quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Flor de algum jardim

Inegável, em algum momento da evolução deixamos de prestar a atenção nos detalhes importantes da criação humana. Sim, houve essa ruptura em um ponto da curva em que jogamos a percepção pela janela e ficamos atrelados a uma valorização rasa, criada principalmente nas definições geradas através das lentes enfumaçadas que ornam a visão.

Sendo assim, querendo sair do lugar comum ou como martelam alguns administradores, da zona de conforto. Ela me pede impositiva, do jeito que apenas uma canceriana seria capaz de fazer, entre um olhar furtivo e outro – “pega esta caneta e estas folhas e me descreve, diz o que vê o que tu acha de mim, agora, em forma de poesia!”.

Falar, ou melhor, descrever alguém é sempre uma tarefa delicada. Pense bem, as percepções que você tem ou o pré-julgamento idealizado, necessariamente não é a essência da pessoa analisada. As verdades que cada um carrega ou a intensidade das experiências vividas durante um processo de amadurecimento e crescimento gravam marcas indeléveis no HD individual e ao contrário do que acontece na informática, o acesso nem sempre é autorizado.

Criar uma poesia é sempre uma doação. É o momento em que o pequeno deus que reside dentro de cada um, é capaz de expandir seu pensamento e descrever de forma plena o que a razão e o sentimento produziram em dueto, e um deus não conhece limites. O problema, é que em mim, residem vários deuses imortais, que acordam da hibernação conforme a conveniência do momento.

O primeiro que surgiu a meu chamamento foi Luxurius e carregava pronto seu veredicto, carregado de palavras do desejo primitivo e animalesco, o mesmo que implora por nudes no meio da noite e imagina as curvas do corpo sendo descobertas a cada peça de roupa subtraída, o convite a devassidão desmedida na nudez sob um fino lençol de seda. Sabe combinar a lingerie quando esta mal intencionada ou que usa uma peça bege de algodão. Mulher tatuada é miragem, poema que desfila no balanço de seu quadril, convidando e avisando - não se aproxime se não quiser se queimar!

Entreguei a folha. Leu, enrubesceu e sorriu – Amei, estou lisonjeada, curti bastante, mas – estendendo a folha – não é isso que esperava. Eu queria que tu descrevesses a minha alma e não meu corpo, não com esse forte sentimento de “te desejo”. Tu me entendes?

Agora era o meu momento de sentir uma frustração crescente, não era aquilo que desejava ouvir o admirador secular. Ela queria ser desnudada, mas não a carne e sim a alma. Não estava interessada em saber que o All Star vermelho seria jogado para baixo da cama e outro pé seria perdido entre a blusa preta do Ramones e o jeans surrado. Isso não lhe interessava, ela queria que lesse a alma desperta, despida, entregue e liberta.

Encarei nova folha virgem enquanto esperava a manifestação de mais um deus que habita em mim. Veritas se aproximou e passou a ditar de forma atabalhoada que ali não se encontrava uma mulher madura, mas sim uma alma que jamais envelhecerá, uma moleca que não se importa com convenções, que anda de pés descalços e abraça a Terra. Igual a toda representante feminina de alta estirpe, é mãe, filha, parceira, companheira, doce e picante. Uma pimenta que deve ser apreciada com moderação, pois queima e refresca com a mesma intensidade. Nada é pela metade e somente lhe cabem inteiros.

Ela é capaz de carregar em sem íntimo, a intensidade e força dos furacões e tempestades tropicais ao mesmo tempo em que é brisa calma embalada por Camomila. Ela explode quando seus limites são testados, mas se reconstrói e sendo descendente da Fênix, não faz drama e tão pouco se martiriza, já possui sabedoria suficiente para saber que tudo acontece no momento certo, seguindo o cronograma do Tempo. Mesmo assim, é rebelde! Não deixa nada para depois, pois sabe que esse depois, dependendo do humor de Cronos, pode não ocorrer e assim aproveita cada segundo como fosse o último do relógio com uma velocidade, ferocidade e fome invejáveis. Arrependimentos são fardos desnecessários para acompanhar nessa viagem da existência.

