O bom ou ruim das quentes noites do verão Portoalegrense, é a constante dificuldade de dormir, o calor que reside na atmosfera da capital gaúcha é, na falta de algo melhor para fazer, um verdadeiro convite para reflexão. Assim descobrimos que existem situações que não compreendemos totalmente, talvez por nossa incapacidade de apreciar níveis culturais distintos da mesma forma que outros o fazem com galhardia.
Não é tão complexo quanto parece, para ilustrar, divido o fato que ocorreu dia desses ao falar com uma amiga. Abro um pequeno parentese para apresenta-la como uma jovem que fala inglês e espanhol, arranha no francês e um pouco de árabe, leu escritores clássicos, tem um excelente gosto musical, viajou por parte do mundo e mergulha a fundo na cultura mundial. Voltando ao ocorrido, ela comentou que estava fazendo naquele momento um processo de desintoxicação.
Fiquei preocupado, sério, desintoxicação é uma palavra forte que nos remete diretamente ao processo de livrar o organismo de algo que faz mal. O tempo que a conheço me permitiu questionar o que acontecia e ela com o humor peculiar explicou que estava mergulhando na discografia do quarteto de Liverpool na tentativa de limpar sua mente do que tinha escutado.
Continuei indagando, agora com um misto de curiosidade e surpresa, o que poderia ter escutado de tão grave. Relutante ela comentou que havia escutado uma "fantástica" música do cancioneiro popular interpretada pelos ídolos Valesca Popozuda e MC Catra, de sugestivo nome Mama.
Procurei no youtube a música e para minha surpresa, ela já tinha quase 2 milhões de acessos, com uma descrição que afirma ser um pagode clássico sem palavrão. Amigos e amigas, a música é praticamente a descrição de um ato sexual. É de um mal gosto supremo, de uma bestialidade capaz de surpreender negativamente a Einstein.
Os dois artistas possuem uma visibilidade e são consumidos por um grande setor da sociedade brasileira. Fabricam ou criam estas músicas simplesmente porque existe quem as consuma. É o reflexo claro da falta de incentivo a cultura ou desinteresse para acessá-la de forma que estas pessoas tenham acesso a uma nova realidade.
Certo, a definição de cultura é pessoal, da mesma forma que o é a percepção de qualidade. Porém o bom gosto deve andar de mãos dadas com elas. Talvez seja um pensamento distante da realidade. Posso afirmar que, concretamente, fiquei pensando no futuro que teremos, porque as pessoas que brandam "muita polêmica, muita confusão, resolvi parar de cantar palavrão. Por isso, negão, vou cantar essa canção, quando eu te vi de patrão, de cordão, de R1 e camisa azul..." (isso é o que pode ser transcrito) são as que decidirão os destinos do País, irão as urnas eleger seus representantes, trabalharão no Estado, na iniciativa privada, etc.
Bom, meu processo de desintoxicação é de choque. Não recorri aos clássicos do rock, fui mais fundo, estou com fones enfiados até os tímpanos recebendo doses maciças de Mozart e Tchaikovsky, se tudo der certo, tenho alta antes do final de semana. Porém sem compreender e sem fazer muito esforço para tal, como, existe tanta discrepância neste País tupiniquim.
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