprimida
Nem calada
Sou feminista
Sou revoltada
Indignada
E sou rotulada assim
Como PUTA!
Então que eu seja puta
E não menos do que isso."

-Helena Ferreira.

Imagem: Apollonia Saintclair.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Chatos Digitais


Tenho que concordar parcialmente com o escritor italiano Umberto Eco que declarou certa vez que as redes sociais deram voz aos idiotas. Não só as redes sociais, mas os aplicativos de comunicação instantânea, permitiram que os chatos ganhassem vez e voz, criando um mundo paralelo em que somos escravos de sua falta de bom senso e impertinência.

Como dimensionar quem é o chato da vez, de que forma dizer que estamos incomodados com esta tentativa de impor sua presença digital sem ampliar os melindres e os mimimis? É certo que em algum momento também nos vestimos com a capa da chatice, este é um drama em que estamos dos dois lados.

Você e eu, somos os chatos políticos, históricos, religiosos, piadistas e os tarados do bom dia e da boa noite. Não compreendemos o silêncio respeitoso que surge do outro lado da tela, a forma educada de dizer que desagradáveis. É difícil compreender que não receber uma mensagem de volta, também é uma mensagem.

Agora, as facilidades digitais nos torturam, são alem destes, as ligações e mensagens de telemarketing, cobranças, oferecimento de empréstimos, enfim, já começo a pensar seriamente em aprender a milenar arte dos sinais de fumaça, talvez assim seja menos chato e suscetível a eles ou talvez só demonstre que a medida que os anos passam, minha tolerância diminui proporcionalmente.