Novo movimento de entrega e a receptividade é melhor, embora sentencie – ainda falta alguma coisa, sabe ler a alma feminina tão bem, porque não está conseguindo fazer isso comigo?

Agora Eros se manifestaria com toda sua sapiência nas questões mais sentimentais. Explanaria que para ela o amor é assunto sério, aquele que se negocia olho no olho, com entrega total, mãos entrelaçadas, encaixe de corpos no sofá enquanto assiste filme, série ou simplesmente olha para o infinito. Ela não espera um príncipe romantizado, ela quer um parceiro que não lhe corte as asas, lhe permita voar e voltar por vontade e não obrigação. Ela entrega colo, abraço, ombros e ouvidos quando solicitada e nada pede em troca, só espera atenção, carinho e amor.

Lê e repete – me descreve, diz o que vê em mim! Finalmente nesse momento a ficha caiu. Percebi que não estava sendo convidado a descrevê-la por simples curiosidade, pois realmente não se importa com o que as pessoas pensam dela e posso jurar por tudo o que é mais profano. Era algo mais sublime, o convite para zingar o mar revolto de sua essência que deseja apenas paz e encarar o outro sem as amarras de convenções. Quem mergulha nela, tem como recompensa um baú, que contrariando a pieguice, não guarda moedas de ouro, jóias ou a chave do coração da mocinha, que nessa história, se salva sozinha.

Guardado nele está sua alma, aguardando ser conquistada por alguém de verdade e não por estes aventureiros desavisados e inconsequentes que se encontram em todas as esquinas e acordes. Ela deseja mais que um pedaço de chocolate, buques de rosas e cafés da manhã. Deseja ser descoberta, conquistada, entendida e compreendida com todas as suas imperfeições e contradições, gritando, berrando e se entregando à vida, de uma forma que até mesmo os anjos e demônios do céu teriam inveja.

Uma vez mais sentencia – vamos lá, agora é a hora de ver se é bom mesmo, diz o que vê em mim! E por mais uma vez, encaro a vastidão de seu olhar, os lábios que amaria beijar e enquanto suspiro fundo e me desarmo, aceito o desafio e antes que o silêncio roube as palavras, impedindo que descreva exatamente o que és – êxtase – te respondo audaciosamente. Não! Agora é a tua vez!

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Recado do Além

Sonhei com meu avô e neste sonho ele trazia uma mensagem de incentivo, um recado enviado por um antigo amigo.

_ Sabe meu filho, encontrei o Mário e ele 
pediu para te dizer que esses que estão atravancando teu caminho, eles passarão e tu...

_ Eu passarinho! Emendei , concluindo o célebre poema de Quintana.

_ Não, caspita! Mania de atalhar o que se vai dizer! Tu vai mandá-los às favas, cazzo!

_ Mas assim vô? Sem mais e nem menos?

_ Pois olha sangue do meu sangue, podes também mandar flores ou um cartão em papel bonito. Ainda existe a possibilidade de ser, como dizem? Politicamente correto e explicar que o problema não é.o saca a que tenta levar vantagem em tudo ou ainda a infantil criatura que se julga mais importante que o mundo e está sempre sem tempo ou atarefada. Ah e não esqueça, em nossa família temos tendência a desenvolver diabetes, portanto, não aceite orifício corrugado inferior glicosado.

Rimos bastante enquanto ele baforava um cigarro atrás do outro e eu tentava escapar da fumaça sufocante do pito. No fim, ele olhou para o horizonte como se contemplasse pela última vez o sol ou estivesse se conectando a espíritos evoluídos de luz, tirou o cigarro dos lábios, franziu o cenho e proferiu.

_ Filho, já sabe, esses que estão atravancando teu caminho eles passarão e - ficamos em silêncio por poucos segundos até que completou - descobrirão que caganeira não dá uma vez só na vida do homem.