domingo, 14 de junho de 2015

Fidelidade ou Lealdade?


Desejei escrever sobre as diferenças existentes entre a lealdade e a fidelidade. Creio que uma parte considerável das pessoas realize uma pequena confusão entre elas, mas não precisei me esmerar, encontrei um texto que descreve muito bem o que imagino.

Fidelidade ou lealdade? foi escrito por Ivan Martins e publicado na Revista Época no dia 16/07/2014



Fidelidade ou lealdade?
A gente se preocupa demais com uma e esquece da outra, que talvez seja mais importante


Nos últimos dias, ando apaixonado pela palavra “lealdade”. Deve ser por causa de um livro que estou terminando, um romance sobre antigos amigos e amantes que voltam a se encontrar e precisavam acertar suas diferenças. Eles já não se gostam, mas confiam um no outro. Eles deixaram de se amar, mas ainda se protegem mutuamente. Isso é lealdade, em uma de suas formas mais bonitas. Lealdade ao que fomos e sentimos.

Ao ler o romance, me ocorreu que amar é fácil. Tão fácil que pode ser inevitável. A gente ama quem não merece, ama quem não quer nosso amor, ama a despeito de nós mesmos. Tem a ver com hormônios, aparência e sensações que não somos capazes de controlar. A lealdade não. Ela não é espontânea e nem barata. Resulta de uma decisão consciente e pode custar caro. Ela é uma forma de nobreza e tem a ver com sacrifício. Não é uma obrigação, é uma escolha que mistura, necessariamente, ideias e sentimentos. Na lealdade talvez se manifeste o melhor de nós.

Antes que se crie a confusão, diferenciemos: lealdade não é o mesmo que fidelidade, embora às vezes elas se confundam. Ser fiel significa, basicamente não enganar sexual ou emocionalmente o seu parceiro. É um preceito, uma regra que se cumpre ou não se cumpre, uma espécie de obrigação. O custo da fidelidade é relativamente baixo: você perde oportunidades românticas e sexuais. Não tem a ver, necessariamente, com sentimentos. Você pode desprezar uma pessoa e ser fiel a ela por medo, coerência, falta de jeito ou de oportunidade. Assim como pode amar alguém perdidamente e ser infiel. Acontece todos os dias.

Lealdade é outra coisa. Ela vai mais fundo que a mera fidelidade. Supõe compromisso, conexão, cuidado. Implica entender o outro e respeitá-lo no que é essencial para ele - e pode não ser o sexo. Às vezes o outro precisa de cumplicidade intelectual, apoio prático, simples carinho. Outras vezes, a lealdade requer sacrifícios maiores.

A primeira vez que deparei com a lealdade no cinema foi num filme popular de 1974, Terremoto. No final do drama-catástrofe, o personagem principal – um cinquentão rico, heroico e boa pinta – tem de escolher entre tentar salvar a mulher com quem vivia desde a juventude, com risco da sua própria vida, ou safar-se do desastre com a jovem amante. Ele escolhe salvar a velha companheira e morre com ela. Parece apenas um dramalhão exagerado, mas desde Shakespeare o drama ocidental está repleto de escolhas desse tipo. É assim que nos metem conceitos elevados na cabeça. Vi esse filme com 16 e 17 anos e nunca mais deixei de pensar na lealdade em termos drásticos.

A lealdade está amparada em valores, não apenas em sentimentos. É fácil cuidar de alguém quando se está apaixonado. Mais fácil que respirar, na verdade. Mas o que se faz quando os sentimentos desaparecem – somem com eles todas as responsabilidades em relação ao outro? Sim, ao menos que as pessoas sejam movidas por algo mais que a mera atração. Se não partilham nada além do desejo, nada resta depois do romance. Mas, se houver cumplicidades maiores, então se manifesta a lealdade. Ela dura mais do que os sentimentos eróticos porque se estende além deles.

O romantismo, embora a gente não o veja sempre assim, é uma forma exacerbada de egoísmo. Meu amor, minha paixão, minha vida. Minha família, inclusive. Tem a ver com desejo, posse e exclusividade, que tornam a infidelidade insuportável, a perda intolerável. As pessoas matam por isso todos os dias. Porque amam. É um sentimento que não exige elevação moral e pode colocar à mostra o pior de nós mesmos, embora pareça apenas lindo.

Minha impressão é que o mundo anda precisado de lealdade. Estamos obcecados pela ideia da fidelidade porque a infidelidade nos machuca. Sofremos exacerbadamente porque o mundo, o nosso mundo, não contém nada além de nós mesmos, com nossos sentimentos e necessidades. Quando algo falha em nossa intimidade, desabamos.

Talvez devêssemos pensar de forma mais generosa. Talvez precisemos nos apaixonar por ideias, nos ligar por compromissos, cultivar sonhos e aspirações que estejam além dos nossos interesses pessoais. Correr riscos maiores que o de ser traído ou demitido. O idealismo, que tem sido uma força de mudança na conduta humana, precisa ser resgatado. Não apenas para salvar o planeta e a sociedade, mas para nos dar, pessoalmente, alguma forma de esperança. A fidelidade nos leva até a esquina. A lealdade talvez nos conduza mais longe, bem mais longe.



Ivan Martins escreve às quartas-feiras.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Redescobertas

Façamos um exercício de imaginação, não é difícil, basta fechar os olhos, permitir que a alma fique leve e viaje no tempo, especificamente para a região nordeste da atual Itália, durante o final do século XIX. Encontraremos uma sociedade sob forte crise econômica, com pouco emprego e muita fome, onde reinava a desesperança e incerteza.

Um cidadão italiano qualquer, ao ser questionado pelo Ministro de Estado de seus pais sobre as razões que ditavam a emigração em massa respondeu conscientemente – “Que coisa entendeis por uma nação Senhor Ministro? É a massa dos infelizes? Plantamos e ceifamos o trigo, mas nunca provamos pão branco. Cultivamos a videira, mas não bebemos o vinho. Criamos animais, mas não comemos a carne. Apesar disso, vós nos aconselhais a não abandonarmos a nossa pátria? Mas é uma pátria a terra em que não se consegue viver do próprio trabalho"?

Esse quadro social foi o responsável por toda uma onda migratória da Europa para a América do Sul, especialmente ao Brasil, o eldorado, onde havia terra e oportunidade a quem desejasse trabalhar. Provavelmente esse foi o motivo principal para que um casal de italianinhos do Vêneto, ele de Vicenza, ela de Sarcedo, optassem por atravessar o Atlântico com o filho primogênito e começar uma vida nova em terras tropicais.

Toda saga, obrigatoriamente entrelaça histórias carregadas de drama, de superação, heroísmo, vitórias e derrotas, de chegadas e partidas. Não seria diferente com a que eles estavam escrevendo no livro de sua história. Imagine perder, em alto mar a vida do primeiro dos doze tesouros que eles teriam em vida, separarem-se dele no Oceano, presenciar inertes o último suspiro, a partida lenta na imensidão das águas. Teriam tomado a decisão correta? Quais os questionamentos que nasciam e retumbavam em seus seres?

Longos dias possuem cem anos, já dizia meu avô e os dias atuais são tão diferentes daqueles do século XIX, novas tecnologias em todas as áreas de atuação humana, situações que seriam inverossímeis, hoje são corriqueiras que tornarem-se imperceptíveis, se antes tudo engatinhava, agora possuem brevê.

Daquele primeiro casal, o marco zero de um trabalhador manual e de uma dona de casa, nasceram artesãos na primeira geração, construindo sim um novo Brasil. Os filhos nascidos em solo brasileiro, em sua maioria seguiram os passos do pai. E se estes, não transmitiram para seus filhos os ensinamentos profissionais, perpetuaram os valores morais que impulsionam ainda hoje o sentimento de orgulho que a força de um sobrenome carrega. Quando olhamos as fotos da primeira geração, temos uma convicção, não há necessidade de nenhum teste de familiaridade, todos os filhos possuem o mesmo olhar marcante, mesmo formato de rosto, testa, nariz adunco, grandes orelhas, mascas d’água, assinaturas genéticas incontestáveis.

A semente de desbravar novas terras também foi transmitida, afinal, não é por acaso que encontramos nosso DNA nos Estados Unidos, tios e primos se estabeleceram nas terras do Tio Sam para mostrar o que os Cervas possuem de melhor. Creiam, não é somente a capacidade de se indignar, de ser estourado, de possuir uma personalidade forte que quando se manifesta pode ser classificada como “ataque de cervite” como define uma prima. Somos muito mais do que descendentes de um casal italiano, que formam um grupo ao mesmo tempo hetero e homogêneo, situação que só comprovamos ao tirar os óculos da imprudência e observarmos as pessoas e suas histórias com o apurado sentido de historiadores.

Contrariando o senso comum, aquilo que fomos levados a crer, somos muitos! Somos capítulos de uma história que está em permanente desenvolvimento, páginas raras da História, estudantes, trabalhadores, donas de casa, aposentados, professores, artistas, contadores, advogados, administradores, mestres e doutores, enfim, contar e precisar o número de pessoas que nasceram a partir daquele casal leva tempo, já passamos pela segunda, terceira, quarta, quinta e talvez estejamos próximos da sexta geração que se aproxima em alta velocidade.

Buscamos com interesse e afinco nossa origem, compreender de onde surgiu a coragem que levou um jovem casal, a atravessar o Oceano em busca de novas oportunidades em um mundo totalmente inóspito, em que o conhecimento não era encontrado em toda a esquina. Buscamos sim, recompor, unir os laços, reforçar os nós ainda existentes, reunir aqueles que se distanciaram, reescrever a história que ficou esquecida no fundo das gavetas do tempo. Claro, ser Cerva é repetir que o sobrenome é escrito com “c”, escutar a piada se é cerva de cerveja, mas sobretudo é ter orgulho por não possuir um sobrenome comum, é ter consciência que não faltou coragem aos desbravadores que aqui chegaram ao apagar das luzes do século XIX.

Independente da crença que norteia nossas vidas, se acreditamos ou não em determinados preceitos espirituais ou espiritualistas, faço um esforço literário e vejo na frente da casa de madeira, com as ripas colocadas verticalmente, indicando que lá vive um casal italiano, o nonno e a nonna conversando. Ele com um copo de pinga na mão direita, se embalando na cadeira de balanço de rangido característico, olhar ao longe como quem admira uma tela e ela absorta no tricô, produzindo mais um casaquinho para um bambino que está prestes a chegar. O nonno com aquele sotaque do norte italiano, pigarreia e diz realizado:

“Mia vecchia, lo sai che siamo contenti perchè abbiamo una grande famiglia com le persone giuste, che sanno essere vero che abbiamo fato tutto per loro di vivere bene”. *


* “Minha velha, você sabe que somos felizes, porque temos uma grande família, com pessoas justas, que sabem ser verdade que fizemos tudo para que eles vivessem bem”.